Se os argumentos do governo, do PSD e do CDS e dos que estão a beneficiar com a situação do país fossem levadas às últimas consequências, dificilmente teríamos eleições nos próximos anos, porventura só depois de saldada toda a dívida, lá para o final do século.Afirmava Nassib Taleb, professor de Ciências da Incerteza na Universidade de Massachusetts, num editorial do Financial Times, em 2009, que “O que é frágil deve quebrar cedo, enquanto ainda é pequeno”, querendo com isso dizer que nunca nada deve ficar demasiado grande para falhar. Há mais de seis meses que se tornou evidente a fragilidade desta maioria, desde que numa certa tarde de Setembro de 2012 os portugueses desceram à rua massivamente e se fizeram ouvir, e o que parecia ser uma sofrida resignação tornou-se uma convicta oposição a todas as medidas que venham dos lados de S.Bento. Foi esse acontecimento inaugural que modificou radicalmente a percepção que os portugueses tinham da sua força para promoverem uma mudança política. E não está excluída a necessidade de se ter de regressar à rua para fazer valer o imperativo de não se adiar por mais tempo a consulta aos eleitores sobre as escolhas que é urgente fazerem-se.
Se o principal combustível da democracia é o bem-estar contínuo das condições de vida das populações, nos sistemas representativos a consulta aos eleitores é uma condição que se deve aplicar sempre que a sua vontade está a ser alienada a interesses que são antagónicos dos seus projectos de vida colectiva. Ao argumento de que a realização de eleições antecipadas na actual conjuntura só iria desencadear um dilúvio de pragas, fúrias e desgraças, é caso para perguntar se o país vai estar em melhores condições em Outubro de 2015, quando terá lugar obrigatoriamente a realização de eleições legislativas. Aliás, se os que defendem esta solução constitucional para se ultrapassar o impasse político em que o país se encontra não olhassem para além do interesse das suas organizações políticas, deixavam que os partidos da maioria fossem sofrendo o apodrecimento dos seus apoios até colapsarem ao nível da insignificância. Mas este cálculo tropeça num detalhe incontornável: a vida dos portugueses. Esse, sim, é o único critério a que devem obedecer as decisões político-partidárias. E no ano em que se assinala o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, a melhor homenagem que se lhe pode prestar é não desfalecer no combate a este governo e a esta política, sabendo-se eleger não só o adversário a derrotar mas também os aliados indispensáveis para o efeito. Apesar de numa passagem da obra-prima da ciência política ser afirmado a certa altura que “Não há nada mais difícil de levar a cabo, nem de êxito mais incerto, nem mais perigoso de lidar, do que iniciar uma nova ordem de coisas”, há um momento em que não é mais possível adiá-la.

