Abril ficou a acção por excelência, a transmudação das coisas mais importantes.
Algo que se fez.
E quando eu pronuncio a palavra Abril, essa nomeação fala-me da acção desencadeada, faz-se palavra-motor;
condensa toda uma narrativa.
Maria Alzira Seixo, Reflexão sobre a escrita
Como era inevitável, e desde que cultura e literatura se pensaram como instrumento de transformação do mundo, a madrugada inesperada do 25 de Abril de 1974, que abalou indiscutivelmente o país, determinou um imediato processo de autocrítica por parte dos intelectuais portugueses. E como sempre acontece nos momentos em que a sociedade é colocada perante uma forte conflitualidade entre “novo” e “velho” e entre “classes” em vias de formação, as ideologias que até então determinavam a prática literária foram objecto de análise mais ou menos profunda, isto é, passaram por uma reflexão que tendia a testar, a verificar ou a julgar problematicamente os textos produzidos a partir duma estética que, à partida, se previa envolvida num processo dinâmico de transformação.
Tal reflexão, que historicamente não pode excluir o modo de ser social, pondo em evidência o problema da relação entre cultura e sociedade, também não pode deixar de empreender uma análise crítica à natureza prática e social da palavra, ao modo de representação a partir das virtualidades do signo. Durante algum tempo, de certo modo porque a luta política mobilizava a atenção de todas as forças disponíveis,[1] os possíveis criadores literários ensaiavam um novo discurso à procura de “outra” palavra, legitimando a concepção de que o texto é uma síntese de matéria e forma, de conteúdo e “expressão”, de estrutura e linguagem, componentes que envolvem substância e comunicação como interrelação entre problemática histórica e produção artística.[2]
Isto significa que os criadores do produto literário – incluindo artistas e críticos em geral – perderam a convicção ingénua do critério “inspiracionista”. No caso específico, assiste-se a um processo complexo mas em que prevalecia a intenção de contrastar o domínio do idealismo estético mediante técnicas e procedimentos diversos mas convergentes, pelo menos no empenho de justificar os critérios de criação artística. Se a sociedade tinha alcançado um estatuto de emancipação no sentido da liberdade de expressão; se tal estatuto conduzia à necessidade de propor novos conteúdos para exprimir a nova situação, é em todo o caso evidente que tais conteúdos não poderiam prescindir das formas precedentes, ao mesmo tempo que a nova produção artística não poderia obedecer aos ditames da burocracia, a “leis” impostas do alto, e que, pelo contrário, seria o resultado de coordenadas teórico-estéticas elaboradas pelo trabalho de reflexão,[3] tendo em consideração todos os aspectos ou “níveis” do texto literário, sem excluir o chamado “nível material”, o nível dos “grupos semânticos”.[4]
Com a involução política que viria a controlar o processo revolucionário, «as ilusões pacifistas que percorreram o movimento popular, a sua subordinação ao MFA, permitiram a vitória fácil do 25 de Novembro […] que reprime o movimento popular e o movimento dos soldados, ameaças demasiado evidentes à ‘transição pacífica para o socialismo’».[5]
Não é o único militar, dos que intervieram activamente no derrubar de uma ditadura obsoleta que durava desde 1926, a interrogar-se sobre o desvio da História iniciada em 25 de Abril de 1974. Também Cruz Oliveira, já no décimo aniversário desta efeméride, recorda a explosão dos cravos vermelhos, o canto à liberdade, o sonho de um viver fraterno, tudo imagens que pertencem à semântica da utopia: «o mito é o nada que é tudo», como radicalmente já foi expresso por Fernando Pessoa. Mas dez anos volvidos, Cruz Oliveira assume a frustração e denuncia as armadilhas duma aparente dialéctica que minava um projecto posto em marcha para o reconduzir às vias da normalidade: «Mas não esquecemos a traição, não esquecemos a vilania, a trapaça, a inveja, o reaccionarismo mascarado, a desestabilização, o bombismo. Não esquecemos as várias acções contra-revolucionárias até ao 25 de Novembro, e as prisões de Custóias, Santarém e Caxias […] – Que democracia é esta? – Onde pára a nossa Revolução, feita para restituir a dignidade ao nosso País e às Forças Armadas? – Camaradas Capitães de Abril, onde iremos parar?».[6]
Dez anos após o florir dos cravos, o sentimento dominante era, como se vê, de desencanto e de perplexidade perante o progressivo e programado esquecimento, com a transformação do dinamismo revolucionário numa efeméride indesejável que quase não se celebrava, nem sequer uma vez por ano. Por isso, foi numa perspectiva de resistência que nasceu a ideia da antologia poética Poemabril,[7] como resulta explicitamente da “nota prévia” dos coordenadores: «Porque nos recusamos a aceitar que o 25 de Abril seja, no futuro, apenas nome de pracetas suburbanas, porque a pedra dos nossos monumentos é a palavra, e ainda porque fomos protagonistas dessa gloriosa e inesquecível data, quisemos deixar o nosso testemunho, reunindo estes poemas e estes depoimentos como homenagem a quantos tornaram possíveis esses dias e meses que, quer se queira ou não, abalaram definitivamente o nosso mundo. Os textos são, de qualquer modo, indicadores do património acumulado; das perguntas, ideias, vontade de saber, de participar e cantar aquele grande ‘facto’ colectivo».[8]
A antologia veria uma 2ª. ed. no 20° aniversário do acontecimento, recuperando textos e nomes ausentes da primeira e evocando de modo particular a memória de José Afonso, com a «homenagem ao grande dinamizador cultural, ao compositor, ao cantor por antonomásia do espírito que desencadeou o 25 de Abril, de que se tornou por direito seu símbolo privilegiado».[9] E sobre a funcionalidade textual da nova edição, afirmam ainda os responsáveis: «Vinte anos decorridos sobre aquela madrugada de muitas promessas, a palavra dos poetas volta a testemunhar o encontro de vozes, necessariamente diversas mas consonantes na sua essencialidade: a recusa do silêncio e a legítima reapropriação de um acontecimento que se tornou, pela sua força explosiva, matéria poética e metáfora da utopia que preencheu o sonho do Homem».[10]
A primeira edição de Poemabril inclui cinco depoimentos de outros tantos “Capitães de Abril” e composições poéticas de 62 autores, muitas delas inéditas, escritas talvez como impulso criador após uma espécie de “convocação geral” ou “aviso à navegação” posto a circular pelos coordenadores. A segunda edição publica os mesmos depoimentos e recupera poemas ausentes da primeira, na tentativa de colmatar algumas lacunas injustas, e, como entre uma e outra intercorre um espaço de tempo significativo, foi possível inserir na segunda textos produzidos ou publicados depois de 1984, totalizando, desta maneira, um elevado número de poetas (73) sensíveis ao tema da revolução de Abril de 1974.
*Publicado anteriormente in Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani, Pisa-Roma, Istituti Editoriali e Poligrafici Internazionali, VI – 2004, pp. 73-77.
[1] Deve dizer-se, no entanto, que os operadores culturais ficaram demasiado silenciosos, se excluirmos o florescente e vivíssimo debate sobre a “canção de intervenção”, o sector que mais de perto acompanhou o processo revolucionário, e a actividade torrencial do poeta José Carlos Ary dos Santos. Mas seria injusto esquecer a função das artes visuais, com a enorme produção de murais, de posters e de autocolantes, por exemplo.
[2] A este respeito é pertinente quanto afirma Mario Rossi: «che la legittimità d’una poetica dipenda oggi dal suo costituirsi e riconoscersi come problematica storica della produzione artistica, sembra questo il risultato inevitabile di tutta la storia del pensiero e della riflessione critica su quelle che la tradizione ci ha tramandato come ‘opera d’arte’» (Cultura e Rivoluzione, Roma, Ed. Riuniti, 1974, p. 565).
[3] “Anche la società borghese ha sostituito una nuova arte e una nuova scienza a quelle medievali, e però l’ha fatto non seguendo, ma precisamente disobbedendo a qualsiasi imposizione, e non restringendo, ma ampliando la cerchia dei produttori culturali” (ibidem, p, 600).
[4] Cfr. Ignazio Ambrogio, Ideologie e tecniche letterarie, Roma, Ed, Riuniti, 2ª, ed., 1974, p.
[5] Mário Tomé, “Porque murcharam os cravos”, in Poemabril, Antologia Poética, Depoimentos de alguns Capitães de Abril e poemas de poetas portugueses no 20°, aniversário do 25 de Abril, Coordenação, nota prévia e nota à segunda edição de Carlos Loures e Manuel Simões, Coimbra, Fora do Texto, 2ª, ed. 1994, p. 33.
[6] C. Oliveira, “Lembram-se?”, ibidem, p. 17.
[7] Poemabril, Antologia poética. Depoimentos de alguns “Capitães de Abril” e poemas de poetas portugueses no 10º Aniversário do 25 de Abril. Coordenação e nota prévia de C. Loures e M. Simões, Tomar, Nova Realidade, 1984.
[8 Ibidem, p. 7.
[9 C. Loures, M. Simões, Nota à segunda edição, cit., p. 12.
[10Ibidem, p. 11.
(Continua)
