ITÁLIA, O QUE NOS DIZ – por Ventura Leite

A eleição de recurso de Giorgio Napolitano como presidente da república italiana veio mostrar várias coisas, sobretudo  uma das  que recentemente estiveram sob os nossos holofotes.

a)      Quando se publicou o Manifesto Pela Democratização do Regime houve algum debate entre nós, e entre críticos exteriores à iniciativa, em torno do que alguns consideraram um excessivo tom crítico sobre a nossa classe política.

Pois o  que acontece presentemente em Itália é um bloqueio ao nível da classe política. Por muito que alguns teóricos  insistam em dizer que os políticos são um reflexo dos eleitores, na minha avaliação há um erro de análise que é crucial.

Aprendi há muito que ao votarmos a escolha de políticos o fazemos supondo que os partidos nos oferecem o que têm de melhor para a nobre função política, e não uma lista de candidatos estatisticamente  representativa da população. Pelo menos eu quero que a minha selecção nacional de futebol, de atletismo, etc, seja composta pelos melhores  atletas nacionais e não por uma amostra estatisticamente representativa  dos atletas de todos os campeonatos nacionais.

O que narealidade acontece é que os agentes políticos comportam-se hoje como os elementos de uma classe no sentido histórico que conhecemos.

Não precisam de vender a sua força de trabalho como os elementos da classe operária, nem precisam de deter os meios de produção como os capitalistas: basta-lhes ter acesso e poder de decisão fiscal sobre cerca de  metade da riqueza produzida anualmente num país: por outras palavras, em alternativa  às outras duas, a classe política  detém algo tão ou mais  valioso e decisivo  e que é o aparelho do Estado, e ainda por cima com legitimação democrática através do voto!

De forma inteligente – até aqui – a classe política construiu-se e formatou-se como classe no processo de   intermediaçãodos conflitos entre as outras duas classes históricas, beneficiando  de alguma  dissolução do próprio conceito e dos contornos daquelas  classes com a emergência crescente  do  “cidadão”.

Na realidade, as correntes mais à esquerda ou mais à direita dentro da classe política alternam-se no poder, mas executando os mesmos rituais  de sobrevivência e de  defesa dos interesses da classe, isto é,  na sua relação com os seus clientes privilegiados e que lhes garantem a manutenção desse mesmo poder.

Portanto, a Esquerda e a Direita não alteram a natureza de classe no exercício actual do poder.

Vem isto a propósito do novo presidente italiano, de 87 anos, e que já encaminhava os seus livros para fora do palácio presidencial quando  lhe foram suplicar que aceitasse mais um mandato.

O que as notícias dizem é que ele fez um discurso muito crítico perante os deputados, acusando-os de falta de vontade e de irresponsabilidade nomeadamente na alteração da lei eleitoral. Foi aplaudido, mas provavelmente as coisas não irão mudar, o que se pode adivinhar pela sua ameaça de bater com a porta se isso acontecer.

Afinal, o  que o Manifesto que nós aprovámos quer  é também uma mudança política que comece  por mudanças nas leis eleitorais!

O que acontece em Itália há dois meses depois das últimas eleições legislativas  é uma paralisia no interior da classe política. Não se pode culpar os eleitores por isso.

Nos EUA tivemos um braço de ferro de vários meses entre Democratas e Republicanos  em torno do que se convencionou chamar de Fiscal Cliff, por causa dos cortes automáticos das despesas e aumento de impostos. Não podemos culpar os eleitores.

Em Portugal  temos tido exemplos suficientes de  indigência  política , mas lembro um processo particularmente doloroso protagonizado pelo PS e pelo PSD a propósito da substituição do então Provedor de Justiça, com o mandato terminado e com visíveis   debilidades de saúde.  Houve um jogo entre os dois partidos em que o Prof. Jorge Miranda acabou queimado nos  jogos  vergonhosamente infantis então levados a cabo. Também não se pode culpar os portugueses por isso!

b)      Por tudo isto, a  actual crise torna-se  muito mais dolorosa para os cidadãos quando  não se tem da parte da classe política uma resposta capaz. E não se tem tal resposta porque a classe simplesmente não sabe como lidar com a crise, ou não sabe como gerir os  impactos  da crise sobre os seus interesses e os dos  seus membros.

Uma notícia de hoje dava conta de que os embaixadores de vários países europeus mostraram recentemente preocupação com um novo  movimento político espanhol ( UI), por recearem que evolua como o M5S italiano de BeppeGrillo. Ou seja, a classe política manifesta algum receio com a evolução da resposta dos cidadãos no contexto da actual crise, resposta que põe em causa a classe no seu todo.

Conclusões:

A crise não tem fim à vista por duas razões:

1ª Exige mudanças profundas ao nível da economia, do sistema financeiro, ao nível  do funcionamento do sistema político, ao nível social e comportamental.  Quem achar que isto é um exagero, e que mais semestre menos semestre as coisas vão ao sítio, então bem pode esperar, que depois vai desesperar.

2ª  O resultado mais trágico deste quadro é que neste contexto de paralisia  a classe política precisa do agravamento  adicional e geral da situação para fazer o que se torna então óbvio. Só então agirá em maior profundidade, quando não tiver mais nada a perder.

Não me esqueço do que disse um dia Aba Eban:

“Os homens e as nações tendem a agir com sabedoria, depois de esgotadas as alternativas”

Pelo menos amanhã, 25 de Abril,  devíamos reflectir nisto.

Abril de 2013

Ventura Leite

1 Comment

  1. “as correntes mais à esquerda ou mais à direita alternam-se…”? Palavra!? E formam uma classe? E “comportam-se hoje como os elementos de uma classe no sentido histórico que conhecemos” (quem conhece?…)? A sério? As “correntes” mais, mas mesmo “mais” à esquerda? Ou, se são “mais” à esquerda do que a ponta esquerda do imbecilmente denominado “arco do poder”, já não são correntes? Nem políticos? Ou não existem? Ou – com a preciosa cumplicidade dos “media” – são escondidos dos eleitores e, com inesperado êxito, até de quem se preocupa em reflectir sobre a “res publica”?
    E há teóricos que insistem em dizer que “os políticos são um reflexo dos eleitores”?! A minha higiénica precaução de evitar o convívio com a estupidez, que a paciência já anda assaz surrada, está a fazer-me perder algumas pérolas da dita absolutamente imprevisíveis…
    Suspeito que a Itália nos diz muito mais do que isto.
    A impropriamente chamada “classe política” (há que ter algum rigor no uso de certos conceitos, antes de nos perdermos na confusão…) tem, sem dúvida, pesadas culpas. Mas, mal se vai quando se identificam os lacaios (parte desse ajuntamento de políticos) com os seus patrões: os donos da sociedade e da economia que, através deles, mas não só (os “Big Brothers” e afins, os meios de comunicação de massas e todos os outros instrumentos de condicionamento social e cultural também têm os seus importantes – e deliberados – efeitos), comandam a política, a economia, a sociedade e… os eleitores.
    Em Itália, Beppe Grillo e os seus desorientados seguidores, eleitos por cidadãos igualmente desorientados e que exprimem o seu descontentamento através dos piores instrumentos, são o quê? Estão fora ou dentro do “grupo dos políticos”? Ou pretendem conseguir a proeza de estar, simultaneamente, fora e dentro!? Qual o seu papel nos mais recentes acontecimentos? De parvos, simplesmente? Ou haverá quem considere a palhaçada que encenaram (incluindo, nos encenadores, alguns conceituados – mas algo distraídos – intelectuais) como o supra-sumo da expressão “da vontade popular” versus “manobras dos políticos”? E que dizer, à esquerda, do papel de Matteo Renzi, apressando-se a expor-se na vitrina dos “salvadores”, buscando rápida vindicta, após ter sido derrotado por Bersani nas “primárias”, em vez de contribuir para uma união do centro-esquerda (é o que há…)? Um verdadeiro exemplo de atitude democrática? Ou mais um, a somar a tantos, dos maus exemplos do tal “centro-esquerda” italiano, que se tem distinguido pela ineficácia e pelos tapetes vermelhos que tem estendido para Berlusconi passar?
    Creio que há que meditar com mais profundidade sobre o que está a acontecer um pouco por todo o lado (por toda a Europa, sem dúvida), não para desculpabilizar aqueles políticos efectivamente carreiristas e oportunistas, mas para distinguir, na floresta, algumas árvores ainda saudáveis e, sobretudo, para encontrar os meios de combater o verdadeiro inimigo e dizimar os seus generais e estados-maiores, não ficando apenas a apontar armas arcaicas a oficiais subalternos, sargentos e praças…
    E, antes de mais, há que não embrulhar o nobre conceito de Política no papel pardo da indefinida amálgama de uma “classe” de “políticos”, que de políticos (os que servem a “polis”) nada têm, contribuindo para a descredibilização da actividade política – que deveria ser assumida por todos os cidadãos – perante massas populares, infelizmente (e por interesse e acção dos poderosos) ignaras, deste modo colaborando na disseminação de um labéu tão ao gosto da “doutrina” salazarenta e de todos os fascistóides que prosperam e vão agenciando adeptos, à sombra destes lugares-comuns aparentemente inofensivos.

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