Não sei se é dor se alegria
O que sinto
Quando abro ao sol as portas de Abril.
Não sei se é dor
Tristeza ou alegria
Aquilo que sinto neste dia
Em que Abril faz tantos anos
De saudade e nostalgia.
Anos de luminoso tremor
Corações ao alto
Quadros verdes de sonho e raiva
De sol e chuva em celeste azul
Luzindo nos olhos de uma gaivota.
Branca gaivota de penas mansas
Voando solitária dentro de mim
À volta de um cravo vermelho
Que me ficou dentro do peito.
Abro as janelas a medo
Neste areal de escuro céu
Contra o mundo, a idade e o cansaço
E não sei se é vida ou amargura
A estreiteza deste espaço.
Sei que um rio de negras águas
Cavalga as margens do meu ser
Por entre as fendas da secura
E de novo afoga a democracia
às sangrentas mãos da ditadura.
Ilustração – Quadro de Adão Cruz


Meu Caro Adão
Como sabes, a tua pintura espantou-me e obrigou-me, quando a conheci, e continua a obrigar-me à reflexão, necessidade esta, a da reflexão, que a tua poesia acentua.
Tenho para mim, e nem todos os meus amigos concordam, que temos um governo para-fascista, mas sinto que o teu poema vem acentuar em mim esta opinião e, ao mesmo tempo, não deixo de pensar que só da nossa acção dependerá não tornar possível a concretização do que o teu poema antecipa mas não deseja
«Sei que um rio de negras águas
Cavalga as margens do meu ser
Por entre as fendas da secura
E de novo afoga a democracia
às sangrentas mãos da ditadura.»
Recebe o abraço solidário do
António