NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 94 – por Manuela Degerine

 O patriotismo

Hoje, dia 27 de abril de 2013, numa entrevista a “Este Sábado”, na Antena 1, o professor Jorge Miranda lamentou que o Presidente da República fosse incapaz de falar aos portugueses de patriotismo, de exaltar “a ideia de Pátria”… Concordo com ele inteiramente. Eu que, para além de ser portuguesa, também sou francesa, eu que trago em mim dois patriotismos, tenho agora que falar aqui deste.

Na minha infância, antes de 25 de abril de 1974, evocava-se muito a Pátria: o regime servia-se deste sentimento, o amor pela sua terra, pela sua língua, pela sua História, para reforçar uma legitimidade contestada pela população. Já lá vão trinta e nove anos, muitos esgotos correram para o mar, muitas florestas foram incendiadas, muitos direitos foram conquistados e agora perdidos.

Não voltei a ouvir falar da Pátria. E contudo preciso dela…

Detestei o engenheiro José Sócrates por, num verão em que Portugal ardia, ele, então Primeiro Ministro, não achar necessário interromper as férias para acompanhar os portugueses na dor de perderem as suas casas e as suas árvores, na dor de, quando na aparência nada haviam perdido, verem arder o que profundamente eles eram: o seu País. Eu – como tantos portugueses – chorei perante as imagens que a televisão mostrava.

E nem sei dizer o que penso do agora Primeiro Ministro, o qual deu a maior prova de incompetência recomendando aos jovens que emigrassem… No entanto também sou francesa e, sem ser emigrante, vivo com frequência em França. Mas quero que cada criança que em Portugal nasce tenha o direito fundamental de viver na sua terra. Se quiser. Quando quiser. Um Primeiro Ministro deve – tentar pelo menos – criar condições que garantam emprego a cada um?

Quanto a Aníbal Cavaco Silva, tanto a propósito das declarações sobre a sua miséria, coitado, graças a Deus foi sempre “poupadinho”, num país em que muitos sobrevivem com duzentos euros mensais, como a propósito da sua definição de democracia, não vale a pena fazer eleições, acha ele, também me interrogo: para que serve este presidente da república? Passa meses sem sair de Belém. (Deve ser um palácio agradável.)

Nem a Escola, nem os políticos, nem os meios de comunicação, nem sequer a família, nada nem ninguém ensina as crianças e jovens e mais velhos, aprender até morrer, a contribuírem para um bem comum que vai de não deitarem lixo para o chão a não participarem na economia paralela, passando evidentemente por não destruírem equipamentos públicos, enfim, por cada um dos grandes e pequenos atos quotidianos, o trabalhar bem, o não poluir, o ser amável; ninguém lhes diz que Portugal é o que eles forem. Ninguém os incita a preferir os produtos nacionais nem a respeitar as pedras antigas ou os desenhos da calçada…

Claro que não gostamos da nossa mãe por ser a mais bonita ou a mais inteligente mas apenas por ser a nossa mãe; e com a Pátria passa-se o mesmo. Se tivéssemos nascido e crescido noutra terra não seríamos quem somos – é evidente. Mas, para além disto, que basta para nos ligar subjetivamente à nossa terra, Portugal não é objetivamente um país qualquer. É o único da península ibérica que resistiu aos castelhanos e manteve a independência. Inventámos a bela e grande língua portuguesa; uma das mais faladas no mundo. Na época dos Descobrimentos colocámo-nos na vanguarda científica e qualquer historiador, inglês, francês, indiano, qualquer que seja a sua posição ideológica, tem agora que reconhecer a nossa contribuição; criámos o mundo global. Inventámos uma revolução poética e pacífica que, de então para cá, outros países tentaram, com diversas flores, inutilmente imitar…

Temos um futuro tão grande, tão ambicioso como o nosso passado e não precisamos de Pedro Passos Coelho nem de Aníbal Cavaco Silva para o construir. Calha bem.

1 Comment

  1. É como dizes, Manuela – não seremos o «melhor povo do mundo», como diz um ministro ao serviço da troika, mas também não seremos o pior. Só esse «pormenor» de sermos os únicos hispanos que não são espanhóis, nos deve encher de orgulho. Essa gente de que falas – Cavaco Silva, Passos Coelho,- em nada contribui para que solucionemos os nossos problemas – pelo contrário.

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