EDITORIAL – Há 130 anos nasceu Jaroslav Hašek; há 68 Adolf Hitler suicidou-se.

Imagem2Jaroslav Hašek nasceu em 30 de Abril de 1883 em Praga, no Império Austro-Húngaro, actual República Checa. E isso será tema para um editorial?, perguntarão – achamos que sim. Vamos ver.

Diz com frequência o argonauta Mário de Oliveira, o Padre Mário da Lixa, que o que é importante é que os animais racionais que temos sido, dêem lugar a seres humanos. No seu romance A Mãe, Máximo Gorky dizia que «o homem se deve ir distanciando do animal». Segundo Thomas Hobbes, o filósofo inglês do século XVII, «o homem é o lobo do homem», ou seja, os homens lutam por definir o seu território, tal como acontece com os animais em geral – para Hobbes, os conflitos, as guerras, são o estado natural das sociedades humanas.

O caminho para a humanização da espécie tem sido tentado de várias maneiras. As religiões falharam. Erram há milhares de anos, tiveram durante séculos a superstição e a ignorância ajudando-as a impor as suas leis. Hoje, tentam conviver com a realidade turva que ajudaram a criar, mas fazem-no da pior maneira – o Vaticano usa métodos mafiosos, o Islão impõe-se fazendo os fiéis regredir intelectualmente e aceitar um integrismo que é, em si, a negação de tudo o que Maomé defendeu, o sionismo opta pela tese nazi do «povo eleito»… Os sistemas sociais têm falhado uns atrás dos outros. A blague de Churchill de que a democracia é o pior de todos os sistemas políticos, com excepção de todos os outros, sendo que por democracia Churchill queria dizer capitalismo, é uma frase com graça e nada mais.

Jaroslav Hašek nasceu faz hoje 130 anos. Também faz hoje anos, mas apenas 68, que Adolf Hitler se suicidou no seu bunker de Berlim. Enquanto nascerem monstros como Hitler, oImagem1 nascerem também no mesmo planeta pessoas como Jaroslav Hašek, prova-nos que a Humanidade não estará perdida. A ferocidade canibalesca, a competição fratricida, a estupidez emproada, que ritualizados em categorias sociais, culturais, em hierarquias de diversos teores, são dominantes, encontrarão a cretinice astuta dos Chveik no seu caminho. Chveik usa os regulamentos militares para sabotar a disciplina militar.

Não que o caminho da Humanidade seja o da cretinice generalizada. A passagem dos animais racionais à condição de seres humanos, tem de ser feita através dos sentimentos, através da inteligência. Os Chveik apenas provam que nem tudo está perdido. E que, muitas vezes, animais racionais como Hitler são forçados a sair de cena por não terem lugar nos palcos delirantes que criaram. Por não conseguirem superar a contradição entre os sonhos que conceberam e o pesadelo da derrota com que a realidade os confronta.

A obra de Jaroslav Hašek é um hino à insanidade que permite, num mundo governado por loucos e por canibais, manter a sanidade mental – aquela que, talvez um dia, nos levará à condição de seres humanos.

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Ilustração – A capa de uma edição portuguesa de O Valente Soldado Chveik – capa da autoria do argonauta Dorindo Carvalho.

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