Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Mais um passo para o precipício
Jacques Sapir
A zona euro, sob o efeito combinado das políticas de austeridade, está-se a afundar na crise. Contudo, nunca os debates sobre a política económica foram tão intensos. O facto é que eles se opõem a um imaginário dos dirigentes políticos, tanto na Alemanha como em França ou como nos outros países, que continua a estar profundamente estruturado pelo discurso fundado na lógica da austeridade. As origens deste tipo de discurso eram até agora tidas por irrefutáveis. Mas, um trabalho recente permite mostrar que por trás de universitários tomados como sérios há mesmo muita ideologia.
O desemprego atingiu recentemente 12% da população activa, mas com picos de mais de 25% na Espanha e na Grécia. A actividade económica continua a regredir em Espanha, na Itália e em Portugal e, agora, é o consumo que começa a cair fortemente em França, anunciando, como tinha sido predito neste site [1], uma nova deterioração da situação económica a curto prazo.
Gráfico 1
Source: INSEE, Consommation des ménages et dépenses pour acquisition de biens immobiliers
Na verdade, o segundo país da zona Euro, a França, pela força do seu consumo, tinha até aos últimos meses evitado o pior para a zona Euro. Se o consumo francês continua a contrair –se e no ritmo que tem vindo a seguir desde Janeiro, as consequências serão significativas, tanto para a França como nos países vizinhos, primeiro em Itália e em Espanha.
Uma política que levou a Europa a uma situação de impasse
A deterioração geral da situação económica coloca abertamente o problema da austeridade adoptada por todos os países a partir de 2011, na sequência da Grécia, que tinha sido forçada pela União Europeia, e depois de Portugal e a seguir da Espanha . Mas a vontade alemã de continuar no caminho da política de austeridade é bem clara e foi recentemente reafirmada. [2] Porquê, então, uma tal teimosia? Primeiro, há os interesses evidentes que empurram a Alemanha para defender esta política “austeritária”.
A zona euro permite à Alemanha, cerca de 3 pontos percentuais do PIB por ano, ou através do excedente comercial, que é realizado em 60% à custa ou em detrimento dos seus parceiros da zona euro ou por meio de efeitos induzidos pelas exportações. É perfeitamente compreensível que, nos seus termos, a Alemanha assuma a existência da zona do euro. Mas se Berlim quer que a zona euro funcione como ela gostaria que funcionasse teria então que aceitar a transição para um federalismo orçamental alargado e para uma união com a viabilidade das transferências. É obviamente sabido pelos economistas [3], mas também para lá deles. Em Outubro de 2012, no quadro do Clube Valdai, o presidente Vladimir Putin, sublinhou que não se poderia fazer funcionar uma união monetária sobre países tão diversos sem um federalismo fiscal poderoso. [4] Mas se a Alemanha devia aceitar este federalismo, então deveria aceitar como seu resultado transferir uma grande parte da sua riqueza para os seus parceiros. Para a Espanha, Grécia, Itália, Portugal, seriam necessárias, para repor ao mesmo nível que a Alemanha ou a França essas economias, transferências a representarem entre 245 e 260 mil milhões de euros, entre 8 e de 10 pontos percentuais do PIB por ano e pelo menos durante dez anos. [5] Montantes a este nível, e não é impossível que eles tenham que ser mesmo ainda maiores [6], são absolutamente exorbitantes. A Alemanha não tem os meios para pagar uma tal quantia, sem comprometer o seu modelo económico e sem destruir o seu sistema de pensões. A Alemanha deseja, portanto, manter os benefícios da zona euro, mas sem pagar o preço correspondente. É por isso que esta tem sempre, de facto, recusado a ideia de uma “união de transferências”. Para lá disso, o problema não é tanto o que a Alemanha “quer” ou “não quer”, é o que ela pode suportar que aqui é importante. E ela não pode suportar uma taxa de 8% a 10 da sua riqueza. Deixemos pois de pensar que “a Alemanha vai pagar,” um velho refrão da política francesa que data do Tratado de Versalhes, em 1919, e vamos olhar para a realidade que está à nossa frente.
A Alemanha já tem significativas reservas quanto à união bancária, que ela tinha aceitado de contra-vontade no Outono de 2012. Pela voz do seu ministro das Finanças, ela acaba de declarar que considera ser necessário modificar os tratados existentes para que esta União bancária possa ver a luz do dia [7]. Certamente é possível alterar os textos fundadores, mas todos estão conscientes de que isso vai levar tempo. Por outras palavras, a Alemanha empurra para 2015 e provavelmente para 2016 a entrada em vigor da união bancária mas de que ela reduziu em grande parte o seu perímetro de acção. Podemos considerar que os argumentos da Alemanha sobre a “constitucionalidade” da união bancária são apenas pretextos. Pode ser o caso, mas a senhora Merkel tem algumas boas razões para querer garantir a perfeita legalidade dos textos. A recente criação do novo partido eurocéptico ‘Alternativa para a Alemanha’, um partido que as sondagens colocam actualmente em 24% das intenções de voto, é uma ameaça credível para os equilíbrios políticos na Alemanha [8].
Nestas condições, podemos entender que não há nenhuma outra escolha para a Alemanha que não seja a de defender uma política de austeridade para a zona do euro, apesar das consequências económicas e sociais absolutamente catastróficas que são criadas com esta política. Daí a pretender que a Alemanha gostaria de “expulsar” os países do “Sul” da Europa, não há mais de um passo a dar . Simplesmente, ela não pode pagar por eles. Deste ponto de vista, atribuir um chamado ‘ plano segredo’ à senhora Merkel sobre este problema, acreditar que se vai conduzir uma batalha heróica para manter esses países do euro é uma das sumptuosos asneiras de que alguns políticos têm o segredo.
Mas há também uma dimensão ideológica, supostamente “fundada” na teoria económica
A origem da política austeritária
A ideia martelada de que o peso da dívida compromete o crescimento e que só uma política de austeridade é capaz de aliviar o peso da dívida, faz parte destas evidências aparentes de que a “sabedoria das Nações” está cheia. Esta chamada evidência tinha encontrado uma forma de justificação num texto publicado por dois autores conhecidos (um deles foi economista-chefe do FMI), Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff [9]. As conclusões deste texto, que foi posteriormente publicado, foram de que acima de uma relação da dívida pública / PIB, de mais de 90% o impacto da dívida é muito negativo sobre o crescimento. A conclusão é então evidente: é necessário que cada um se desendivide primeiro se chegou a tais níveis. Esta é a lógica adoptada pelo governo de Jean-Marc Ayrault, em França, que irá reforçar no segundo semestre de 2013 a austeridade orçamental e fiscal. De qualquer forma, isto vai contra toda uma série de estudos indicando que a austeridade tem consequências dramáticas no crescimento. Demos disso conta neste site [10]. Mas os defensores da austeridade a qualquer custo poderiam sempre afirmar que, sejam quais forem as consequências de austeridade, o imperativo da dívida é uma verdadeira prioridade para reencontrar o crescimento. É precisamente o discurso de François Hollande e de Jean-Marc Ayrault.
Excepto que esse trabalho académico continha erros significativos que foram agora mostrados num contra-estudo escrito por três economistas [11], e neste caso o contra-estudo provocou uma certa comoção no pequeno mundo dos economistas [12]. Em primeiro lugar, porque Reinhart e Rogoff arbitrariamente excluíram alguns anos na amostra que eles criaram e que é suposto estar a cobrir o período de 1946-2009. Três importantes países são assim excluídos, durante anos no período imediato do pós-guerra, a Nova Zelândia, a Austrália e o Canadá. Ora, nestes três países, há um ratio de divida publica relativamente ao PIB elevado e simultaneamente uma alta taxa de crescimento.
Em seguida, os dois autores do estudo que são referência hoje, ponderam os seus dados de forma muito curiosa, que levam, também eles, a reduzir a influência nos cálculos dos países onde encontramos um grande ratio da dívida pública e uma elevada taxa de crescimento. Finalmente, a reprodução dos dados do estudo original que foi feito pelos três economistas mostra que ocorreu um erro não negligenciável numa das páginas da folha de cálculo do Excel utilizadas por Reinhart e Rogoff . O resultado é que Herndon, Ash e Pollin encontraram que os países com um rácio elevado da dívida relativamente ao PIB de 90% ou acima deste valor tiveram historicamente um crescimento de 2,2% e não o valor de (- 0,1%) que foi achado por Reinhart e Rogoff [14].
O erro sobre o ficheiro do Excel é certamente o erro que gerou a maioria dos comentários, mas é na verdade um erro menor. Por outro lado, a omissão de alguns países em certos períodos, assim como as ponderações utilizadas são muito mais graves porque dão a ideia de que terão “arranjado” os dados para obter os resultados consistentes com a sua ideologia. Isto lança uma dúvida muito mais profunda quer o método de alguns economistas quer sobre a seriedade das pessoas que os seguem.
(continua)
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[1] J. Sapir, “Chômage: la marée noire qui nous menace”, nota publicada no caderno Russeurope em 03/03/2013, URL: http://russeurope.hypotheses.org/974
[2] AFP e Nouvel Observateur, « Merkel rejette toujours une politique de relance », 15 avril 2013,http://tempsreel.nouvelobs.com/la-crise-de-l-euro/20130415.OBS8037/merkel-rejette-toujours-une-politique-de-relance.html . Ver também: http://www.huffingtonpost.fr/2013/03/26/economie-allemande–pour-le-ministre-allemand-finances-wolfgang-schauble-autres-pays-europeens-jaloux_n_2953197.html?utm_hp_ref=economie
[3] Ver, por exemplo M. Aglietta, Zone Euro : éclatement ou fédération, Michalon, Paris, 2012
[4] J. Sapir, “La diplomatie russe, entre Asie et Euro(pe)”, nota publicada no caderno Russeurope em 27/10/2012, URL: http://russeurope.hypotheses.org/390
[5] J. Sapir, “Le coût du fédéralisme dans la zone Euro”, nota publicada no caderno Russeurope em 10/11/2012, URL: http://russeurope.hypotheses.org/453
[6] P. Artus, « La solidarité avec les autres pays de la zone euro est-elle incompatible avec la stratégie fondamentale de l’Allemagne : rester compétitive au niveau mondial ? La réponse est oui », NATIXIS, Flash-Économie, n°508, 17 julho 2012.
[7] Euractiv.fr, « Économie & finance Union bancaire : l’Allemagne demande un nouveau traité », 16 abril 2013, URL : http://www.euractiv.fr/economie-et-finance/union-bancaire-lallemagne-demande-un-nouveau-traite-18793.html
[8] I. Mouilleseaux, « Ce discret parti populiste allemand pourrait-il avoir la peau de l’euro ? »,Atlantico.fr, 11 abril 2013, URL, http://www.atlantico.fr/decryptage/discret-parti-populiste-allemand-pourrait-avoir-peau-euro-isabelle-mouilleseaux-693996.html#D1cwe9hTOjskhJ3W.99
[9] C. M. Reinhart et K. S. Rogoff, « GROWTH IN A TIME OF DEBT », NBER WORKING PAPER SERIES, Working Paper 15639, janeiro 2010, http://www.nber.org/papers/w15639
[10] J. Sapir, “Le FMI et l’aveu de François Hollande sur la croissance”, nota publicada no caderno Russeurope em 20/02/2013, URL: http://russeurope.hypotheses.org/895
[11] T. Herndon, M. Ash et R. Pollin, « Does high public debt consistently stifle economic growth ? A critique of Reinhart et Rogoff », Political Economy Research Institute, 15 abril 2013, University of Massachusetts Amherst, Boston.
[12] G. Vina et S. Kennedy, « Finance Chiefs Endorse Cuts as Reinhart-Rogoff Challenged »,Bloomberg, 19 abril 2013, URL : http://www.bloomberg.com/news/2013-04-19/finance-chiefs-endorse-cuts-as-reinhart-rogoff-challenged.html
[13] J. Fox, « Reinhart, Rogoff, and How the Macroeconomic Sausage Is Made », Harvard Business Reviex Blog,, 17 abril 2013, URL : http://blogs.hbr.org/fox/2013/04/reinhart-rogoff-and-how-the-ma.html . Mike Konczal, « Researchers Finally Replicated Reinhart-Rogoff, and There Are Serious Problems », Next New Deal, 16 abril 2013, URL :http://www.nextnewdeal.net/rortybomb/researchers-finally-replicated-reinhart-rogoff-and-there-are-serious-problems
[14] T. Herndon, M. Ash et R. Pollin, « Does high public debt consistently stifle economic growth ? A critique of Reinhart et Rogoff », po.cit..
[15] http://www.metrofrance.com/info/grece-meurtres-suicides-sida-le-terrible-bilan-de-l-austerite/mmds!PqcswhEW99LYg/

