REFLEXÕES SOBRE IDEIAS PERIGOSAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Flexibilidade e desvalorização interna:

Algumas considerações  sobre ideias perigosas que estão na moda e sobre um debate em Portugal sobre a saída do euro

Parte VI

(conclusão)

Pela nossa parte, ignoremos os buracos que tanto parecem ter incomodado João Salgueiro. Retomemos então o exemplo anterior com a deflação interna. Se aceitamos a chamada lei de Say de que toda a oferta cria a sua própria procura, então todos os nossos dirigentes deveriam ser condenados à pena de prisão máxima pois bastaria então face às necessidades produzir a produção correspondente porque esta geraria a sua própria procura e não haveria então crise nenhuma. Se sair da crise fosse assim tão fácil, não sair imediatamente seria então passível, no Tribunal da História, de ser condenado à pena máxima nas masmorras da História, dado o enorme sofrimento a que as populações na Europa estão a ser sujeitas.

Mas todos nós sabemos que assim não é, que nunca nenhuma produção cria ex-ante os rendimentos necessários ao escoamento da produção total. Os meus antigos alunos sabem-no bem, se o não esqueceram já, de que assim não é, de que isto não é verdade. Ex-ante à venda da produção cria‑se apenas a procura caracterizada pelos rendimentos distribuídos ex-ante à venda da respectiva produção e mais nada. Retomemos então o nosso exemplo.

Com a quebra de 20 unidades há uma quebra na procura interna de 10 unidades pelo lado de Portugal e uma queda na procura de bens produzidos pelo exterior de 10 unidades que são a nossa diminuição de importações. Ambos os produtores reagem a essa redução da procura. De repente ficam com invendáveis. Baixam a produção no mesmo montante. Seja então Portugal. Admitamos que as despesas em salários e rendas pagas ex-ante à venda dos produtos são de 60 por cento do valor da produção. O produtor baixa a produção de 10 unidades. Mas ao fazê-lo distribui ou garante-se que distribui menos 6 unidades de rendimento. O consumo volta a descer, agora de 6 unidades a menos, que foi a quantidade a menos de rendimentos colocados no circuito económico. A produção volta a descer de 6 unidades mas ao fazê-lo descem os rendimentos injectados no sistema de 6*(6/10), ou seja o consumo volta a descer de 3,6 unidades. Os produtores descem então a produção de 6*(6/10)2 mas ao fazê-lo descem os rendimentos de 6*(6/10)3 e por este via desce a procura deste mesmo montante. Os produtores voltam a reagir, baixando a produção do montante em que agora desceu a procura, ou seja, baixam a produção de 6*(6/10)3 e baixam os rendimentos e a procura agora de 6*(6/10)4, e assim sucessivamente até zero. Note-se que no estrangeiro acontece o mesmo, e portanto em vez das dez unidades iniciais poderíamos utilizar vinte, dado que os seus efeitos sobre as quantidades produzidas por Portugal seriam equivalentes. Se repararmos na sequência acima, 10, 10*(6/10), 10*(6/10)2 … 10*(6/10)k, temos pois uma série geométrica de razão (6/10). A sua soma é então dada por 10*[1/ (1 – 6/10)] = 10* 1/ (4/10) = 10*2,5 ou seja, estamos perante valores próximos dos multiplicadores de Olivier Blanchard e do FMI, depois da sua rectificação, isto é, depois de reconhecerem, bem tarde é certo, que se tinham enganado, mas tanto faria reconhecerem mais cedo ou mais tarde o seu engano ou não o reconhecerem sequer, porque se continuam a impor as mesmas políticas de austeridade, como se não tivesse havido nenhum engano, portanto. Ora este exercício em que não há nenhum buraco a abrir e a fechar como em Keynes, e que tanto incomoda João Salgueiro, mostra que o nosso homem de Belém, aquele que geralmente pratica o silêncio e sorri para as vaquinhas, uma vez na vida falou alto e bom som, falou de forma correcta em espiral recessiva. Uma redução de 10 unidades tem um efeito recessivo global de 25 unidades mas se repararmos que o mesmo mecanismo se passa no exterior e que as propensões são iguais, então o feito recessivo dos nossos salários leva a uma redução de 50 unidades no PIB. E viva a deflação interna, foi o que disse, lamento confirmá-lo, Olivier Blanchard e Christine Lagarde em Riga na Letónia, num país já tão destruído como o nosso.

Aqui reencontramos a questão do abrir e fechar de buracos como escoamento dos excedentes produzidos que não têm contrapartida na procura efectiva, mas com os diabos com milhões de desempregados, com um retrocesso social enorme, com carências brutais na população seja em educação, em saúde, em habitação, na alimentação, nas necessidades básicas portanto, será um absurdo falar em saída pelo abrir e fechar de buracos para evitar esta espiral recessiva. A moeda deve ser criada, e é normalmente criada ex-nihilo, a moeda deve então alimentar o circuito económico e gerar em face de si mesma o valor económico correspondente. Falta para isso um modelo de crescimento económico para a Europa, este não, falta para isso mesmo uma classe política à Europa, esta não, falta uma outra concepção do euro, esta não, falta sobretudo à Europa uma capacidade de regulação em vez desta estranha submissão aos mercados que até aqui se tem defendido e que os dois grandes práticos presentes no debate televisivo continuaram a defender.

Porém, tudo isso só pode ser obra colectiva e com tempo, uma vez que será lenta a reconstrução europeia face aos estragos já realizados mas os primeiros passos devem ser dados. Talvez os apontados por Bateira e João Ferreira do Amaral possam simbolizar isso mesmo. Aqui sou capaz de subscrever a análise de Christian Saint-Etienne (La fin de l’Euro) para quem a situação actual na sua base económica é o produto das amarras criadas pela estrutura institucional com que o euro foi criado.

Leia-se pois Keynes e perceba que ele estava a falar de défices na procura efectiva de bloqueios no sistema que à la limite poderiam ser contrariados a partir do abrir e fechar buracos. Porém, como as necessidades humanas são infinitas, e sabemo-lo desde Ricardo pelo menos, então essa hipótese é apenas didáctica, mas como com a didáctica os nossos sábios bem práticos não querem nada, então leiam o último livro de Paul Krugman e aprendam a ser coerentes entre o que criticam e o que propõem. Com a moeda entendida como produto do plano político, com outra arquitectura institucional, portanto, com outros dirigentes, nesse caso, a Europa seria outra e o problema actual não existiria. Cabe-nos pois  ou forçar politicamente à existência dessa outra zona euro, dessa outra União Europeia, o que se afigura cada vez mais difícil,   ou então…sair do euro.

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