POESIA AO AMANHECER – 193 – por Manuel Simões

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EUGÉNIO DE CASTRO

(1869 – 1944)

UM SONHO (fragmento)

Na messe, que enlouquece, estremece a quermesse…

O sol, o celestial girassol, esmorece…

E as cantilenas de serenos sons amenos

Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos…

As estrelas em seus halos

Brilham com brilhos sinistros…

Cornamusas e crotalos,

Cítolas, cítaras, sistros,

Soavam suaves, sonolentos,

Sonolentos e suaves,

Em suaves,

Suaves, lentos lamentos

De acentos

Graves,

Suaves…

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse

E o sol, o celestial girassol esmorece,

Deixemos estes sons tão serenos e amenos,

Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos…

(…)

Três da manhã. Desperto incerto… E essa quermesse?

E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!

No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,

Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos…

(Arcachon, 12 de Julho de 1889)

Este célebre poema de Eugénio de Castro constrói-se a partir de uma aliteração generalizada. Mostra a inclinação pelo virtuosismo técnico que ocupou os simbolistas, trabalho poético que o tornou como primeira escola da poesia moderna. O autor ficou ligado ao que veio a caracterizar-se como decadentismo-simbolismo através dos livros “Oaristos” (1890), “Horas” (1891), “Silva e Interlúnio” (1894).

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