ANJOS DO MAL, de Maria Keil – por Clara Castilho

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Maria Keil (1914-2012) um grande nome da nossa cultura, nomeadamente das artes plásticas – pintura, desenho, azulejo, tapeçaria, artes gráficas… E escritora, como Clara Castilho nos vai contar.

Corria o ano de 2002. Imagino a Maria, então com 87 anos, meia chateada e com vontade de fazer marotices .Imagem1

Chegou-lhe à mão um envelope daqueles de janelinha, com um papel transparente. Que ficou a olhar para ela e ela para ele a pensar que podia ter melhor destino. De sua mão e de uma caneta começou a surgir esta figura de “Diabo”. Se bem começou, melhor continuou. Outros tomaram forma. E da mão que desenhava passou a imaginar uma história. É a do livro, editado pela LerDevagar, com apoio do Ministério da Cultura.

Vê-la, cada vez mais pequenina, na exposição destes trabalhos que vieram a ser as ilustrações do livro, pequeninos, como vos disse, do tamanho dos envelopes, foi um reencontro divertidíssimo. O seu entusiasmo, o gozo que punha na forma como nos contava a elaboração de todo o projecto, deixou-me cheia de inveja, a pensar se chegaria à sua idade com a mesma cabeça e a mesma capacidade de contagiar os outros.

Lembrei-a mais nova, não andava eu ainda na escola, a fazer-me ervilhas com ovos escalfados, que eu adorava pois em casa não as comia, a acompanhá-la ao Largo da Estefânea, a caminho das fábricas de azulejos (penso que estavam já na forja os do Metropolitano de Lisboa) e a regalarmos-nos com bolas de Berlim de uma padaria do caminho.

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Passaríamos a fazer parte da sociedade como qualquer pessoa. (…) A nossa superioridade sobre eles, os Homínidas, com cornos ou sem cornos, com rabos ou sem rabos, ficaria sempre intacta. (…) O mal ou as partidas que nos apetecer fazer serão tidas como coisas de espírito, como é costume entre os que dizem mal de nós.

(…) Sou o Didi. Agora tenho que ir à escola. Vestido e tudo. Estou “pronto”. Sem o meu lindo rabinho, corninhos ainda não tinha, como é que vou convencer os outros miúdos da escola que sou um Diabo?…. Já nem me sinto um Diabo. Sou um “anjinho”…(…) Ainda levam a melhor e em que lugar é que eu fico? Não posso ficar por baixo!

E se eu armasse em bonzinho? Em bom aluno, aplicado… com  muita atenção ao que a professora diz, apresentando os trabalhos de casa feitos. Hão-de ver… Ficam tramados. Vou colocá-los mal a todos. Vou ser o melhor da escola”.

O lado irreverente da Maria Keil. Algo que a fez divertir nos últimos anos de vida, em que se aborrecia onde vivia. E que quis partilhar connosco. Obrigada, Maria. Continuamos a beneficiar das coisas bonitas que nos deixaste.

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Aproveitamos este espaço para vos lembrar que hoje, na Trofa começa  este encontro de literatura infanto-juvenil

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