Passou ontem o aniversário de Maquiavel e dedicámos algum espaço a lembrar a figura desse homem, que no dealbar da Idade Moderna se atreveu a repensar o Estado, adequando-o à nascente realidade que substituía a realidade medieval que, para muitos, era imutável. Antonio Gramsci em Maquiavel, a política e o estado moderno apresenta, quanto a nós, um dos estudos mais profundos sobre o pensador florentino e sobre a necessidade de adequar o Estado aos interesses dos cidadãos e não de escravizar os cidadãos aos interesses da máquina estatal.
Repensar o Estado é uma tarefa que se impõe. As ideologias pouco importam. Isto sem aceitar a teoria de que não há esquerda nem direita. Há esquerda e há direita – há os que querem que a igualdade, a fraternidade e a liberdade prevaleçam e há os que entendem que os mais capazes têm mais direitos do que a generalidade; que a luta de classes deve ser substituída pelo convívio fraterno entre exploradores e explorados e que as “liberdades” se devem sobrepor ao conceito, para eles difuso, de Liberdade. A esquerda e a direita.
Esta clivagem tem de ser feita – o que não faz muito sentido é que a esquerda se divida em função de ideologias que, na sua maior parte, vindas dos dois séculos anteriores, estão desajustadas da realidade actual. Porque, no fundo, o refúgio no sectarismo ideológico acaba por ser uma forma de aceitação da realidade. Tal como a resignação cristã baseada em que «sempre houve ricos e pobres»- O realismo obriga-nos a analisar a realidade objectivamente, mas não nos obriga a aceitá-la e deve levar-nos a tentar transformá-la. “As coisas são como são” (expressão muito usada), mas não têm de ficar como estão.
Ontem o chefe do executivo explicou como vai obter “poupanças” de 4,8 mil milhões de euros até 2015. Mais uma vez a austeridade recai sobre pensionistas e trabalhadores do Estado. “As coisas são como são” .
Um sentido profundo da realidade, consoante optarmos por uma lógica de direita ou de esquerda, leva-nos ou a aceitar ou a protestar dentro dos limites do «jogo democrático» – discursos parlamentares, manifestações, greves… tudo acções de folclore que o neo-liberalismo devora ao pequeno-almoço. A lógica de esquerda, leva-nos à imediata desobediência civil (que os militares deveriam apoiar). Obrigar este governo, os partidos que o apoiam, e a ridícula oposição do PS, a saírem da cena política.
A questão é – resignação ou revolução? O resto são paliativos.
