Artigo publicado em 18 de Fevereiro de 2011 no Estrolabio
Quem visita a Itália e apanha, por acaso, um transporte urbano em qualquer cidade,encontra, com frequência, no interior dos autocarros, um cartaz com a indicação de que os “portugueses” apanhados sem bilhete serão severamente multados. Para quem não conhece o uso linguístico do termo, pode parecer uma forma de racismo primário e foi assim que o cônsul de Portugal de Milão o entendeu, há já alguns anos, ao acusar o Município de Vicenza, que anunciava explicitamente nos autocarros ter declarado guerra aos “portugueses”. Ao nosso bem-intencionado cônsul valeu, então, um semáforo vermelho da conhecida revista “Espresso”, mimoseando ironicamente o cônsul por ter interpretado à letra o sentido figurado da uma fórmula consolidada e frequente na mitologia italiana.
Como já perceberam, “portugueses” tem em italiano o significado de borlistas, os que tentam não pagar bilhete, geralmente nos transportes, mas o termo já se estendeu a espectáculos e toda a espécie de manifestações onde se tenha que pagar o ingresso. Nos relatos de futebol através da rádio era frequente ouvir o cronista referir que estavam no estádio não sei quantos mil espectadores pagantes mais uns tantos “portugueses”, que, neste caso, eram os habituais convidados e não pagavam bilhete.
O meu primeiro contacto com a expressão utilizada neste sentido e que, nessa altura, escapava ao meu entendimento, já vem dos anos 70 quando, na cidade de Bari, li na primeira página de um jornal local que tinha sido preso um “português” por ter tentado saltar o muro duma esplanada de cinema. Não recordo se o termo estava transcrito entre aspas; sei que fiquei alarmado e dei comigo a cogitar se ali prendiam os portugueses por uma questão como esta e se a infracção era tão grave que merecia vir na primeira página, de forma tão sensacionalista. Bom, não era bem assim: o homem tentara não pagar bilhete, mas se não era português porque é que o consideravam como tal?
A história é antiga e a proveniência não é ainda segura. Deve ter começado em Roma mas alargou-se a todo o país. São várias as explicações mas, como veremos, não tem implicações racistas em relação aos cidadãos de Portugal. Os dicionários, em geral, aludem a um episódio que remonta ao tempo de D. João V (século XVIII): a embaixada de Portugal teria organizado um espectáculo no Teatro Argentina de Roma, ao qual podiam assistir sem convite só os portugueses. A voz mais corrente, porém, atribui a expressão a tempos mais remotos, justamente ao ano de 1514, quando D. Manuel mandou a famosa embaixada do elefante branco ao Papa Leão X, o qual, senhor do poder temporal em toda a cidade, teria decretado que os portugueses tinham entrada livre nos lugares (hospedarias, teatros, etc.) onde todos os outros só tinham acesso mediante pagamento. É claro que, tanto num caso como no outro, os borlistas eram os romanos que se faziam passar por portugueses e, portanto, só aos italianos cabe por inteiro aquele epíteto, agora eventualmente alargado, com o turismo de massa, a utentes de outras nacionalidades. Mas, como é evidente, a quase totalidade dos chamados “portugueses”, isto é, borlistas, são os italianos.
Ultimamente, segundo notícias recentes, este atributo passou a contemplar também outro povo e precisamente os espanhóis. Segundo li no “Corriere della Sera” há algumas semanas, e a notícia era apresentada de forma irónica mas enfática, os espanhóis começaram a aplicar um truque – tão difundido que mereceu as honras de notícia do “Corriere”- que tem a ver com a lei de proibição de fumar nos lugares públicos (cafés, restaurantes, etc.). A certa altura o cliente levanta-se da mesa, vem até à porta para fumar o seu cigarro e, com ar distraído, sai sem pagar a conta. Não conheço a realidade espanhola para avaliar se tal hábito é assim tão generalizado. Para o “Corriere” não havia dúvida, de tal modo que evidenciava a notícia com um título que confirma o uso arreigado da expressão “português”: “Mas afinal os espanhóis também são ‘portugueses’”.Não nos faltava mais nada…
