HOJE, EM VILA REAL, HOMENAGEM A UM GRANDE POETA DURIENSE – ANTÓNIO CABRAL

Hoje, 6 de Maio de 2013, pelas 21h30, no auditório do Grémio Literário Vila-Realense e por esta entidadeImagem1 cultural organizada, realiza-se uma sessão de Evocação de António Cabral, por ocasião do 50.º aniversário da publicação do seu livro Poemas Durienses, com intervenções de A. M. Pires Cabral e Frederico Amaral Neves. António Cabral nasceu em Castedo do Douro (Alijó) em 30 de Abril de 1921 e faleceu em 23 de Outubro de 2007 em Vila Real. Sacerdote católico até 1972, pediu dispensa e casou, dedicando-se ao ensino.  Além de grande poeta, dramaturgo e romancista, foi um activo agente cultural, sendo co-fundador das revistas Setentrião e Tellus. De António Cabral escolhemos o poema Acorda amor, publicado na antologia poética «Vietname» (coordenada por Carlos Loures e Manuel Simões). Sendo um dos mais belos e expressivos poemas daquela antologia, dá uma ideia do grande poeta que foi António Cabral:

           

Acorda amor

            Acorda, amor. Não ouves o silêncio
            ranger à volta da nossa casa?
            Algo se passa. As aves na palmeira
            do pátio acabam de estremecer.
            Ouço-as pelas frestas da velha parede
            e o medo volta de novo ao meu coração.
            Bem sei que não devia ter medo, que o sono
            é esse doce país cantado pelo poeta,
            onde os rios não correm somente
            para demarcar os ódios, e as nuvens
            apenas ocultam a boa água fertilizante.
            Condeno-me por isto. Por tremer
            diante dum pensamento e acordar, a teu lado,
            quando um leve sussurro atravessa a noite.
            É como se a tua presença não bastasse,
            fechando não sei que porta imaginável.
            Desculpa, amor. Mas tremo. A teu lado.
            Apesar do teu rosto amanhecente.
            Mesmo sabendo que em teu corpo
            Se abriu a corola de todas as delícias.
            Pelas frestas da velha parede,
            eis-me a interrogar a noite. Que acontece?
            Que sombras se movem além do rio?
            Talvez eu delire, ainda sob a impressão
            Do último bombardeamento. Lembras-te?
            Num momento, destruiram os favos
            da nossa alegria. E o mel de tantos anos
            barbaramente se diluiu na enxurrada infernal.
            Foi como se enorme sanguessuga de repente
            se colasse a nós. Ainda tremo .
            Tu escondeste a tua cabeça no meu peito
            e eu quando acordei sob os escombros,
            tinha uma perna destroçada. Podia ter as duas.
            Não é isso que me faz tremer. Mas recordo
            a febre dos teus lábios em minhas mãos,
            o quadro dos teus cabelos outonais
            e o corpo do nosso filho, parado, no teu regaço.
            Perdoa, amor, esta lágrima. Não acordes.
            Se eles voltarem, cobrir-te-ei com o meu corpo,
            com este corpo inútil que me deixaram.
            Não acordes, amor. Em que estrela
            bus ca s agora o nosso filho? Que palmeira
            o acolhe à sua benigna sombra?
            Ele põe a mão na rosa do teu seio
            e nos teus lábios ardem pétalas. Meu filho!
            Lembras-te como eu gostava de o levantar
            bem alto? Meus braços, agora débeis,
            fremiam, reverdeciam como ramos,
            e tu dizias, luminosa: o tronco e a flor.
            Era como se o dia voltasse a nascer,
            nascesse a cada instante,
            cingindo-me aos teus olhos belamente doirados.
           
            Era. Agora, não. Agora é noite. Prolongada.
            Não durmo. Doem-me as pálpebras e a alma.
            A paz escoa-se pelas frestas da parede.
           
         Que sombras se movem aquém do rio,
          fazendo ranger todo o silêncio?
            Se vierem… que venham. Dorme, amor.
            Amamenta em sossego o nosso filho.
            se vierem,
           
Cobrir-te-ei com o que resta do meu corpo.

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