UM “MENINO SELVAGEM” – DA HISTÓRIA PARA O CINEMA E MAIS ALGUMAS REFLEXÕES por clara Castilho

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Existiu de verdade. Estávamos em 1800, na floresta de Aveyron, em França, e uma criança selvagem foi encontrada. Porque não falava, foi enviada para o Instituto Imperial dos surdos-mudos, fundado pelo Abbé de la Paix, onde trabalhava Jean Itard, e Jacob Rodrigues Pereira, importante pedagogo português  que tinha introduzido anos antes um método de desmutização dos surdos.

Tendo sido entregue a Jean Ytard, este pediu a Pinel, o mais notável psiquiatra da época, que observasse o menino. Considerou ele que se tratava de um “idiota” com o qual não havia nada a fazer…

Mas Ytard sentia inteligência naquele ser e achou a sua não manifestação era derivada da falta de estimulação, logo uma “idiotia cultural”. Ytard afirmava que o homem não só tem qualidades inatas, como é o fruto do que a educação dele faz.

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E que pretendeu ele com a “educação” que pretendeu dar àquele a quem veio a chamar “Vitor”? A grande aspiração era fazer com que Victor aprendesse a falar, a ler e a escrever. Para isso inventou modelos de letras. Isto porque naquela época a cultura escrita era a forma de cultura mais importante e daí a obsessão da aprendizagem da leitura por Vitor. Mas só conseguiu que expressasse sons e dissesse monossílabos.

 Vitor tinha uma grande necessidade de contacto com a natureza: “levantava-se  de noite e vai admirar o brilho da lua, as trovoadas, as chuvadas e sobretudo o cair da neve e entra em grande excitação e começa a balançar-se”. Comunicava então muito directamente com as coisas na natureza. Vitor não tinha tido o afecto humano necessário, nem o contacto social indispensável para poder desejar e entender a comunicação indirecta das pessoas civilizadas.

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Estes são pensamentos de João dos Santos  em “Jean Itard e a Criança Selvagem”, numa conferência proferida  na Fundação Calouste Gulbenkian, 9 a 13 de Janeiro de 1978, numa organização do Serviço de Protecção à Infância e Juventude. E concluiu:

“ O trabalho exemplar de Itard, que lutando contra todos os preconceitos acerca da natureza inata da idiotia e da irreversibilidade do estado desta “criança selvagem” foi  o primeiro passo histórico para a recuperação das crianças deficientes mentais. A sua inteligência e dedicação fizeram prodígios no aspecto técnico que ainda hoje merecem a nossa atenção, por constituírem contribuições definitivas no campo da reeducação”

Na obra de Lucienn Malson “As crianças selvagens – mito e realidade” (Livraria Civilização, 1967, Porto) centraliza-se a questão no problema da identidade. Dizem-nos que Itard considerava que Vitor andava à deriva num mundo sem passado ou futuro, e, portanto, sem memória e sem noção da própria identidade, vivendo num “presente perpétuo”. E Itard perguntava-se se “ podemos ter existência externamente à linguagem, ou só podemos encontrar uma expressão para nós mesmos através da linguagem?”

Vitor tinha uma linguagem gestual, com que se servia para comunicar com aqueles com quem vivia – Madame Guérin, a empregada de Itard e o próprio. Neste sentido, dar-lhe um nome, uma identidade era importante –  e Vitor ficou.

Mas Itard começou por ensinar a Vitor a linguagem escrita, quando as crianças começam é a falar. Não admira que não tenha conseguido.

Vejamos este vídeo e pensemos como uma criança a quem faltou a linguagem falada e o contacto com a linguagem escrita, há-de conseguir aprender a descodificação da linguagem escrita e o prazer da leitura!

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