EXAMES DO 1º CICLO – PARA AVALIAR ALUNOS OU PROFESSORES? por clara castilho

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Ando com a sensação de que anda tudo maluco com os exames do 4º ano. Falo destes porque são aqueles que as crianças com que mais contacto se confrontam hoje, dia 7 e no dia 10, num total de cerca de 100 mil alunos. E porque é qualquer coisa de novo. Os dos mais velhos já eram uma realidade.

Uma colega chegou no outro dia fula com o que se tinha passado no fim de semana com o seu filho, aluno do 4º ano e bom aluno. Levara como trabalhos de casa, para os dois dias, 4 fichas de exames para fazer. Criança saudável que é, despachou os testes e foi brincar, que também é “ofício” de criança. Mais ao fim da tarde foi comparar as suas respostas com as do teste e tinha uma série de coisas erradas, fruto do querer despachar-se das obrigações e não ter prestado a devida atenção. E aí desatou a chorar. E vai daí a mãe disse que ele não ira estudar mais, que era bom aluno e se ia safar bem nos testes, que não interessava ter as melhores notas, que só valia 25% da classificação final, etc, etc.

A R., menina frágil e insegura anda com pesadelos com os exames. Todos os dias treina, os pais arranjaram explicações, todos os dias se queixa de dores no estômago. O B. há meses que faz diariamente várias fichas de exame. O tempo já não chega para as coisas com que costumava brincar e relaxar, ir à natação, ver um pouco de televisão, brincar com os amigos…. Começou a andar à porrada na escola, leva recados na caderneta, os pais são chamados e ele já não sabe onde se meter. Sabemos de ambientes familiares que se “azedaram” por causa dos exames, um dos pais a dar demasiada importância, outro a considerar que tudo deve ter um peso e medida.

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Este ano, os alunos que chumbarem têm a possibilidade de repetir os exames a 9 e 12 de Julho às 9h30, numa segunda fase destinada aos alunos que, após a realização das reuniões de avaliação do terceiro período, não tenham obtido aprovação ou tenham obtido classificação inferior ao nível 3, e para os que tenham faltado à primeira fase por motivos excepcionais, que têm de ser devidamente comprovados nas condições a definir no regulamento dos exames de 2013. Para estes alunos haverá um período de acompanhamento extraordinário depois do final do ano lectivo, se os pais o aceitarem.

Em relação a estes exames, muitas contestações têm vindo a público. FENPROF considera que “Não são os exames — e ainda menos nestes níveis etários — que atestam  a qualidade do ensino e das aprendizagens. Pelo contrário, o contexto em  que se realizam e a pressão exercida sobre as crianças poderá até distorcer  negativamente a avaliação que é feita sobre as mesmas.” E ainda: “Para que estejamos perante as mesmas regras que envolviam os exames  do tempo da ditadura, falta, apenas, que a circular do MEC estabeleça regras  relativas à forma de vestir e calçar que as crianças tenham que observar  no dia do exame”, conclui o comunicado da federação.

Muitas escolas terão de fechar para poderem corresponder às exigências de administração dos exames. A Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) está também preocupada com o facto de muitas crianças poderem ser deixadas em casa sozinhas pois  “muitas famílias não terão condições para tomar conta das crianças, nesses dias”.  Os exames do 4.º ano serão vigiados por professores de outro ciclo e de áreas disciplinares diferentes daquelas sobre as quais incidem as provas – de Português, no dia 7, e de Matemática, a 10.

O Diário de Notícias publicou um artigo de André Escórcio, no dia 1 de Maio. Informa que se deu “ à maçada de ler as 95 páginas, os três capítulos, os 63 itens, afora dezenas de alíneas e anexos da Norma 02/2013 do Júri Nacional de Exames (JNE). Uma paranóia que o Estado Novo não levou tão longe. Deduzo que esta gente não sabe o que anda a fazer. Só lendo! O texto, que engloba o 1º ciclo, resulta de uma abstrusa e retrógrada concepção do que deveria ser uma avaliação de base contínua. Trata-se do melhor caminho para o insucesso e abandono, não o da descoberta e o da formação com rigor científico, de qualidade e excelência”.

Relembro palavras de Sérgio Niza, em entrevista ao Notícias Magazine, Out. 2012:

 (…) Chegámos a um ponto em que até os bons professores que se mantém no ensino temem ficar desempregados e o país corre o risco de que se tornem nuns cordeirinhos, que obedecem cegamente às manipulações da administração. Os professores estão muito ansiosos, já não querem gastar tempo a falar de estratégias de ensino que melhorem as aprendizagens porque também estão obcecados com a avaliação. A que têm que fazer constantemente aos alunos e a avaliação final de ciclo, externa às escolas. Além disso, eles também vão ser examinados através dos resultados dos alunos, por via da avaliação do desempenho. É um inferno ser professor neste contexto. O trabalho dos professores é pago por nós e deve ser avaliado. Mas uma coisa é avaliar o conjunto do trabalho do professor, incluindo a sua atitude no seio de uma equipa pedagógica, outra é avaliar o professor como se faz com qualquer outro funcionário público. É que a natureza do trabalho dos professores é muito particular por ser crucial para o desenvolvimento humano, a preservação e a renovação da herança cultural.”

Pois, quem vai fazer exame, os alunos ou os professores? E quem vai pagar as favas?

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