POESIA AO AMANHECER – 195 – por Manuel Simões

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FLORBELA ESPANCA

(1895 – 1930)

VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,

Nesse êxtase pagão que vence a sorte,

Num frémito vibrante de ansiedade,

Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…

A nuvem que arrastou o vento norte…

– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:

Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…

São os dedos do sol quando te abraço,

Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos

Vão-te envolvendo em círculos dantescos

Felinamente, em voluptuosas danças…

(de “Charneca em Flor”)

A grande poetisa de Vila Viçosa escreveu sobretudo sonetos que deixaram marcas da sua pesonalidade lírica, até pela novidade do erotismo assumido, não sem acentos trágicos que traduzem a confessada frustração. Dela escreveu liricamente Manuel da Fonseca: «Florbela não foi à monda/ nem às searas ceifar./…/Mas ela sabia tudo/ que há no coração da gente:/ – ouviu a gente cantar». Da sua obra poética saliente-se: “Livro das Mágoas” (1919), “Livro de ‘Sóror Saudade’” (1923), “Charneca em Flor” (1931, ed. póstuma).

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