UMA GRANDE OBRA DE MARIA ROSA COLAÇO – “ A CRIANÇA E A VIDA” – por Clara Castilho

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Maria Rosa Colaço (1935-2004) foi uma talentosa escritora que nos legou uma vasta obra, onde sobressaem títulos como O Espanta Pardais, Aventuras de João-Flor e Joana-Amor, Gaivota, ou a peça de teatro A Outra Margem, mas foi, sem dúvida, A Criança e a Vida que, com várias edições em Portugal e traduzida em diversos idiomas,  lhe deu maior visibilidade e atenção de críticos e leitores. É sobre esta obra que Clara Castilho nos vai falar.

O livro é uma colectânea de textos dos alunos da, dos anos 50, sobre questões pertinentes da vida como “ O que é ser velho?”, “O que é a tristeza”Imagem1 ou “O que é a vida” e outros temas como, o amor, o natal, a felicidade, os medos, a velhice, etc…

A 1º edição foi publicada em 1960, edições ITAU e as ilustrações dão das próprias crianças. Hoje já vai em mais de 40 edições, de editoras várias.

Era livro obrigatório nas jovens mentes que então começavam a olhar para a realidade do país. Porque nele se retratava uma vida de que pouco se falava. E isto pela boca das crianças! Nele se falava de miséria, fome, morte, maus tratos, barracas. Mas também de poesia, de esperança, de alegria.

MÃOS DE PEDRA

Estas mãos são muito tristes.

Parecem pedras.

Tem estas cores porque estiveram muito tempo debaixo

de água.

Eram mãos de amigos que iam para longe e os outros

não queriam e choravam.

Nunca mais se encontraram.

As mãos ficaram de pedra, à espera, à espera, à

espera, à espera, muito tempo.

Dos dedos nasceram formigas e flores encarnadas.

Maria da Conceição – 1966

Num site, o de “A Pagina de educação”,  nº 112, obtivemos as palavras da autora:

A Criança e a Vida saiu primeiro em Moçambique. Tinha levado comigo para África as redacções das crianças, como quem leva as cartas dos namorados. Um exemplar chegou ao director do ITAU que foi a Moçambique conhecer-me e propor a reedição em Portugal. Eram os anos 60, os estudantes acordavam definitivamente para as tarefas de luta. O pequeno livro, que cabia num bolso de casaco, entrou nas universidades como elemento quase mágico e começou a ser uma espécie de santo e senha entre os jovens. As crianças na sua voz lúcida e sem medo tinham escancarado as portas à denúncia dos podres e ao medo que corria nocturno e atento. Apesar do burburinho, algumas pessoas duvidaram da autenticidade dos textos. Levaram os miúdos à televisão para ver se os apanhavam em falso”.

“Um meu aluno que uma vez escreveu “o amor é não haver polícias”. No dia da inauguração da Escola Maria Rosa Colaço ele veio de propósito da Suíça para estar ao meu lado. E eu perguntei-lhe: “Por que disseste aquilo?” Então ele confidenciou que tinha escrito aquilo porque na altura o pai estava preso em Caxias, mas não podia contar-me.

O AMOR

O amor é como duas borboletas que estivessem

Sobre uma rosa, a mias lindas de todas do jardim.

O amor tem que haver.

Se não houvesse amor, não havia nada mais bonito.

O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar.

A rosa e o sol são o amor.

A amor é poesia.

O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha.

O amor é não haver polícias.

Inácio da silva Cruz – 10 anos

Hoje, temos como aceite que se deve dar a palavra às crianças, que elas devem participar na vida social, dando a sua opinião em relação a assuntos que lhes dizem respeito. Mas, há cinquenta anos, era uma atitude original, mesmo de afronta aos poderes, a de Maria Rosa Colaço. Uma mulher com visão. Que se preocupava com os direitos do homem, com os direitos da criança:  “Que os direitos da criança sejam mais que nas paredes e nos cartazes e nos poemas e nos relatórios , inscritos no coração dos Homens e cumpridos por todos os responsáveis”.

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