POR QUE RAZÃO NÃO HÁ SAÍDAS PARA A CRISE – 1 – por Ventura Leite

A crise demonstra-se cada vez mais como uma realidade muitíssimo mais complexa do que a recessão económica típica, ou uma crise de conjuntura, como a ela gostava de se referir José Sócrates ( e não só!).

A economia ocidental patinou na maioria das nações desenvolvidas, mas não foi só isso. Desenvolveu desequilíbrios para os quais ainda não assumiu resposta clara:
Uma diminuição do ritmo de investimento na investigação ( uma realidade por exemplo nos EUA e que dura hámais de duas décadas) conduziu a uma quebra da capacidade competitiva e empurrou muitasempresas para a deslocalização.

Uma gritante desigualdade na distribuição da riqueza baseada apoiada na estagnação dos rendimentos do trabalho, situação parcialmente compensada ao nível do consumo pela importação de bens baratos, pelo recurso ao crédito com baixas taxas de juro e à irresponsabilidade do sistema financeiro desregulado e ganancioso.

Acontece que este modelo económico e esta evolução replicou-se pelas economias desenvolvidas, e hoje temos uma crise de endividamento excessivo, ou mesmo uma bolha de crédito.
Há muita gente que se indigna, ou finge isso, quando alguém diz que se viveu acima das possibilidades.
Pois eu digo o seguinte: naturalmente que há muita gente pobre, e muita gente que poderia viver melhor e consumir mais, e ter melhores serviços públicos, mas isso é uma coisa, e outra coisa é vivermos dentro das nossas capacidades de criar riqueza. Não contesto as injustiças e as desigualdades, mas colectivamente, e enquanto Nação( tal como os norte-americanos, italianos, espanhóis, italianos, gregos ou irlandeses, para nomear apenas alguns), eu digo sem qualquer hesitação e ….. com maiúsculas:
PARA O ACTUAL MODELO DE CRESCIMENTO ECONÓMICO PELO QUAL OPTÁMOS, NO CONJUNTO GASTÁMOS E CONSUMIMOS ACIMA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES, E UMA PARTE DA SOLUÇÃO DA CRISE SÓ COMEÇARÁ DEPOIS DE ASSUMIRMOS ISSO.
Disse… uma parte.. da solução da crise. Pois a solução da crise não só tem que ser coerente com isso como exige depois o ataque às causas da evolução que nos conduziu à actual situação, e a repensar o modelo de crescimento adequado à realidade do mundo actual

Sem ser contraditório com aquela afirmação, considero que poderíamostodos viver melhor, ou pelo menos com apreciáveis níveis de bem estar, apenas com uma distribuição mais justa da riqueza criada. Mas essa é outra questão, e não é ela que justifica o endividamento louco das famílias, das empresas e do Estado. É importante não trocar a ordem das causas, pois isso leva-nos normalmente à demagogia e ao discurso inconsequente. Não há só um responsável pela evolução e pelas opções que as sociedades tomaram!
Aqui chegados temos então dois desafios centrais, e nesta altura também urgentes:
1º Desafio – Assegurar uma alteração do modelo de crescimento, uma vez que há condicionantes na economia mundial que o impõem ( limitação dos recursos, efeitos climáticos negativos das emissões de CO2), e há urgência em voltar a criar emprego : isto implica várias mudanças ou simplesmente apostas reforçadas:
– Apostar numa economia de eficiência
– Apostar numa reorientação do consumo, com ênfase para os mercados internos.
– Reforçar a economia social ( atenção que isto não quer apenas dizer IPSS )
2º Desafio – Modernizar o funcionamento do sistema político para que a sociedade possa enfrentar e vencer os dois desafios anteriores. Não se trata apenas da modernização do exercício da acção política pura, mas da criação de condições para que novas dinâmicas sociais possam integrar e acelerar o processo de mudanças a todos os níveis da sociedade e não apenas da economia.

Nesta altura a economia portuguesa apresenta um nível de desemprego da ordem dos 17,7%, e caminha para mais. Porquê? Porque vivemos duma economia que dependeu de um nível de endividamento anual externo na casa dos 10% do PIB. Dito por outras palavras, só alcançámos muito do emprego que alcançámos porque a economia estava artificialmente mantida. Estava ligada à máquina do crédito. Disse exactamente isto já em 15 de Abril de 2009 no Parlamento.
Em 2012 o défice externo terá ficado em cerca de 1% do PIB, mas isso só foi possível devido à redução dos rendimentos das pessoas através dos cortes salariais, do desempego e do aumento dos impostos, o que reduziu o consumo, designadamente de bens importados ( alimentos, bens de consumo duradouro como automóveis , por exemplo) , mas também a importação de equipamentos industriais.
Como estamos ainda no Euro, e obrigados à correcção rápida do défice das contas públicas, e como o crédito externo será muito caro para o País, sobretudo se não dermos sinais de controlo ao nível do endividamento e capacidade de crescer, então o modelo de crescimento, sobretudo baseado num consumo largamente financiado a crédito, estará comprometido para o futuro previsível. Isto que dizer que o modelo de crescimentovigente implicará no curto prazo ainda mais desemprego, uma vez que são necessárias ainda mais reduções no consumo para assegurar os objectivos orçamentais e macroeconómicos ( défice externo): Até onde chegará o desemprego em Portugal? Não tenho, e julgo que ninguém tem capacidade para o prever com rigor, nem quererá fazê-lo. Mas não custa admitir que possa chegar rapidamente aos 20%.
Se tivermos presente o que se passa na Grécia, onde a taxa de desempregototal já ultrapassa os 27% – e 64% entre os jovens – podemos perceber o que acontece quando uma economia mergulha a pique até à sua realidade sustentável no curto prazo.
De facto, como o modelo de crescimento não foi alterado, mas apenas garrotado para evitar o aumento do endividamento, o reequilíbrio das contas públicas feito através exclusivamente da austeridade leva a que a solução reduza novamente as receitas orçamentais, pedindo depois mais cortes nas despesas públicas na tal espiral recessiva de que se fala.
Contudo, os problemas não se ficam por aqui:
Com efeito, e como julgo já ter referido noutro post, o actual nível de endividamento das famílias à banca atingia,em Setembro de 2012, cerca de 116 000 milhões de € só por crédito à habitação. Este nível de endividamento relativamente ao PIB supera em cerca de 30% o mesmo endividamento que se verifica nos EUA!
É bom lembrar que esse crédito é devido por 1400 000 pessoas, muitas delas conjuges, o que significa afinal um número não muito grande de famílias…..embora sejam muitas pessoas afectadas.
Isto acrescenta mais um problema, e gravíssimo, á nossa crise, e por várias razões:
Em primeiro lugar, o aperto das famílias portuguesas já referido acima acaba por colocar uma ameaça crítica ao sistema bancário nacional.
Não vou deter-me sobre questões éticas no que respeita ao comportamento da banca. Naturalmente que haverá muito a apontar-lhe, incluindo ao nosso Banco de Portugal.
Por agora interessa-me o risco de colapso do sistema bancário, por razões da própria … “cura” de austeridade. Ou seja, podemos sucumbir com a toxicidade dos remédios, pois uma dos órgão vitais da economia pode colapsar!
(Os nossos banqueiros já começaram a manifestar impaciência e a pedir que lhes sejam comprados os créditos que os seus bancos detêm sobre as empresas públicas, o que significaria entrada de dinheiro, isto é, reforço da sua liquidez)
Em segundo lugar, há ainda um problema normalmente esquecido neste dossier: é que as casas perderam, na prática, e muito provavelmente de forma definitiva, uma grande parte do seu valor real ( mesmo que os bancos e o sector imobiliário se esforcem por segurar artificialmente os preços actuais das habitações). Podemos estar na presença de uma perda de activos de mais de 50%, mas que estas famílias irão trabalhar para pagar integralmente aos bancos, porque estes os pagaram aos promotores imobiliários e construtores. Veja-se bem a dimensão desta destruição de activos, de que ninguém fala como se isso fosse uma coisa sem importância.

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