REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

AS CASCAS DE BANANA EM PUTREFACÇÃO: DE ROGOFF AO ECONOMISTA CAVACO SILVA

Por Júlio Marques Mota

V

(CONTINUAÇÃO)

Depois da austeridade vem a cura

R&R tentaram ganhar algum tempo para desviar a atenção sob o pretexto de um bug do software Excel, como se explica neste outro artigo intitulado: “Reinhart, Rogoff e o erro de Excel que mudou a história”. Pobre R&R: a austeridade de que todos confirmam o mal que faz e para a qual eles tanto contribuíram é afinal devida a um bug de software, de que R&R seriam, naturalmente, as primeiras vítimas. Além disso, o que é prometido é devido, eles nunca tinham realmente defendido a austeridade, eles tinham sido mal interpretados, simplesmente isso. Outros, como o prémio Nobel de economia Krugman, tinham o sentimento de que algo estava muito podre desde o início. O trabalho recente de HAP confirmou esse sentimento e a sua rápida difusão à escala planetária foi o descalabro para R&R.

No artigo “Esqueçam o Excel: Foi o maior erro de Reinhart e Rogoff — a correlação não a causalidade”, publicado em The Atlantic, Matthew O’brien escreve:

Para um economista, as seis palavras mais terríveis em [português] são: não posso obter os seus resultados. Mas para os economistas Carmen Reinhart e Ken Rogoff de Harvard, existem oito palavras ainda bem mais aterradoras: eu penso que cometeu um erro de Excel.

Vejam, os erros acontecem. Especialmente com o Excel. Mas espero que eles não aconteçam nos trabalhos que estabelecem o edifício intelectual para uma análise económica que é transposta a seguir para a política económica — a austeridade — que manteve milhões de trabalhadores sem emprego. Bem, tarde demais. Conforme nos relata Mike Konczal do Instituto Roosevelt, Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin da Universidade de Massachusetts, Amherst, encontraram problemas sérios no trabalho de Reinhart e Rogoff onde estes justificam a austeridade. E a sua tese pode, em termos simples, ser expressa pela ideia de que tanto maior é a dívida pública tanto menor é o crescimento que lhe está associado.

Este trabalho, em que se mostra que países com dívida pública de 90% do PIB ou mais tendem a crescer mais lentamente, omite dados para cinco do seu conjunto de 19 países e utiliza dados errados para um outro. O primeiro erro foi suficientemente vergonhoso e devido a um problema de Excel e o segundo já nada teve a ver com esta questão, decorre de escolhas de dados e metodologias. Se forem utilizados todos os números correctos verifica-se um crescimento lento quando a dívida é alta, mas não tanto como R&R alegam.

Por outras palavras, não há nenhuma prova de que haja qualquer coisa parecida com um ponto de inflexão relacionando o rácio da dívida/PIB e o crescimento económico quando aquele alcança o valor de 90%, ou seja, não há nenhuma prova da queda no abismo com o rácio da dívida/PIB elevado.

Esta é a versão académica do sonho quando se está intelectualmente desprotegido em público, e sem argumentos face realidade aos factos. Só que com isto não se trata de um sonho. É a realidade extremamente humilhante para R&R, que admitiram que se esqueceram de actualizar a sua fórmula no Excel em mais cinco linhas como se mostrou no quadro acima, na zona à azul, linhas 44 a 49. Mas é pior do que humilhante para toda a gente. Isto foi uma catástrofe. Não é que R&R tenham cometido um erro muito irritante; em vez disso, trata-se é de um trabalho altamente deficiente, com erros inadmissíveis e que deu o lastro intelectual a uma ideia que falhou em todos os lugares onde foi tentada nestes últimos anos. Hoje em dia, há políticos que terão exercido de modo independente deste trabalho a sua política de austeridade, mas R&R deram-lhes uma razão (e aparentemente uma brilhante linha a vermelho marcando os 90% do PIB como ponto de referência para a queda no abismo) para seguirem essa política o mais rápido possível. Se demasiada dívida está associada com crescimento muito baixo então não deve haver tempo a perder para cortar nos défices.

Essas são palavras importantes: “associada com”. Como já se referiu antes, o melhor argumento contra R&R por terem tomado como a austeridade verdade do Evangelho  foi exactamente uma correlação. Naturalmente um rácio tende a aumentar tanto mais quanto o seu denominador aumenta menos. É como se trabalham assim as fracções, é assim que estas funcionam. Mas isso não prova que o crescimento dessa relação provoca a estagnação do denominador. De novo e mais uma vez me assalta, ao escrever isto, o artigo muito simples da minha ex-colega Margarida Antunes dedicado aos alunos e a ensinar-lhes a lógica subjacente ao rácio (ver anexo). Um texto que tinha também como alvo muitos alunos do primeiro ano! Se se quer falar de causalidade, ela deve ser falada no sentido inverso do que é evocado por R&R — o crescimento inferior tende a provocar uma maior dívida, pois há uma queda nas receitas e nos imposto recebidos e um aumento das despesas da Segurança Social durante uma recessão, o que provoca uma degradação do défice público. Na verdade, como se pode ver abaixo, Arindrajit Dube da Universidade de Massachusetts, Amherst, mostrou que o rácio da dívida/PIB é muito melhor estimador da taxa de crescimento do PIB passada do que da taxa de crescimento futuro do PIB. Por outras palavras, um maior rácio da dívida não causa uma baixa taxa de crescimento enquanto uma taxa de crescimento mais baixa provoca maior dívida.

Claro, isso não impediu os falcões do défice de divulgarem o trabalho de R&R como prova de que temos de abordar a dívida de longo prazo e temos de abordá-la já, agora mesmo. Inclusive, às vezes, os próprios R&R.

No seu texto, R&R são cuidadosos ao falarem que a relação entre uma maior dívida e um mais baixo crescimento é apenas isto: uma relação e nada mais. Na verdade, é isto que tem sido a sua defesa: eles nunca disseram que era mais alguma coisa para além de uma correlação e que a correlação ainda se mantém depois de corrigidos todos os seus erros, embora não seja tão forte.

Isso é verdade… se olharmos apenas para o que dizem no seu texto e ignorarmos o que eles disseram sobre o seu texto. Por exemplo, aqui está o que eles disseram na edição da Bloomberg em Julho de 2011:

“O nosso trabalho de investigação empírica sobre a história das crises financeiras e sobre a relação entre crescimento e dívida pública considera que as actuais trajectórias da dívida são um risco para a estabilidade e para o crescimento a longo prazo, com muitas economias avançadas já a atingirem ou a excederem a marca importante de 90 por cento da dívida relativamente ao PIB…”

“O maior risco é o de que a dívida se acumule até que o seu peso condicione o crescimento…”

Para sermos justos para com R&R, devemos então esclarecer que eles só descobriram que tanto maior é a dívida menor é o crescimento que lhe está “associado” e que não há nenhuma “linha a vermelho vivo” (mesmo que os responsáveis políticos a interpretam desta forma) no valor da dívida em 90% do PIB.

Mas também deixaram bem claro que acham que a sua correlação é mais do que apenas uma correlação. Eles acham que quanto maior é a dívida mais baixo será o crescimento e, sem problemas de garganta, os dois autores não se mostram muito tímidos quando falam.

Como outro exemplo, vejamos o relato de um diálogo com Rogoff. Johnny Isakson, um senador republicano da Geórgia e sempre um cavalheiro, levantou-se para colocar a sua questão: “nós precisamos de agir já, a partir deste ano? É melhor agir rapidamente?

“Absolutamente”, disse Rogoff. “Não agindo leva a que fiquemos mais perto da situação de risco”, explicou, porque cada ano de não actuação adiciona mais um ano de acumulação de dívida. “Assim, tem-se muito poucas alavancas neste momento”, advertiu-nos.

E ainda nesta mesma linha, veja-se o que nos diz Joe Wisenthal que considera Rogoff como o mais perigoso economista do mundo:

A América decidiu: apesar de o desemprego estar acima dos 9% e o crescimento do PIB abaixo dos 2%, o governo deverá concentrar-se na redução dos défices, na redução das despesas públicas sobretudo, ou seja, não irá estimular a economia.

Claro, os cortes não serão tão profundos com o novo acordo entre os partidos, mas aqui é sobretudo o sentido da política seguida e das suas prioridades que nos interessa.

É claro, os políticos republicanos em Washington não vêem os cortes nas despesas públicas e o estimular a economia como decisões alternativas. Uma das justificações para o corte nas despesas públicas é que é feito para estimular o emprego porque infundem confiança no sector privado.

Aliás, como se disse quando se falou no bando dos quatro, na Europa também é assim. Austeridade e crescimento não são políticas alternativas, são faces da mesma moeda, são políticas que vão a par, embora com algum desfasamento.

E, embora ninguém leve o argumento na “confiança das fadas” muito a sério, os políticos pró-corte estão armados com algum peso intelectual: frequentemente, durante debates, ouvimos os políticos a citarem o trabalho dos economistas R&R, que têm argumentado ao longo dos últimos dois anos que dívidas públicas mais elevadas contribuem para reduzir o crescimento do PIB. E, convenientemente, acabaram por traçar um grande acordo sobre essa mesma ideia de que um rácio da dívida/PIB de 90% representa um ponto de inflexão a partir do qual o crescimento desacelera rapidamente.

Vejamos agora o que nos diz então Arindrajit Dube[1] com o seu estudo sobre a interpretação do trabalho de R&R:

Na sua resposta, Reinhart e Rogoff — a que se tem chamado R&R — admitiram os erros aritméticos, mas argumentam que a correlação negativa entre o rácio da dívida/PIB e o crescimento nos dados corrigidos ainda suporta a sua afirmação original e mantêm a sua tese. Tomando os dados que HAP generosamente disponibilizaram como parte do seu exercício de contestação de R&R, reproduzo primeiro o gráfico não paramétrico publicado em HAP (2013) utilizando um outro tipo de regressão. As linhas a ponteado são intervalos de confiança de 95 por cento.

rogoff - VINo gráfico, há uma visível relação negativa entre o crescimento e o rácio da dívida/PIB, mas como HAP apontam, a força da relação é realmente muito mais forte para baixos valores do rácio da de dívida/PIB do que para os valores da dívida mais altos, como se mostra com o andamento da curva. Isso faz com que nos preocupemos sobre o mecanismo causal. Afinal de contas, enquanto se pode esperar uma não-linearidade em rácios elevados como o afirmam R&R devido a um ponto de inflexão, o que aqui se mostra é que uma mais forte relação negativa é encontrada em baixos rácios da dívida e isto é difícil de racionalizar usando um ponto de inflexão dinâmico.

Na sua resposta, R&R pretendem ter sido cuidadosos para distinguir entre a associação e a causalidade no seu trabalho de referência. Claro, nós só realmente nos devemos preocupar com esta associação quando com ela se quer reflectir provavelmente a relação de causalidade como partindo do rácio da dívida/PIB para o crescimento (ou seja, uma maior dívida leva à redução da taxa de crescimento, a lição com que muitos ficam sobre as teses de R&R).

Enquanto é difícil verificar a causalidade entre variáveis como estas, podemos aproveitar e alavancar as variações ao longo do tempo para ganhar alguma ideia sobre isto. Aqui está uma pergunta simples: poderá um rácio da dívida/PIB elevado prever melhor as taxas de crescimento futuro ou será antes capaz de prever melhor as taxas de crescimento do passado? Se é a primeira resposta que é a verdadeira, isto seria consistente com o argumento de que os níveis mais elevados de dívida provocam a descida da taxa de crescimento. Por outro lado, se o rácio da dívida/PIB elevado “prevê” melhor o crescimento económico do passado, isto significa então que estamos perante a causalidade inversa.

Abaixo criámos regressões similares fazendo a regressão entre o valor corrente do rácio da dívida/PIB e a taxa de crescimento médio do PIB para os 3 anos seguintes (lado esquerdo) e entre o primeiro e a taxa decrescimento médio do PIB dos últimos três anos (lado direito).

rogoff - VII

Como é evidente, o rácio da dívida/PIB corrente é um estimador muito pobre da futura taxa de crescimento do PIB e isto passa-se relativamente aos rácios da dívida/PIB de 30% ou mais — o intervalo onde se poderia esperar encontrar um ponto de inflexão dinâmico. Mas como estimador este rácio faz um óptimo trabalho quanto se pretende analisar crescimento do passado.

Este comportamento é um sinal revelador de causalidade inversa. Porque é que isso acontecerá? Porque é que uma queda no crescimento aumentaria o rácio da dívida/PIB? Uma razão é puramente algébrica. A relação tem como numerador a dívida e como denominador o PIB: qualquer queda no PIB mecanicamente vai aumentar a relação. Mesmo que o crescimento do PIB não se torne negativo, o crescimento contínuo da dívida, juntamente com uma desaceleração do crescimento do PIB também levará a um aumento do rácio da dívida/PIB. E de novo aqui as fracções, a lembrança do meu amigo Rui Calvinho, a lembrança do texto da minha colega, a interpretação de uma fracção!

Além disso, há também aqui uma história menos mecânica. Uma recessão leva ao aumento das despesas públicas através dos estabilizadores automáticos, tais como o subsídio de desemprego. E os governos geralmente financiam estas despesas utilizando um maior endividamento, tal como se explica nos manuais de macroeconomia que os governos devem saber Isso foi o que aconteceu nos Estados Unidos durante a recessão passada. Por todas estas razões, devemos esperar que é a causalidade inversa à associada a R&R que se verifica e e os resultados encontrados são consistentes com isto.

Para se estar a ver estes resultados de forma econometricamente correcta, quando se olha para as correlações entre o rácio da dívida/PIB corrente e a taxa de crescimento do PIB do passado ou do futuro, devemos também ter em conta o rácio da dívida/PIB nos dois períodos de tempo.

Claramente, o rácio da dívida indica mais nitidamente qual foi o crescimento do que o que seria o crescimento no futuro: ultrapassado o valor de 60% do PIB, a curva só decresce ligeiramente para o crescimento futuro e é menos definida (área entre ponteados grande), enquanto esta cai rapidamente face ao crescimento passado com uma boa margem de segurança (zona entre ponteados restrita).

(continua)

[1] Arindrajit Dube, Guest Post: Reinhart/Rogoff and Growth in a Time Before Debt, publicado em Next New Deal, Roosevelt Institute, cujo endereço electrónico é http://www.nextnewdeal.net/.

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