REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

AS CASCAS DE BANANA EM PUTREFACÇÃO: DE ROGOFF AO ECONOMISTA CAVACO SILVA

Por Júlio Marques Mota

VII

(CONTINUAÇÃO)

Parte III

Em forma de conclusão:

Julgamos ter deixado bem claro a importância que assumem ao nível da ideologia os trabalhos de R&R, pelo menos no que diz respeito à vaga de políticas de austeridade desencadeadas na Europa, na zona euro e, não só, políticas estas tão duramente defendidas também para os Estados Unidos pelos republicanos, por Paul Ryan, um grande apologista das teses de R&R, exactamente. Poder-se-á argumentar que os autores citados explicitamente nunca defenderam que uma relação elevada, acima de 90%, de dívida pública relativamente ao PIB, seria a responsável por uma taxa de crescimento económico baixa, ou seja, que nunca defenderam explicitamente que a relação causa-efeito é a da dívida alta a gerar o crescimento baixo. Torna-se hoje bem claro que os trabalhos de R&R são relevantes, por implícita ou explicitamente estabelecerem uma relação causal (não apenas uma associação) entre rácios da dívida pública relativamente elevada e os baixos níveis de crescimento, e que por isso se deve dar prioridade à redução da dívida pública sobretudo em tempo de crise. Poder-se-á argumentar que os autores nunca enunciaram nos seus trabalhos académicos explicitamente esta relação causal. Mas, como já anteriormente dissemos, talvez mais importante que o que explicitamente escreveram nesses mesmos trabalhos será o que sobre esses mesmos trabalhos, sobretudo eles, disseram.

Vejamos mais um exemplo. Sobre o Japão disseram estes dois autores, R&R, num artigo publicado pela Bloomberg, com um título bem sugestivo, “Too Much Debt Means the Economy Can’t Grow”: “Mesmo estando ausentes as altas taxas de juro, como se verifica no Japão, as pressões da dívida são um obstáculo ao crescimento”.

Aqui mesmo há uma profunda desonestidade intelectual ao tomar o caso do Japão como referência. A frase é sibilina, “mesmo na ausência de taxas de juro altas”, o Japão não sai da crise, ou seja, o Japão tem uma baixa taxa de crescimento e tem uma taxa de crescimento baixa porque tem um rácio da dívida pública/PIB muito alto! A partir daqui a generalização para os outros países é para os nossos dois autores imediata. No quadro europeu exagera-se com o caso da Grécia e da Itália cuja dívida elevada vem de antes da crise, mas ao mesmo tempo omitem-se os casos opostos como o da Espanha e da Irlanda cujo rácio da dívida pública/PIB resulta, de forma imediata, da crise, das políticas de austeridade e do baixo crescimento que estas mesmas políticas imediatamente geraram. Olhemos para os rácios destes dois países:

rogoff - XIII

 rogoff - XIV

Aqui as dúvidas desaparecem: os rácios da dívida subiram com a crise, tornando-se mesmo elevados com a crise, com a passagem da dívida dos bancos a dívida pública, com a subida das taxas de juro, com o aumento das despesas sociais, com a diminuição do denominador. Nada disto tem a ver com R&R.

Mas a União Europeia como se viu com a transcrição de Olli Rehn, com as declarações dos responsáveis alemãs, continua a manter a tese de que primeiramente se tem que fazer o combate à dívida pública pela austeridade e depois, seguramente, virá o crescimento. E entretanto, os países, uns após outros, vão caindo na depressão e como consequência, tornando a situação depressiva dos outros ainda pior.  O último caso a tomar como exemplo pode ser a França na base, exactamente, das teses de R&R. Como assinala Jacques Sapir:

A ideia muito martelada de que o peso da dívida compromete o crescimento e que só uma política de austeridade é capaz de aliviar o peso da dívida, faz parte das evidências aparentes que enchem a “sabedoria das Nações”. Esta chamada evidência encontrou uma forma de justificação num texto publicado por dois autores conhecidos (tendo um deles sido economista-chefe do FMI), Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff. As conclusões deste texto, que foi posteriormente publicado, foram de que quando se tem um rácio da dívida pública/PIB acima de 90%, a dívida pública tem um impacto muito negativo sobre o crescimento. A conclusão é então evidente: é necessário que um país nesta situação se desendivide primeiro. Esta é a lógica adoptada pelo governo de Jean-Marc Ayrault, em França, que irá reforçar no segundo semestre de 2013 a austeridade orçamental e fiscal. De qualquer forma, isto vai contra toda uma série de estudos, indicando que a austeridade tem consequências dramáticas no crescimento. Apuramos isso neste site. Mas os defensores da austeridade a qualquer custo poderiam sempre afirmar que, sejam quais forem as consequências de austeridade, o imperativo da dívida é uma verdadeira prioridade para reencontrar o crescimento. É precisamente o discurso de François Hollande e de Jean-Marc Ayrault.

Poder-se-á aqui argumentar que o problema é exclusivo da zona euro, mas isto não é verdade. Basta olhar para a Inglaterra, para o programa de austeridade em tempo de paz nunca visto no país, que é o berço da revolução industrial. De novo aqui encontramos, como mentores do principal responsável pelo programa económico desta nação, George Osborne, Carmen M. Reinhart e Kenneth S. Rogoff. Vejamos a posição do principal responsável pela política económica da Inglaterra e do seu programa de austeridade, George Osborne, expressa na sua conferência, a Mais Lecture – A New Economic Model, proferida em Fevereiro de 2010:

Mas não podemos estabelecer todas as boas lições para o futuro a menos que nós tenhamos compreendido as profundas raízes macroeconómicas da crise.

Muito já foi escrito sobre o que deu os resultados errados a que agora se chegou. Muito mais ainda irá ser escrito.

Talvez a contribuição mais significativa para a nossa compreensão das origens da crise tenha sido escrita pelo Professor Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI, e pela sua co-autora Carmen Reinhart.

Numa série de escritos e agora em livro, demonstraram detalhadamente, em termos históricos e estatísticos, que, embora no fragor das crises pareça sempre que “desta vez é diferente”, a verdade é que quase nunca o é.

Como Rogoff e Reinhart demonstraram de forma convincente, todas as crises financeiras têm, no fundo, as suas origens numa só causa – o aumento rápido e insustentável da dívida pública.

(continua)

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