REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O fim do crescimento?

 Satyajit Das, 22 de Abril de 2013

 PARTE II

Crescer e ignorar

O crescimento baseou-se também na continuação das políticas que levaram à degradação insustentável do meio ambiente. Baseou-se na utilização não rentável e perdulária de recursos naturais não-renováveis, como o petróleo e a água na base de preços economicamente incorrectos. A dívida tóxica e as emissões tóxicas fazem com que hajam publicamente cada vez mais chamadas de atenção para estes problemas.

Há semelhanças notáveis entre os problemas do sistema financeiro, danos ambientais irreversíveis e a escassez de recursos vitais, como o petróleo, bens alimentares e água. Em cada área, a sociedade antecipa e assume responsabilidades deslocando os problemas para o futuro. Os lucros de curto prazo foram conseguidos à custa dos riscos que não eram imediatamente evidentes e que iriam aparecer mais tarde.

Um outro tema comum nas crises paralelas na finança, ambiente e na gestão de recursos escassos é a distorção nos preços. No período que antecede a crise financeira, risco, especialmente a capacidade dos indivíduos e das empresas para pagar empréstimos, assentou nos preços subvalorizados. O verdadeiro custo de poluir o meio ambiente ou consumindo determinados recursos também tem sido feito na base de  preços subvalorizados.

No período que antecede a crise financeira, risco, especialmente a capacidade dos indivíduos e das empresas para pagar empréstimos, foi a sub-valorização nos preços.  O verdadeiro custo de poluir o meio ambiente ou de consumir determinados recursos também tem sido a sub-valorizados nos preços.

Em todos os casos, houve uma significativa privatização dos ganhos enquanto os prejuízos eram socializados. Os financeiros entraram  em operações cada vez mais destrutivas, obtendo grandes taxas remuneratórias, deixando aos contribuintes a cobertura dos custos ou dos danos económicos. Andrew Haldane, director executivo para a estabilidade financeira no Banco da Inglaterra, num seu artigo de Março de 2010 comparava o sector bancário com a indústria automobilística – ambas produzem poluentes, para os carros, a exaustão dos vapores; para os bancos, o risco sistémico.

No princípio do Século XX, o economista alemão E. F. Schumacher observou que os seres humanos tinham começado a viver do capital: “ A humanidade, ao longo da sua existência de muitos milhares de anos, viveu sempre do rendimento. Só nas últimas centenas de anos o homem assaltou as reservas da natureza e está agora a esgotá-las a uma velocidade estonteante que aumenta de ano para ano”. Esta observação é agora tão verdadeira sobre o sistema económico e financeiro como o é igualmente sobre o meio ambiente.

A abordagem cria problemas entre gerações, uma espécie guerra económica entre velhos e novos. No seu romance Rabbit is Rich, o herói de John Updike, Harry Angstrom, ao reflectir sobre a geração do pós-guerra diz: “parece piada dizer isto, mas estou feliz pelo que vivi e quando o vivi. As crianças que agora vêm ao mundo  vão passar a viver de restos de comida. Nós comemos bem. “

A perder  os comandos do poder

A actual crise põe em causa a capacidade dos governos em  manter o seu controle sobre  os centros de comando da economia para utilizar a expressão de Lenine – os elementos mais importantes e estratégicos da economia.

No século XVIII, as sociedades ocidentais passaram dos sistemas medievais de autoridade religiosa e aristocrática para os modelos assentes na razão, nos métodos científicos, no discurso racional, na liberdade pessoal e responsabilidade individual. Nos princípios desta nova fé está a capacidade de controlar a economia e o mercado com a aplicação das matemática aplicadas e das estatísticas.

Em 1965 o Conselho de conselheiros económicos do Presidente Johnson tendo a sua frente Walter Heller declarava: ” Os instrumentos de política económica estão a ficar cada vez mais refinados, mais eficazes e cada vez mais libertos de inibições impostas pelas tradições, pelos mal-entendidos e pelas polémicas doutrinárias.” O Conselho declarou que os decisores nas políticas económicas poderiam agora “prever e moldar o desenvolvimento futuro.”  O professor Robert Lucas da Universidade de Chicago subiu ainda um pouco mais a barra, em forma de auto-congratulação, afirmando em 2003 que macroeconomia tinha “resolvido, para todos os efeitos práticos” o problema de depressão económica.

Mais recentemente, o Presidente do Federal Reserve Ben Bernanke argumentou que as melhorias na política monetária ajudaram a criar a Grande Moderação. Em 2007, no 10º aniversário da sua independência, em 2007, o governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King falou de uma ” grande mudança” na estabilidade económica, que ele acreditava que não poderia ser vista como sendo  “exclusivamente um resultado da sorte”.

Mas os responsáveis políticos podem não ter as ferramentas necessárias para lidar com os problemas que estão enraizados nos modelos atuais. A economia keynesiana revitalizada pode não ser capaz de travar o declínio do crescimento a longo prazo  da mesma forma que os governos se encontram  incapazes de se financiarem para manter a procura ao nível considerado adequado.  Não é claro, de todo, como é que a emissão de papel-moeda ou os jogos financeiros podem criar e colocar a economia numa trajectória de crescimento real e de riqueza. O antigo ministro alemão das Finanças, Peer Steinbruck questionou esta abordagem do problema: ” quando pergunto qual foi a origem da  crise, economistas que respeito respondem-me que foi o crescimento do endividamento pelo crédito bancário dos últimos anos e décadas. Não será este o mesmo erro que todos estão repentinamente a fazer de novo? “

A intervenção do governo pode atenuar alguns dos custos da crise, mas não pode resolver os problemas fundamentais delas resultantes. Não é nada evidente que o problema do crescimento pode ser ultrapassado pelos decisores políticos Se a política de expansão da procura via défices, a política monetária de taxas de juro baixas e a existência de condições de fornecimento de quantidades ilimitadas de dinheiro para o sistema financeiro representam a cura económica universal então os problemas económicos do Japão desde há muitos anos que estariam resolvidos.

O problema é o próprio modelo económico. Como o antigo presidente do Fed Paul Volcker observou em 11 de Dezembro de 2009: “nós temos um outro problema económico, que está  misturado no consumo actual excessivo, ou seja, o da muita despesa relativamente à nossa capacidade de investir e de exportar. Este problema está envolvido com a crise financeira, mas de uma forma que se torna bem mais difícil do que a crise financeira porque esse excesso reflecte a estrutura básica da economia.”

A caminho do real

O retorno ao crescimento económico requer o regresso a uma verdadeira engenharia aplicada à economia real mais do que ter a economia real dependente da engenharia financeira. É necessário inverter a tendência e caminhar no sentido de se ter um Estado onde a economia real simplesmente é o suporte para a actividade económica e para o investimento assente este nos recursos subjacentes.

O crescimento tradicional baseia-se no aumento da população, dos recursos sustentáveis e acessíveis, nos novos mercados, bem como na melhoria da produtividade e da inovação.

Enquanto a população mundial está a aumentar, muito do crescimento que se tem verificado dá-se nas nações mais pobres. A população das nações desenvolvidas mais ricas está a contrair-se com as taxas de natalidade a caírem abaixo dos níveis de substituição. Em muitos países, a população activa está em declínio como acontece actualmente com a geração nascida imediatamente após a 2ª Guerra Mundial que está a atingir a idade de passagem à reforma. No entanto, com o aumento da esperança de vida, a dimensão deste grupo etário cria uma procura de serviços de saúde e de rendimentos de reforma que devem ser suportada pelos trabalhadores em exercício, número este que está, inversamente, a diminuir. Nos países desenvolvidos, o envelhecimento da população irá restringir o crescimento.

Os constrangimentos sobre o meio ambiente e sobre os recursos limitam o potencial para grandes aumentos na população. Sem melhorias significativas nas tecnologias agrícolas, será cada vez mais difícil alimentar a população do mundo que se está a aproximar  rapidamente dos 10 milhares de milhões.

Os agrónomos estimam que a produção de alimentos precisará de aumentar de 60% a 100% em 2050 para fornecer alimentos suficientes para o mundo, bem como mais proteínas sob a  forma de carne para a classe média em crescimento rápido  no mundo em desenvolvimento. Mas a quantidade de terras aráveis permaneceu relativamente constante, em cerca de 3,4 mil milhões de hectares, na última década. Os aumentos nas colheitas tornaram-se cada vez mais difíceis de alcançar.

Jeremy Grantham, fundador da Asset Manager OGM, escreveu uma peça intitulada  Seja bem-vindo  ao mundo da distopia, onde  referiu : “estamos desde há  cinco anos em face de uma crise alimentar global bastante severa que é muito improvável que venha a ser resolvida. Esta vai ameaçar os países pobres com as situações de fome e de crescente desnutrição e pode levar a que estes países possam até entrar  em colapso . As disputas sobre os recursos e as ondas migratórias induzidas pela falta de alimentos vão ameaçar a estabilidade global e o crescimento global… mesmo se nós pudéssemos produzir comida suficiente para alimentar globalmente toda gente e de forma satisfatória, o aumento contínuo e constante do custo dos produtos intermédios significará números crescentes de pessoas que não serão  capazes de poder pagar os alimentos que poderão ser produzidos. “.

Descidas sustentáveis no preço da energia e de outros recursos escassos também são difíceis de perspectivar. A qualidade dos recursos de petróleo a nível mundial está em declínio. Os campos onde a extracção é mais fácil e onde é então mais barata,  estes estão a ficar esgotados o que exige uma mudança para fontes de extracção mais difíceis e mais caras, portanto. Dado o seu papel central no transporte, o aumento dos preços da gasolina ou dos produtos relacionados é muito preocupante.

As novas fontes de energia são caras e podem criar novos problemas. A produção de bio-combustível para encher um tanque de 25 litros de SUV exige uma quantidade de milho suficiente para alimentar uma pessoa durante um ano.

As  medidas de política financeira – a política dita quantitative easing, ou seja, de flexibilização quantitativa para servir de estímulo à economia assim como a política de desvalorização externa da moeda nacional – são também políticas que podem gerar subidas de preços. A perda da fé no papel-moeda alimenta a procura de activos reais, incluindo commodities, tanto  quanto os investidores tentam preservar o seu poder de compra.

O espaço para a existência de novos mercados é limitado. Desde 1989, a maioria das economias, com excepção de Coreia do Norte, está integrada no sistema comercial global. Na verdade, os ganhos da globalização podem inverter-se. Há cada vez mais países a estimularem a actividade interna enquanto procuram utilizar estratégias competitivas e agressivas ditas  de  beggar-thy-neighbour, para alargar a sua posição nos mercados externos à conta dos seus parceiros comerciais, através da  política industrial, das restrições comerciais, da manipulação da sua divisa  e dos controles sobre a livre circulação de capitais.

(continua)

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