Hoje é o dia do aniversário de Omar Khayyam – pois terá nascido em 18 de Maio de 1048 em Nishapur e morrido em 4 de Dezembro de 1131, na mesma cidade. Não ponho as mãos no fogo pela exactidão destas datas, embora um dos feitos de Khayyām tenha sido o de calcular como corrigir o calendário persa. Além de matemático, Khayyam foi astrónomo e filósofo… Mas foi, sobretudo, um grande poeta. Além de grande bebedor… Oito séculos depois, em Lisboa, outro grande poeta, Fernando Pessoa, também apreciador de vinho, estudou a fundo a obra de Omar Khayyam.
E escreveu rubai e rubayat. Foi a investigadora da Faculdade de Letras de Lisboa, Professora Maria Aliete Galhoz quem recuperou esses rubai e
rubayat, quase todos inéditos 44 (entre éditos e inéditos), e os reuniu num livro, ilustrado por Eurico Gonçalves e editorialmente por mim organizado, livro que foi publicado em 1997, «Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa». Lembro-me que quando o Eurico me trouxe as ilustrações, lhe perguntei por que motivo eram todas elas «ao baixo». Resposta do artista – «um livro sobre este tema tem de ser “ao baixo” – o Omar Khayyam bebia reclinado» – Respondi-lhe que, em contrapartida, Pessoa bebia “ao alto”, encostado ao balcão do Val do Rio. Rimos. O livro, que é uma jóia e uma relíquia bibliográfica, ficou “ao baixo”.
Eis um rubai de Pessoa. Tem um verso incompleto, pois é um manuscrito datado de 12 de Setembro de 1935 e o poeta morreu em 30 de Novembro desse ano. Escolhi-o por ser belo e por, tendo ficado incompleto, nos lembrar a transitoriedade da vida:
Não me digas mais nada. O resto é vida.
Sob onde a uva está amadurecida
moram os meus sonos, que não querem nada.
Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.
Sob os ramos que falam com o vento,
inerte, abdico do meu pensamento.
Tenho esta hora e o ócio que está nela.
Levem o mundo: deixem-me o momento!
Se vens, esguia e bela, deitar vinho
em meu copo vazio, eu, mesquinho
ante o que sonho, morto te agradeço
que não sou para mim mais que um vizinho.
Quando a jarra que trazes aparece
sobre o meu ombro e a sua curva desce
a deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,
por teu braço teu corpo me apetece.
Não digas nada que tu creias. Fala
como a cigarra canta. Nada iguala
o ser um som pequeno entre os rumores
com que este mundo (verso incompleto)
A vida é terra e o vivê-la é lodo.
Tudo é maneira, diferença ou modo.
Em tudo quanto faças sê só tu,
em tudo quanto faças sê tu todo.



Uma joia o livro ao baixo. Algumas vezes o namorei sem possibilidade, mas dele fiquei vizinho. Resta-me o livro ao alto.
Fico agradecido por esta lembrança.
Um abraço.