Há umas cinco décadas uma canção popularizou-se e andava nos ouvidos de toda a gente. “Oh tempo, volta para trás”, creio que não era melodicamente um fado – confesso-me analfabeto nessa matéria – mas era a “cantiga da rua” da época. No essencial tinha a ver com a nostalgia dos anos da juventude que tinham ficado para trás sem qualquer conotação, mais ou menos encoberta, com passados políticos.
Hojesão frequentes as crónicas que aproveitam politicamente o título para denunciarem a dinâmica de regresso ao passado, ao ante-25 de Abril, que as actuais instâncias do poder estão a fomentar nas ansiedades, nos comportamentos, nas consciências, no íntimo dos portugueses.
Dizia-se em pleno fascismo, jocosamente mas com sentido da realidade, que o poder, para além das práticas repressivas da PIDE e da censura, sobrevivia porque alimentava na sociedade factores de alienação que desviavam as preocupações das pessoas das agruras cruéis do dia-a-dia. Era a sua receita do pão e circo do império romano que, na versão salazarista, se traduzia na fórmula dos “3F”, Futebol, Fado, Fátima. E fez eficaz aproveitamento de sucessos episódicos nessas três áreas que, paradoxalmente, tinham grande eco popular e, naturalmente, nas próprias massas desafectas ao regime. Do futebol beneficiou dos êxitos europeus do Benfica no início da década de 60 e da selecção no mundial de Londres de 1966. Do fado, que assentava acima de tudo na sua manifestação mais popularucha tocando emoções básicas da saudade, do amor, do ciume, do machismo, da caridadesinha, aproveitou-se da projecção dessa enorme intérprete que foi Amália, utilizando-a politicamente com óbvio prejuízo para a própria que pagou um preço amargo de que felizmente veio a recuperar. De Fátima foi a manipulação religiosa da crença popular, a Igreja ao lado do poder, apesar de vastos sectores católicos se colocarem entre os que mais combateram a tirania, com posições sócio-políticas de esquerda, por vezes bem radicais.
Os alertas ao “Oh tempo, volta para trás” de hoje, incidem nos sinais de que estes factores de alienação estão a regressar e a servir a necessidade de, de novo, desviar as atenções populares da realidade política e social. Com os sectores menos politizados e uma juventude que já não conheceu o fascismo, a guerra e o período revolucionário, cansados de promessas vâs e, em parte, descrentes das virtudes da democracia, o clima volta a ser favorável a cantos de sereias.
O futebol aí está como refúgio das preocupações dominantes na juventude, a ocupar os maiores espaços nos órgão de informação. O aproveitamento é chocante. Nos debates televisivos, em horários nobres e com vastas audiências, os comentadores são na quase totalidade figuras destacadas dos partidos do poder. Fazem política? Que ideia! A alienação é uma forma de fazer política e, acima de tudo, tornam-se conhecidos, frequentam virtual e assiduamente as casas das pessoas e abrem caminho para eleições na área política.
O fado tembém regressa em força, mas este, felizmente, em condições bem menos perversas do que antes de 1974. Há hoje um enorme e qualificado naipe de intérpretes, a canção ganhou dignidade e, graças sobretudo ao papel desse grande cidadão que é o fadista Carlos do Carmo, conquistou o reconhecimento como património mundial da cultura.
E Fátima também regressa, mas esta pelas piores razões, que não têm a ver com o genuino fervor religiosoque atrai peregrinos à Cova da Iria.É a beatificação dos videntes e a maior atenção papal, colaborando na aposta mais material da sua referência como local de turismo religioso. E regressa, pasme-se, pela voz do presidente da República, que invoca a inspiração mariana – duplamente, aliás, de sua mulher e da padroeira –, para louvar a sua influência no “sucesso” da avaliação da tróika. Fátima e São Jorge, eis as referências do discurso presidencial.
Neste “Oh tempo, volta para trás”, também estaremos a regressar aos patéticos discursos de Américo Tomás?…
20 de Maio de 2013
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P.S. No GDH da semana passada referi as perversidades óbvias do carácter de Paulo Portas. A Revista do “Expresso” do último sábado destaca, de forma demolidora, o cinismo da maquiavélica personagem, que já emergia enquanto jovem director do “Independente”. Com a idade apenas refinou. As suas anteriores vítimas estenderam-lhe a passadeira do acesso aos corredores do poder. Onde a dignidade não ocupa lugar.
PPC
