Da Galiza, mensagem : Viúvos de vida – por Isabel Rei

Da Galiza mensagem

Viúvos de vida

 

Nunca de pequeno tanta excitação e medo sentia como quando o avô contava histórias de desaparecidos ao lume da lareira, envolvidas as mãos na cunca fumegante, espelhando chinescas sombras na parede. Nas noites de inverno quando o xistral caía sobre o burgo e o vento zoava qual gigante no mar, entre o bruar da coriscada e o trovão, hipnotizava-se naquela voz grave e maininha que contava os contos de ausentes começando desta maneira:

– Já vos tenho dito que quando alguém não está no seu sítio, no lugar onde é querido, diz-se que “vai na Espanha”.

É por isso que desde pequeno, desde a infância eterna, da sempre proteção do pai e da mãe, a Espanha parecia-lhe o fim do mundo, um sítio completamente fora do alcance dos mortais, como se para faltar fizesse falta morrer porque fosse impossível, doutro modo, tirar-nos do lugar onde nos amam.

Agora, à beira dos cinquenta, costumava pensar que lhe faria falta muito esforço para volver as cousas como eram. Por vezes sentia que tudo estava perdido, a começar pela sua vida, como se tivesse marchado à Espanha de si mesmo, lugar onde nunca mais se acharia quando fosse necessário. No fundo sabia que não queria encontrar-se, queria era perder-se e nunca mais saber daquele que abandonou.

O avô, porém, acompanhava-o sempre, mesmo anos depois de morrer. Porque nunca o deixou ir-se de tudo. Ainda lhe pedia cada noite um conto, que escutava como de neno e aprendia com báguas nos olhos. E, parece que sim, que foi de tanto fazer da vida um pensamento, de tanto mergulhar na saudosa lembrança do avô, que virou um daqueles protagonistas dos contos de ausentes.

 

Noturno - Ângelo Johan (1901-1965)
Noturno – Ângelo Johan (1901-1965)

 
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5 Comments

  1. Já que falamos de avós, digo-vos que tive a infelicidade de apenas conhecer a minha avó paterna, mas não há dia nenhum que dela não me recorde. Que sapiência, que lições me dava sem dar a ideia de que era mais uma lição ao seu neto, que ela tanto amava, como às suas netas, minhas irmãs.
    Que saudades tenho de ti, minha avó Maria do Rosário, que falta me fazes!

  2. que bom ler, de manhã, o escrito na noite… sim, o nosso ser “vai na Espanha”, ou talvez foi que a Espanha entrou em nós e não nos deixou ser?… mas não, não tudo está perdido: ficou-nos a língua, e com ela não pode a Espanha…

    no meu caso era “a tia Carmela” (tia do meu pai) que nos contava os contos à beira da lareira, a fazer as filhós, que depois nos dava pra comer (e que bem sabiam!)… mas o que nos deu afinal foi a língua, e essa ainda nos sabe…

    agora és tu, Isabel, a minha “tia Carmela” de Guimarei…

    abraço!

  3. Obrigadíssima, como sempre, pela leitura e comentários, Pedro, António, Carlos.
    O texto intitula-se “viúvos de vida” e conta brevemente a história interior de um neno que se faz adulto, “à beira dos cinquenta”. O avô constitui para ele uma obsessão que não dá ultrapassado. Como se preferisse ser o protagonista de um conto de ausentes, de desaparecidos, antes do que ser a pessoa que era, de criança, livre, protegida e protetora, generosa de amor.
    O avô é um pretexto. E o de “ir na Espanha” pareceu-me uma aceitável metáfora…

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