
III
No francês que os nossos soldados falam, nota-se o vício curioso de se inverterem os géneros. Não se diz senão um bière, um maison, uma village. Um dos meus rapazes mandava dizer à menina Rosa que o espera em Vila Nova de qualquer cousa: ― “Está aqui uma madamoisele a querer saber a quem estou escrevendo. Já me perguntou se eu escrevia ao mon fiancé; mas eu disse-lhe que era à ma frère”.
Aportuguesaram-se palavras: aquele chien que faz mover a roda da manteigueira passou a ser um chião, a cama, o couchi, etc.
Depois de terem aprendido o inglês, as meninas da região deitaram-se ao português. Não estávamos em França há oito dias e já era vulgar ouvir numa loja Folgadinho espremer-se todo para perguntar: “Combião, madamoisele?” E a locandeira, muito amável, responder-lhe, com um sorriso cheio de convicção: “Um toston et deux vintènes”.
Hoje há por lá quem fale muito bem a nossa língua, tendo começado por aprender a dizer “un bêju” e acabado, como sempre se acaba em tais casos, por entender perfeitamente aquilo mesmo que se não chegava a explicar. É ― como dizia um poeta meu camarada ― a desforra de Soror Mariana.
