GIRO DO HORIZONTE – ESQUERDA E DIREITA – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Há mais de um ano que venho escrevendo, neste meu GDH, que Portugal está sem governo. Uns indivíduos que se denominam ministros e aplicam sanções decididas no estrangeiro punindo os portugueses por terem, passivamente, aceitado que alguns, poucos, vivam acima das possibilidades da grande maioriae têm a desfaçatez de afirmar que Portugal está sob protectorado, sob tutela, intervencionado, em regime de soberania limitada, não constituem um governo soberano e há já muitas vozes autorizadas a reconhecê-lo. É uma situação que se arrasta,perigosamente, porque a sensação é que atingiu os limites só não se vislumbrando como acabará. O mais grave é que não se perfila uma alternativa regeneradora. Um regresso do PS de braço-dado com o CDS cujo namoro já é público, significa que não será posta em causa a tutela externa. Os mandantes permanecerão os mesmos, só mudarão os mandatários.

Desde 1976 a demarcação entre esquerda e direita nunca passou pela fronteira PS-PSD. Passou pelo interior do PS. E assim continua. Reflectindo sobre isto recuperei parte de um texto que publiquei em Setembro de 1996em“O Referencial”, da A25A. Como creio que se mantém actual, aqui segue, com ligeiras adaptações:

Quando se insiste no esbatimento da fronteira entre esquerda e direita está-se, muitas vezes, perante uma de duas atitudes. Ou a pretensão de que a esquerda deixou de fazer sentido porque os seus valores se perderam ou foram adquiridos pela direita. É uma tese de direita, o império do pensamento único. Ou a justificação do abandono dos princípios caracterizadores da esquerda, dos objectivos porque se batia e do seu alinhamento com aquilo que negava. Tese de uma esquerda no poder que se limita a situar as diferenças nos comportamentos e não nas opções programáticas.

Então cabe perguntar: será a diferença entre esquerda e direita uma questão entre oposição e poder? Isto é, será que só pode assumir-se coerentemente de esquerda na oposição, uma vez que o poder exige opções de direita? Será que o espaço geopolítico em que nos integramos e o quadro institucional em que o poder se move – o ordenamento jurídico, a superestrutura económico-financeira, a malha das organizações supranacionais, as alianças militares, o controlo da informação, a manipulação do desemprego – constituem um edifício tão sabiamente construído pela direita para preservar os seus interesses que anula qualquer veleidade de nele se instalar um poder que promova valores da esquerda?

Não vou alongar-me a discorrer sobreos valores da esquerda e o que os distingue dos da direita. Mas assumo que a fronteira existe, que lhe conheço os contornos e reconheço a sua actualidade, quer no campo ideológico, quer ao nível dos objectivos políticos e da prática política concreta. Norberto Bobbio, no seu livro “Direita e Esquerda” (Presença,1994, Lisboa), discorre sobre isto valorizando como factor diferenciador o valor da igualdade. Na díade liberdade-igualdade tende-se a considerar que a direita privilegia a liberdade enquanto a esquerda privilegia a igualdade. Bobbio denuncia este falso dilema, quanto a nós bem. Ao recusar a igualdade e cultivar a liberdade a direita está a reconhecer o direito de uns serem mais livres do que outros. A esquerda, ao priorizar a igualdade, está a universalizar a liberdade já que só em liberdade se pode lutar pela igualdade.

No regime constitucional derivado do 25 de Abril, depois de 1976, o poder tem sido sempre sujeito a uma sufocante atracção da direita. Os governos, todos eles, têm sempre governado à direita do quadro constitucional, mesmo depois dos ajustamentos à direita que a Constituição tem conhecido. E os partidos saídos das várias eleições, quando apenas dispõem de maiorias relativas, têm buscado apoios e coligações, sempre e sem excepção, com partidos situados à sua direita.Todos estes governostiveram sempre um e o mesmo sentido. A igualdade nunca foi o objectivo, ainda que longínquo, da sua política que, pelo contrário, tem conduzido sistematicamente ao agravamento do fosso das desigualdades.

Eis o porquê da dúvida: será então que neste espaço e neste tempo, poder é igual a direita e esquerda só é viável na oposição, como manifestação de contra-poder?

Apesar de tudo acredito que se pode ser de esquerda e ter no poder uma prática política de esquerda, que não signifique apenas fazer o mesmo que a direita mas de maneira diferente. Mas para isso é necessária a coragem para produzir rupturas e enfrentar as suas consequências.A esquerda exige a ousadia de romper, de mudar, de inovar.

Assim não sendo, que se tenha a humildade de reconhecer que a aceitação passiva da inevitabilidade do actual quadro de condicionalismos internos e externos implica que, no poder, qualquer partido se conforme em seguir a lógica da direita.

27 de Maio de 2013

2 Comments

  1. Eis um tema que convém trazer a terreiro, com frequência, aclarando-o com o rigor que de Pedro Pezarat Correia. É que a propaganda de direita está sempre a funcionar, quer por acção dos seus militantes e serventuários, quer pela intervenção acéfala de muitos profissionais dos “media”, que aceitam e repetem, pavlovianamente, até á náusea, as “evidências” e lugares-comuns que lhes vão atirando (na escola, na universidade, nos próprios “media”, em pseudo-conferências de imprensa) como osso a cão, sem jamais se interrogarem sobre o seu conteúdo ideológico e semântico, neste caso, sobre a sua total ausência de sentido.

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