Está claro para toda a gente que as chamadas reformas para colmatar o défice estão a ser feitas à custa de quem trabalha e de quem vive das suas reformas. A única divergência significativa a este respeito é entre os que acham que tal situação é inevitável, os adeptos da TINA (There Is No Alternative, a expressão favorita de Margaret Thatcher), por um lado, e os que acham que há outras soluções, por outro. Como facilmente se constata, os primeiros em geral são partidários incondicionais do actual governo e da oligarquia que o apoia, os segundos, que são a maioria, têm diversas opções políticas, que incluem os diferentes partidos da esquerda, independentes e muita gente de algum modo afecta ou que tem apoiado os próprios partidos do governo. Existem entretanto dúvidas pertinentes sobre o que aconteceria, por exemplo, no caso de haver eleições e o partido socialista as ganhar. As opções que seguiria seriam assim tão diferentes da do governo Passos/Portas/Gaspar?
Entretanto, os mandantes têm procurado lançar as pessoas umas contra as contras. Os trabalhadores contra os reformados, dizendo que estes estão a ser sustentados com os descontos que aqueles estão agora a fazer, sem sequer explicar o que terá acontecido com o dinheiro dos fundos de pensões e aposentações existentes (veja-se só o caso do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social); os que têm trabalho contra os desempregados, dando a entender que estes não querem trabalhar; a maioria contra os beneficiários do RSI; etc.
Um alvo favorito deste tipo de manobras, desde há muito, têm sido os funcionários públicos. Desde há muito que são o alvo de campanhas sobre a sua qualidade e a sua utilidade. Fazem-se correr sobre eles as imagens mais grotescas de parasitismo, de incompetência. Procura-se assim esconder questões essenciais, que dizem respeito, em primeiro lugar, à incapacidade e à falta de seriedade dos governantes. E seguir as linhas mais fáceis de acção, como: quando há problemas, responsabiliza-se quem está por baixo. Estas ideias, muito arreigadas, estão a ser utilizadas para fazer passar junto da opinião pública as próximas medidas chamadas de austeridade, que parece que vão incluir despedimentos colectivos em vários sectores, para além de mais cortes nas remunerações.
Estas medidas, a serem aplicadas, para além de afectarem a vida de muita gente que trabalha para o estado, vão atingir também muitos utentes dos serviços públicos, nas áreas de educação e saúde, e não só. O Estado tem assegurado a prestação de muitos serviços, para os quais não existe qualquer alternativa, nomeadamente quando os beneficiários são pessoas com poucos recursos. Este aspecto tem particular influência na espiral recessiva em que estamos mergulhados.

