(
Continuação)
II – O âmago da questão
Voltemos, rapidamente, ao dia 10 de fevereiro, quando repercutiu no mundo a denúncia de uma jornalista da Alemanha sobre o sexismo no país governado por Angela Merkel. Em reportagem da conhecida revista Stern, Laura Himmelreich,de 29 anos, revelou que não conseguiu entrevistar o ex-ministro da Economia e líder da coalizão do governo, Rainer Brüderle, porque o político, de 67 anos, ao invés de responder às perguntas da jornalista, só queria fazer comentários sobre os seios dela. A revelação estimulou outras mulheres para que também se queixassem: Anne Wizorek, outra jornalista, iniciou uma campanha no Twitter; Claudia Roth, a presidente do Partido Verde, afirmou que “as mulheres continuam sendo vistas como objetos sexuais”; e Dagmar Engelmann, deputada do partido radical A Esquerda, “disse estar cansada de ouvir que sua aparência é melhor do que o seu discurso político”.
Que é o sexismo?
O sexismo é o “racismo” do homem em relação à mulher. Mas o sexismo não é causa, é consequência.A verdadeira etiologia, a causa profunda, a origem de todos os comportamentos discriminatórios, falocráticos, sexistas ou machistas é a crença multimilenar de que o homem é superior à mulher e, portanto, pode tratá-la como cidadã de segunda categoria, objeto, coisa. E nessa reificação que dela faz, nem sempre percebe o quanto a avilta e degrada. O sexismo é a prática de uma teoria mais ou menos difusa e subliminar, em última análise, a ideologia do androcentrismo, que coloca o homem no centro e/ou acima de tudo e perpassa a nossa e várias outras culturas. Isso inclui um grande número de mulheres que introjetam a ideologia, a incorporam, a reproduzem e não a contestam.
Porque as mulheres têm uma autopercepção dividida que agrega sentimentos de dependência e de inadequação experimentados num mundo de homens, o mundo orientado pela ideologia masculina dominante. A elas podemos, portanto, dizer, no estilo de Frantz Fanon, o grande crítico do colonialismo europeu, que precisamos desmontar os mecanismos de nossa alienação.
Façamos um exercício, tomemos um simples exemplo do nosso idioma, a língua portuguesa: no dicionário de sinônimos de Antenor Nascentes, encontramos para a palavra “prostituta” cerca de 60 sinônimos; para a palavra
“cáften”, o homem que vive às custas das prostitutas, que as domina e explora, só encontramos dois sinônimos – “rufião” e “proxeneta”. Tudo se passa como se a priori a própria língua nos incitasse à discriminação.
Em compensação, o novo dicionário de língua inglesa da Austrália, o Macquaire Dictionary, atualizou e ampliou o sentido da palavra “misoginia” em outubro de 2012, por causa da repercussão de um debate entre a primeira-ministra Julie Gillard e o líder da oposição Tony Abbott, quando Gillard afirmou que o vocábulo significa o preconceito arraigado contra as mulheres, e não apenas, como na acepção anterior, a aversão ou o ódio às mulheres. É possível, pois, discriminar as mulheres sem odiá-las E é esse preconceito arraigado, que está na base do androcentrismo ou da ideologia androcêntrica, que se manifesta ou expressa em diferentes níveis: quanto mais culto e sofisticado, mais disfarçado e insidioso.
Ou aparentemente engraçado: um canal a cabo da televisão brasileira divulgou há pouco tempo um documentário sobre o que se convencionou chamar de “preferência nacional”. Antropólogos, sociólogos, historiadores e outros intelectuais foram convidados a falar sobre o apreço que o homem brasileiro demonstra pelos glúteos ou nádegas das mulheres, para não usar a palavra mais grosseira que eles se comprazem em pronunciar. Imaginemos, apenas como exercício retórico, que mulheres cientistas, pesquisadoras, sociólogas, psicólogas etc., também se reunissem para debater a preferência da maioria por certas partes dos corpos masculinos. Como reagiria a mídia? Não ignoramos, no entanto, que algumas mulheres também utilizam uma linguagem grosseira e se comportam de forma debochada e criticável.
Pois na mesma semana em que o mundo se escandalizava com o caso trágico da moça Nirbhaya, de Nova Déli, e em que tomávamos conhecimento das humilhantes violências sexuais que sofrem as mulheres das Forças Armadas dos Estados Unidos da América do Norte, um dos nossos colunistas, Nelson Motta, com o aval de conhecida e midiática antropóloga, julgou oportuno divulgar e comentar uma outra notícia também dos EUA: a de que algumas moças das universidades de lá costumam enviar aos colegas e professores mensagens chulas em que se oferecem sexualmente. Isso não invalida, porém, nosso grito de revolta contra a violência que se pratica atualmente em todo o mundo contra as mulheres.
Que algumas, em sua alienação, se comportem de forma desabusada e provocativa vem apenas confirmar a necessidade básica e urgente de educação sexual em nossas escolas e sociedades. Tentando sempre desmontar os mecanismos de nossa alienação, lembro agora o que já tive a oportunidade de escrever no prefácio à segunda edição do meu livro O Feminismo é um Humanismo: “A conquista feminina do direito a um prazer sem culpa se vê ameaçada pela banalização da pornografia e até mesmo do sadomasoquismo, que aparentemente quebram tabus mas, na verdade, reduzem a sexualidade a meras sensações físicas vazias de significado e de emoção.” Além disso, “na sociedade que hoje se caracteriza como de consumo sexual, os homens vivem obcecados por seu desempenho, e as mulheres, por sua aparência”. No Ocidente, onde não temos o costume cruel da excisão do clitóris infligido às indefesas meninas de algumas regiões da África, como a Somália, fato revelado dramaticamente no filme Flor do Deserto, sobre a conhecida modelo Waris Dirie, temos, em compensação, o costume cada vez mais difundido de as mulheres se submeterem a mutilações e implantes para corresponder aos padrões de beleza sugeridos ou impostos pela estética em voga. E a insatisfação de tantas mulheres com a própria aparência denota que agradar e seduzir são os poucos poderes que acreditam deter. Porque no sistema em que vivemos, como disse Elisabeth Badinter, “os homens conservam ciosamente o poder que condiciona todos os outros” – o econômico e financeiro.
(Continua)

Para além dos inúmeros exemplos deixados pela Raquel, acrescento o das três mulheres restituídas à liberdade há cerca de um mês, em Cleveland, raptadas há dez anos e uma criança, nascida em cativeiro. Lembro as que passaram de situações semelhantes e deixaram escrito as suas experiências, com a publicação em livro: Nathalie Schweighoffer sobre as violações perpetradas por seu pai – “J’avais douze ans”; Sabine Dardenne, uma das sobreviventes do pedófilo homicida Marc Dutroux, que a raptou aos doze anos – “Choose to live.”; Jaycee Dugard – “vida roubada”