OS DICIONÁRIOS – HOMENAGEM A ESSES AMIGOS – por Carlos Loures

livro&livros1

Amigos verdadeiros e insubstituíveis, são os bons dicionários. Fiéis como bondosos cães, repousam nas estantes e acorrem solícitos a tirar-nos dúvidas. Os dicionários, nossos amigos, nunca nos negam a sua ajuda. Uma vez por outra, podem morder-nos. É quando não os respeitamos e os consultamos de forma apressada. Há em cada dicionário um duende travesso que nos troca páginas, entradas, acepções…

Imagem1Tenho grande apego ao «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», de José Pedro Machado, meu querido e saudoso amigo. Mas, numa estante na minha frente tenho algumas dezenas de outros que utilizo com frequência, monolingues e bilingues; o onomástico e o etimológico também de José Pedro Machado o de sinónimos e antónimos de Houaiss, vocabulários, gramáticas (entre elas a do Lindley Cintra e do Celso Cunha), o «Tratado de Ortografia», de Rebelo Gonçalves, ensaios sobre linguística, dicionários de provérbios … Entre os monolingues, estão os seis volumes do «Houaiss da Língua Portuguesa». Um que não tenho e que sei fazer-me falta é o «Aurélio» (»Novo Dicionário da Língua Portuguesa», de Aurélio Buarque de Holanda(1910-1989); com uma primeira edição de 1975 e uma segunda, revista, corrigida e aumentada, de 1986). Os dicionários são amigos que permanentemente me aconselham e esclarecem. E, mesmo com tão boa companhia e assessoria tão qualificada, de vez em quando descubro (ou outros descobrem) erros no que escrevo.Imagem1

Costuma dizer-se que os dicionários se inspiram uns nos outros o que, em parte, será verdade. Sem o «Vocabulário» do Padre Rafael Bluteau, talvez o «De Moraes», não existisse, sem o «De Moraes», dificilmente José Pedro Machado teria construído o seu e, sem o «Machado», Antônio Houaiss talvez também não tivesse concluído o seu trabalho tão depressa. Isto, para simplificar, pois a realidade é bastante mais complexa. Entre o «De Moraes» e o Houaiss, para falar num com duzentos anos e noutro publicado há pouco mais de dez, vamos encontrar entradas iguais ou quase iguais. Digamos que um dicionário depois de acabado constitui um ponto de partida para outro. Mas não é dessas semelhanças que quero falar.

Também não vos vou falar da proto-história da ciência dicionarística, que remonta à Mesopotâmia. Apenas traço, e de modo muito abreviado, a genealogia dos dicionários monolingues da língua portuguesa. O primeiro problema que se levantou, quando alguém pensou em organizar um dicionário da língua, foi questionar a sua utilidade: para que serve um dicionário monolingue se as pessoas, de um modo geral, conhecem todos os vocábulos do seu idioma? Para que precisa um português de um dicionário onde se explica o significado de palavras que ele usa todos os dias? Por isso, o  conceito inicial de dicionário apenas abrangia os bilingues. O primeiro que se fez no nosso País, foi o de Português – Latim, com o título «Dictionarium ex Lusitanico in Latinum Sermonem», foi publicado em 1569 e  seu autor Jerónimo Cardoso (c,1510-1569); tinha cerca de 13 mil entradas.

O «Vocabulário Português e Latino», do padre Raphael Bluteau, editado entre 1712 e 1728, é geralmente considerado como o «pai» de todos os dicionários gerais – seguiu-se o «Dicionário da Língua Portuguesa», de António de Moraes Silva, o velho «De Moraes», publicado em Lisboa no revolucionário ano de 1789. Em 1813, ainda sob a supervisão do autor, publicou-se uma segunda edição. Ainda hoje, o «De Moraes» é considerado como uma referência e como um ponto de partida para tudo o que se faça nesta área da linguística. Uma pequena curiosidade de almanaque – interessante como, de um modo ou de outro, alguns dos nossos melhores dicionários se relacionam com o Brasil – António de Moraes Silva (1755-1824) nasceu no Brasil (então colónia portuguesa), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) e Antônio Houaiss (1915-1999) eram distintos filólogos brasileiros. José Pedro Machado(1914-2005), bem este não era brasileiro, mas casou com a Professora (e também filóloga) brasileira Elza Paxeco (1912-1989). Do casamento, além de vários e  valiosos trabalhos filológicos, nasceu o nosso, não menos  valioso, João Machado.

Há um livro da Professora Isabel Casanova, «A Língua no Fio da Navalha», com prefácio do Professor Malaca Casteleiro e editadoImagem1 pela Universidade Católica, onde Isabel Casanova lecciona, que trata toda esta temática, com uma profundidade que não alcancei aqui, por limitações de espaço e, sobretudo e principalmente, por limitações de saber. A obra aborda, com grande clareza expositiva, desde a história dos dicionários até às questões relacionadas com a utilização do idioma, nomeadamente o papel da Língua como forma de identidade nacional, os neologismos e a ortografia, capítulo em que alude à tão polémica questão do Acordo Órtográfico. «A Língua no Fio da Navalha» – para quem se interessa por esta problemática do idioma e dos seus suportes teóricos é um livro a não perder. Num pequeno volume, uma grande lição. Na Feira do Livro de Lisboa, deve poder ser encontrado no Pavilhão C18.

Os dicionários são nossos amigos, ajudam-nos a respeitar a língua portuguesa.

2 Comments

  1. Excelente o seu artigo sobre dicionários, Carlos Loures. Esses bons e exigentes amigos também me acompanham e eu os tenho em grande estima e respeito. Gostei de ver citados Antônio Houaiss, o nosso Aurélio de todos os dias e Celso Cunha. A infância de muitos brasileiros foi mais encantada por causa do Dicionário enciclopédico de Lello &irmãos, mas aí já não era só a língua, era o mundo todo e sua história que se descortinavam. Parabéns!

Leave a Reply