A MARCHA DOS GOSMAS. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Ao capitão médico Bossa da Veiga,

grande soldado do 23

 I

O batalhão vai em marcha. Para onde? Não sabemos ainda. Saímos com um rumo que não pode ser o verdadeiro, oposto como está à zona onde são urgentemente necessárias as trincheiras que, segundo se diz, nós vamos cavar. Estivemos apenas quarenta horas no acampamento tranquilo e, de madrugada, a ordem urgente de partirmos dentro de uma hora atirou-nos pelas estradas fora. Os franceses desta região nunca tinham visto portugueses, os ingleses que por aqui pairam olham-nos desconfiados, sabedores como são da retirada da antevéspera. É preciso paradar um pouco. Temos a consciência de que vamos para a frente cumprir o resto de um dever, e é preciso cumpri-lo bem. Mas ai de nós! A estrada é longa e os meus soldados estão extenuados. Supondo que iam descansar, tinham desengatilhado os seus nervos e deixado adormecer os seus músculos. Ao presenciarem durante longas horas o êxodo terrível dos vencidos, vendo-se tão poucos e tão cansados, nunca supuseram que os chamassem logo. Ao que parece, porém, a situação é terrível. O boche marcha sobre Calais, e na linha dos montes, cerca do mar, uma formidável batalha está travada. Porque desceremos nós para o sul? Na segunda étape, retomando o verdadeiro caminho, o saberemos. Para nada. Entretanto, pelas estradas intermináveis, o batalhão marcha. Há muitos estropiados dos pés, outros anemiados em extremo, bastante febris, gente que não pode suportar qualquer fardo. Acondicionam-se então as mochilas nos carros, sobre as montadas dos oficiais e, à retaguarda das quatro companhias, junto ao trem de combate e dos serviços de saúde, sob o comando do único médico que nos resta, o B… da V…, forma-se uma quinta companhia: a dos gosmas. Coxos, arfando, batendo o queixo, lá vão no entanto. Não querem largar o batalhão e vão até onde ele for. O seu chefe, doente também, amparando-se com estimulantes e antitérmicos, caminha incessantemente ao longo da sua coluna, como cão de rebanho, para que nenhum fique para trás. Nos carros seguem os mais cansados e, de quando em quando, há um que se apeia e outro que vem tomar o seu lugar. Se a estrada sobe e se é precisa uma arrancada, há sempre dois corneteiros dispostos a romper e outros para acertar no coro. Divide-se a étape e, de longe em longe, faz-se alto. Alguns não esperam que se formem os sarilhos e, deitados sobre a tralha, apoiam-se aos taludes da estrada. Um deles tem um dito inesquecível. Um grande cão, daqueles que os habitantes atrelam, vem farejar um grupo. Então uma voz dolorida suplica:

― Ó chião, vai buscar a tua carroça e leva as nossas mochilas.

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

1 Comment

  1. Tudo o que conheço do André Brun só consegue enternecer-me, direi mesmo, comover-me. A simplicidade profundamente humana deste escritor que, direi eu, como nenhum outro, soube retratar os Homens que serviram na pior das guerras na Europa, quanto a mim, já o terei dito, merece que nas escolas seja uma leitura obrigatória. Em quaisquer circunstâncias, no rumo militar de André Brun esteve sempre presente o valor da vida humana e o respeito profundo pelos seus subordinados. CLV.

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