REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Para os nossos combates  de amanhã, para um mundo mais livre, mais justo, mais igualitário, mais fraterno e solidário, devemos  manter viva a memória das  nossas lutas
Gunter Holzmann

lebaron - IA dinâmica imprevisível da crise política na Europa

 A DINÂMICA IMPREVISÍVEL DA CRISE POLÍTICA NA EUROPA

FRÉDÉRIC LEBARON

http://www.medelu.org/Les-dynamiques-imprevisibles-de-la

Logo a seguir ao patético caso Cahuzac, é dificilmente discutível que a França  tenha  entrado num  período de forte turbulência política e institucional [1]. Forçado a arranjar e a coser a quente  uma pequena reforma em matéria  de transparência quanto ao património dos eleitos, o governo de Ayrault deve ter de  enfrentar a erosão particularmente rápida [2] da sua popularidade e várias formas de radicalização, de direita e de  extrema-direita em primeiro lugar [3].

A questão fiscal é colocada novamente no centro do questionamento das elites políticas e económicas neoliberais, que se formaram durante anos e com laços estreitos para com os poderes financeiros.

Após a crise financeira e a recessão global em 2009, a escolha das política de austeridade na Europa, legitimada pelos  trabalhos macroeconómicos agora amplamente desacreditados  [4], continua a desestabilizar as  sociedades e a acentuar um desafio multifacetado do funcionamento das instituições nacionais e supranacionais. A tomada de consciência das suas consequências catastróficas está a progredir dia a dia no interior das elites dominantes [5], mas os principais actores da corrente austeritária, de Angela Merkel ao  Comissário Europeu Olli Rehn, passando pelo Presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi, permanecem de pé e no comando da  Europa.

Eles não parecem dispostos a abandonar as suas  crenças fundamentais, sempre centradas na rápida redução da dívida e do défice público. Algumas pequenas mudanças  no entanto parecem ter de ser impostas, mesmo na Comissão Europeia [6], embora os objectivos finais não sejam postos em causa: se, após vários meses de guerras internas, os  “pragmáticos”  parecem estar à beira do triunfo sobre os “dogmáticos”, trata-se até agora de  essencialmente abrandar o ritmo da catástrofe. A moderada linha austeritária de François Hollande está, portanto, preparada para prevalecer sobre o fundamentalismo do governo alemão, mesmo que o primeiro seja muito menos popular do que o segundo.

A evolução relativamente previsível no sentido de mitigar as políticas contraccionistas está ligada, em grande parte, à dinâmica da crise política, que por sua vez alimenta o clima de desconfiança económica, a atonia do consumo e do investimento assim como  o pessimismo sobre o futuro. Podem ser identificados rapidamente uma série de consequências, de intensidade variável, do aumento do desemprego, da precariedade e da dinâmica económica e social em curso, em primeiro lugar nos espaços políticos nacionais.

A crise teve por efeito o fragilizar os governos  na maioria dos países europeus. A queda da sua popularidade é uma primeira demonstração palpável e evidente. Esta deu origem, portanto, em muitos países, [7] a alterações da maioria, rapidamente seguido por uma  acentuação   – ou simplesmente de uma continuação – nas políticas de austeridade e numa deterioração da confiança nas  novas equipas governamentais simplesmente. Este movimento foi muito pronunciado em França: em menos de um ano após a sua eleição, François Hollande escolheu a continuidade em matéria macroeconómica, e enfrenta agora um colapso do seu apoio popular, num contexto particularmente pernicioso.

Uma segunda consequência, observada por agora  em alguns dos países mais fortemente sujeitos a políticas de austeridade foi – durante um certo  tempo – a ascensão   dos «peritos», económicos em particular dos actores das  instituições vindos das instituições da ‘Troika’ (BCE, FMI, Comissão Europeia). Eles são impostos contra as elites tradicionais desacreditadas no seio dos espaços políticos nacionais. Viu-se em Itália, com a chegada ao poder de Mario Monti e na Grécia, com Lucas Papademos, antigo vice-presidente do BCE. Mas uma vez o seu crédito particular ligado à sua  exterioridade, largamente iniciado  pela sua exposição política, esses actores “virgens” sofrem, por sua vez, um  descrédito acelerado que caracteriza  os executivos austeritários. Assim, a operação de branqueamento simbólico da austeridade não dura muito tempo, muitas vezes o tempo de um fogacho.

As consequências eleitorais da crise vão para além dos movimentos de alternância e, em muitos casos, resultam numa  reconfiguração da oferta política e das relações de  força estruturais . A Grécia e a Itália são os mais óbvios processos, com o desenvolvimento da esquerda radical (Syriza) e do extrema-direita (Laos) no primeiro caso e na Itália  o movimento de 5 estrelas, mais difícil de  caracterizar ideologicamente, no segundo. A dimensão  do fenómeno é importante nos dois casos, embora seja muito cedo para se ver uma mudança sustentável nos equilíbrios das  políticas nacionais.

Em França, as barragens construídas sobre o longo prazo  (e na dor), entre a direita e a extrema-direita hoje são altamente afectadas pela  mobilização contra o casamento para  todos, que também produziu  novas figuras militantes. Uma forma de Tea Party  emerge assim à direita no espectro político tornando incertas as recomposições e orientações futuras da UMP e da  FN,   ambas  em condições de  poderem  beneficiar directamente do colapso previsível do Partido Socialista.

Outro elemento desta dinâmica, à primeira  vista  confuso, é a multiplicação de formas de conflitos políticos  que se alimentam da fraca  legitimidade dos Executivos. A radicalização verbal da oposição é muito clara no caso francês e muito particularmente pela parte dos activistas, dos militantes e de uma parte dos quadros partidários. Este aumento da violência verbal pode dar origem, em particular na Grécia, ao concomitante aumento da violência física.

A crise institucional, que assume  tantas formas como há  de quadros  constitucionais e de tradições políticas, é uma outra possível consequência da instabilidade dos campos políticos e o aparecimento  duma contestação  mais radical das políticas austeritárias . A inadaptação  das instituições mostrou-se evidente na Itália, onde a formação de um governo pela simples maioria parlamentar parecia impossível. Na França, a conjunção de um executivo muito enfraquecido e a manutenção do quadro, centralizado e personalizado da v República exacerbou as tensões com a oposição e com as forças menos bem representados do Parlamento. Em Espanha, são os equilíbrios federais  que são postos em causa.

Finalmente, a contestação das elites políticas  ultrapassa muito largamente  o âmbito das estruturas representativas. São as novas formas de luta política que se  afirmam  na rua, na Internet, especialmente ao redor das  ‘fobias’  mobilizadoras da direita: homofobia, xenofobia, etc. A crise colocou à prova todas as instituições nacionais e europeias. A recusa do Parlamento em aprovar o quadro financeiro plurianual saído do Conselho Europeu de Fevereiro é a manifestação do impasse institucional que caracteriza, é verdade e isso desde há anos, a construção europeia e que torna mais difícil de interpretar as orientações dos diferentes actores políticos.

O enfraquecimento da legitimidade desta construção na maioria dos países contribui para tornar  ainda mais complexa a dinâmica da crise política que interage com as medidas de austeridade. Porque o projecto comunitário estruturou os espaços políticos nacionais e sua evolução claramente austeritária  desde 2010 perturba e fortemente os quadros de identificação à  Europa.

A estratégia orçamental conduzida pelo BCE, pelo  governo alemão e pela Comissão leva não só ao rápido declínio da confiança nas instituições europeias, o que já foi muitas vezes  apontado, mas também a uma recomposição nas relações à  Europa, que têm sido sempre mais turva e menos determinada  do que se pensa com os  relatórios Eurobarómetro.

Agora, os conceitos de federalismo, de integração e de coesão assumem significados  profundamente ambíguos no espaço europeu e nos contextos nacionais. A integração, quando é reduzida à submissão dos objectivos orçamentais tornados manifestamente mortíferos  torna-se um mecanismo central no  aprofundamento da crise. Por essa mesma razão,  promove a renacionalização gradual dos  espaços políticos.

A divisão entre a Europa do Norte, com os seus excedentes   comerciais  e o seu ‘rigor’ bem colocado em evidência,   e a Europa do Sul, com os défices orçamentais  e  com o seu maior  endividamento externo , tornou-se assim um falhanço político , colocado no coração da construção europeia. Esta divisão põe  em causa a existência sustentável do euro numa zona também claramente muito pouco coerente. Ela alimenta-se do ressentimento nacional de todos os tipos, na ausência de uma visão comum de solidariedade.

Agora é muito difícil   pretender  antecipar, mesmo a curto prazo, as  dinâmicas  que parecem fugir a toda a  modelagem simples. Se a previsão macroeconómica se revela uma arte  particularmente difícil, que   dizer da  arte que é a da previsão política , confrontada com de sistemas de forças multi-dimensionais  ?

A única previsão razoável hoje é talvez a que liga  a intensidade da crise política futura à da  marcha forçada austeritária. Se esta se torna mais relaxada , pode-se imaginar que a crise tenha acalmado  um pouco e que possam emergir actores e coligações mais estáveis. Mas a orientação global do ajustamento estrutural, que permanece de  momento inalterada,  implica, sem dúvida,  uma continuação e um reforço das tendências, elas mesmo estruturais, acima descritas.

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NOTAS

[1]  Para uma análise clássica das crises políticas, poderá reler-se com proveito:Michel Dobry, Sociologie des crises politiques, Presses de la FNSP, Paris, 1ª edição, 1986.

[2]  http://www.lepoint.fr/politique/popularite-la-chute-de-hollande-n-en-finit-plus

[3]  http://www.lemonde.fr/idees/visuel/2013/04/18/la-radicalisation-s-enracine-t-elle-a-droite

[4]  http://www.lesechos.fr/comment-thomas-herndon-28-ans-a-mis-a-jour-les-failles-de-l-etude-rogoff-reinhart

[5]  Louis Gallois até à data foi o último dos membros (inamovíveis) da élite dirigente francesa a condenar os efeitos negativos da austeridade: http://lexpansion.lexpress.fr/le-plaidoyer-de-louis-gallois-contre-l-austerite-et-pour-la-relance-en-europe

[6]  http://lexpansion.lexpress.fr/vu-de-bruxelles-l-austerite-n-est-plus-la-panacee

[7]  Nicolas Sarkozy foi assim apresentado como « le onzième dirigeant » a ser vítima dos efeitos da  crise…

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