OS TRABALHOS DE REINHART E DE ROGOFF (R&R) EM DEFESA DAS POLÍTICAS PRÓ-AUSTERIDADE ESTÃO AGORA AINDA MAIS DESMASCARADOS ATRAVÉS DE VÁRIOS OUTROS ESTUDOS ACADÉMICOS. Por Júlio Marques Mota.

Parte I 

Dedico este trabalho a todos os estudantes que me aturaram ao longo de mais de três décadas da minha vida profissional em que me quis continuamente  formar na difícil arte de estudar, no difícil trabalho de pedagogicamente  aprender para  depois poder criticamente ensinar.   

  1. Introdução

Hoje, sexta-feira a seguir ao almoço tenho que levar a minha neta ao piano e ao canto. Irrito-me porque ela demorou a despachar-se, obrigando-nos a ir de táxi. A estação de táxis é perto de minha casa. Apanho um. O motorista amável pergunta-me se há algum problema com a menina. Porquê? pergunto. Parece-me que vinha ali dos lados do hospital.  Não, não vinha, respondi.

Para onde quer ir? Disse-me. Ouve-me e pede, pode-me indicar o caminho por onde quer ir. Ando nisto há muito pouco tempo, ainda não tenho o mapa da cidade nos olhos, na cabeça. Pelo iPad a esta hora de ponta com mudanças sucessivas é mais aborrecido. Posso, sim senhor. E indiquei-lhe o caminho. Entretanto perguntei-lhe: sem querer ser muito indiscreto uma vez que anda neste serviço há apenas alguns dias, pode-me dizer então de onde veio. Ah, sabe. Trabalhava numa empresa de transformação da alimentação dos carros em combustível, na aplicação de sistemas GPL. Saiu, porquê, então? Se é que posso saber, claro. A resposta foi imediata e em que as palavras pareciam estar a rumar e a ganhar uma força que de outra maneira não teriam. Sabe, a crise destrói tudo. Há vantagem em usar o sistema GPL mas, a sua aplicação custa dinheiro. Corresponde a um investimento e as pessoas não têm dinheiro para investir, para pouparem. Gastar para poupar, mas não há dinheiro para gastar e a empresa fechou. Saí, como tanta gente sai da função pública, das muitas fábricas que fecham, saí como muita gente sai das lojas que agora nada ou quase nada vendem, disse.  Fiquei sem emprego e estou aqui enquanto não encontro melhor, o que agora é difícil.

Calei-me, lembrei-me da história de Isabel K que publicámos no blog, lembrei-me  do seu exemplo da compra de leite, era preciso comprar 3 pacotes de leite para ter direito a um desconto em cartão. Teria direito ao desconto só no caso de ter dinheiro para os três pacotes e, assim até para se viver como pobre é preciso ter-se dinheiro. Como agora o taxista me chamava a atenção. O dinheiro hoje é raro, a segurança é nula, a necessidade de poupar é tal (a atingir o limite), a necessidade da transformação do carro para o sistema GPL teria aumentado, mas a falta de dinheiro para pagar a   transformação leva a que a opção seja outra: utilizar ao mínimo possível a sua viatura.

A conversa desenrolava-se como as cerejas. Deixo as minhas lembranças de pesadelo e digo, tudo isto é um pesadelo. Imagine-se amanhã é dia da criança, num tempo onde há agora já tanto menino e tanta menina, que crianças já não podem ser. E continuo: sabe, o pior ainda está para vir. Estão a dar cabo do presente do nosso país, mas mais grave ainda, estão a comprometer e a destruir o futuro e, nesse futuro, pela minha idade, já não estou incluído, mas tenho o direito e o dever de agora lutar por ele. Repare só, as crianças de hoje que sofrem graves deficiências alimentares (e quantos milhares estarão nessas condições), pelo seu desenvolvimento e construção neurológico nunca mais serão adultos normais no sentido que a esta expressão damos. Como, perguntou. Sabe em tempos li um estudo americano, O Custo de Nada Fazer, que face ao crime civilizacional em curso me deu a perceber que tudo isto é hediondo, que os custos no futuro são já incalculáveis. Ao publicar esse texto para os nossos estudantes dizíamos:

[Passamos] em seguida a analisar na mais rica economia do mundo o significado económico de uma criança cair numa situação de pobreza, passamos a analisar, por consequência, os custos económicos da crise vistos agora nas marcas a deixar no futuro por cada criança que é afundada numa situação de pobreza, enquanto criança, hoje. E a análise tem tanto de sério como de assustador, sobretudo face às medidas que se anunciam de se privilegiar exclusivamente o presente como se as sociedades deixem de ter horizonte temporal. Que se fechem escolas, porque têm poucos estudantes! Que se fechem estações de correio, porque têm pouca gente! Que se reduzam os internamentos hospitalares, para que se reduza os riscos de infecções! Que se aumentem o número de alunos por turma, para que se aumente o rendimento por unidade de custo! Que se aumente o tempo de permanência na vida activa, porque o trabalho dá saúde! Que se reduzam os mecanismos de protecção social, porque a crise já passou! Que se aumente a precariedade, porque a necessidade aguça o engenho! Tudo, mas tudo, converge para um fim que é o de reduzir a função do Estado quer como regulador, quer como agente activo, quer ainda como agente redistribuidor. Ora o estudo que aí iremos publicar mostra o percurso inverso, mostra que se não queremos defraudar o futuro, as gerações futuras, temos que nelas investir e bem no presente. O custo futuro da pobreza é aí analisado com rigor, a mostrar que o caminho a seguir tem que ser o inverso daquele que agora nos querem impor, porque os neoliberais de todos os quadrantes descobrem agora que o crescimento depende do equilíbrio orçamental, que com as receitas a diminuir relativamente ao rendimento possível, o mesmo é dizer com as despesas sociais relativamente a diminuírem, haverá mais crescimento, mais emprego. Mas esta sequência levará inexoravelmente muitas crianças para a situação de pobreza e é para alertar contra essa filosofia que o texto é publicado, mostrando os pesados custos no futuro contra os fracos ganhos no presente de um qualquer governo e de um qualquer orçamento equilibrado. É por esta razão que neste contexto se analisa a situação de pobreza na infância, quando esta é também a característica do trabalho infantil que agora está em discussão.

E o taxista espantado perguntou-me onde é que poderia ler esse texto. Disse-lhe que o teria disponível, deu-me o seu número de telefone, pediu-me o meu, e combinámos que dentro de dois dias no máximo lhe daria o texto. Disse-lhe que não sabia se o tinha todo traduzido ou, se apenas estaria parte em português  e a outra parte estaria ainda em inglês. Não faz mal, respondeu.  Olhei então  para o taxista com respeito mas com um outro olhar e fiquei com a noção que  estaria perante alguém que operário não teria sido mas quadro técnico talvez  e que a crise o teria projectado para um plano inclinado onde apesar disso ainda encontrava forças para ajudar os outros, nos tempos em  que os comportamentos de dádiva são cada vez mais importantes e necessários, para não dizer imprescindíveis.

No final da tarde, depois das aulas, chego a casa, vejo o E-mail. Neste vejo links que me são enviados com textos sobre o caso R&R, os grandes teóricos das políticas de austeridade e lembro-me imediatamente do meu taxista, lembro-me de Isabelle K. lembro-me da minha amiga francesa, com dores entre as pernas, com as tripas a revoltarem-se, com o peito apertado de ansiedade, com muitas noites de  insónias e com dores de cabeça por falta de sono, lembro-me desta mulher distinta  que no fundo deste país que queria como  pátria queria que o seu companheiro lhe desse um filho sem viver em precariedade, como o vivem agora centenas de  milhares de mulheres,   lembrei-me do meu amigo João de algures que de desempregado que é, não  sabe onde estar nem o que há-de fazer ao tempo por ter falta de fazer e lembrei-me… lembrei-me dolorosamente do jovem entre os 35 e os 45 anos que na Cova da Piedade, a duzentos metros da casa onde viveu e cresceu  Durão Barroso, que imediatamente larguei um carrinho de ir às compras  veio pegar-lhe e levá-lo, mal eu tinha virado as costas. Tão rápido a cena se deu que eu estaria a 5 metros do sítio onde coloquei o carrinho e o que me incomodou ainda mais foi o seu sorriso de felicidade por ter apanhado um bocado de metal, por ter a certeza de que ganhou alguma coisa com que poderá matar a fome a alguém que dele depende, dele que nada tem, certamente.

Lembro-me de tudo isto e tenho à minha frente um texto sobre Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff  e decido então “atacar” os textos que me foram enviados sobre a mais monstruosa manipulação do século XXI, aquela que terá caído nas boas graças do Ministro das Finanças de Portugal. Naturalmente, de um homem que se engana em tudo, e porque assim é, porque não há-de apoiar um texto, o de R&R, que fizeram do engano a sua intenção? Trata-se de homens incapazes de pensar, um milésimo de segundo sequer, sobre o custo de nada fazer, e nada fazer na resposta à crise, o não às políticas de austeridade, têm então o lema dos  três economistas agora citados.

(continua)

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