OS TRABALHOS DE REINHART E DE ROGOFF (R&R) EM DEFESA DAS POLÍTICAS PRÓ-AUSTERIDADE ESTÃO AGORA AINDA MAIS DESMASCARADOS ATRAVÉS DE VÁRIOS OUTROS ESTUDOS ACADÉMICOS. Por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte II
(continuação)

2. O desmascaramento de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff continua.

Os economistas de Harvard têm argumentado que os erros e omissões nos seus influentes trabalhos de investigação sobre a dívida pública e o crescimento económico não mudam a sua conclusão final quanto à austeridade: que muita dívida prejudica o crescimento.

Mas mesmo essa afirmação foi também agora desmentida por dois novos estudos, que sugerem que o oposto pode ser verdadeiro: o crescimento lento leva a uma maior dívida, e não o contrário.

Num texto colocado no site Quartz, o professor de economia Miles Kimball da Universidade de Michigan, e o estudante de uma pós-graduação Yichuan Wang da mesma Universidade escreveram que eles analisaram ao pormenor os dados de R&R e não encontraram “nem mesmo um fragmento de evidência” de que os níveis elevados de dívida provocam um mais lento crescimento económico.

E um novo trabalho escrito pelo professor Arindrajit Dube da Universidade de Massachusetts mostra claramente que R&R tinham a relação entre a dívida pública e o crescimento trocada: um crescimento lento aparece como uma causa para uma maior dívida. Por outras palavras, se alguma relação se pode concluir, é então esta.

Como se pode ver no gráfico do trabalho de Dube abaixo reproduzido, o crescimento tende a ser mais lento nos 5 anos antes de os países virem a ter elevados níveis relativos da dívida pública.

Rogofftrabalhos - I

Nos 5 anos após terem níveis de endividamento elevado, não há na verdade nenhuma diferença notável no crescimento, e certamente não há a nível 90% dívida / PIB, o contrário portanto do que R&R quiseram demonstrar no seu vergonhoso texto de 2010. Kimball e Wang apresentam resultados semelhantes num trabalho apresentado no blog Quatz. A história continua abaixo do gráfico e desenvolvida com excertos destes dois investigadores.

Isto contradiz a conclusão de R&R apresentada no seu trabalho de 2010, “Growth in a Time of Debt,” que tem sido usado para justificar programas de austeridade em todo o mundo e em muitos outros textos, em debates e em testemunhos no Congresso ao longo dos anos. R&R advertiram que a dívida alta retarda o crescimento, tornando-se um enorme problema a tratar imediatamente. Os custos humanos desse erro tem sido enormes.

Sobre a importância do trabalho de R&R nos políticos e nas políticas de hoje, um exemplo:

O Senador Kent Conrad, Presidente do Budget Comittee do Senado americano, disse que os nossos actuais défices são muito graves porque tivemos receitas muito baixas devido a uma economia lenta, uma economia em recessão, combinada com despesas públicas muito elevadas. Ele então explicou a sua severa advertência pessoal para o conjunto dos senadores. Virando-se na sua cadeira no meio da sala, ele explicou aos seus colegas que quando o nosso fardo da dívida é alto leva a que a nossa economia esteja a abrandar 1 ponto percentual (1 p.p.) do PIB, de acordo com as estimativas de R&R, o que para a nossa economia que cresce apenas a 3 ou 4% ano, isto significa 25 a 33% da taxa de crescimento que desaparece anualmente. O senador a defender em toda a linha a argumentação de  Reinhart e Rogoff,  não na Universidade mas num importante centro de decisão, o Congresso americano.

Kent Conrad Kent Conrad foi definitivamente influenciado por R&R. AP Photo/Charles Dharapak.

Mesmo depois do estudante Thomas Herndon em fase de preparação do seu doutoramento na Universidade de Massachusetts ter constatado que o trabalho de R&R tinha uma série de erros e que ao texto destes autores faltavam dados importantes, os dois investigadores mantêm a sua conclusão final: que o crescimento cai significativamente depois da dívida atingir 90% do PIB. Eles pretendem que os adversários de austeridade como Paul Krugman tem sido assim muitíssimo duros para com eles e sem nenhuma boa razão ou argumento, é o que afirmam.

Ao mesmo tempo, eles tentam agora distanciar-se um pouco do problema da galinha e do ovo, ou seja se é a dívida que provoca um crescimento lento, ou vice-versa. “A questão de fronteira para a investigação científica é a questão da causalidade”, escreveram na sua longa peça publicada pelo New York Times como resposta a Herndon.

Parece-nos que estão deveras atrasados, pois deveriam ter pensado um pouco mais sobre essa questão de fronteira há três anos atrás e não agora.

(continua)

Leave a Reply