A RECEPÇÃO LITERÁRIA DE MIGUEL ANGEL ASTURIAS EM PORTUGAL – II – por Manuel G. Simões

Depois de “Lendas da Guatemala”, e dando seguimento ao projecto de publicação das obras do escritor guatemalteco, a Dom Quixote publicou “O Senhor Presidente” logo no ano sucessivo (1968), com tradução de Pedro Lopes de Azevedo. Foi o texto que acabou por obter maior sucesso de público se considerarmos que do mesmo saiu uma segunda edição em 1974 e que, nesse preciso ano, apareceu também uma edição paralela, obra do mesmo tradutor, publicada pelo Círculo de Leitores.

Independentemente do fascínio do romance, susceptível de influir nas complexas leis de mercado, é possível que o grande êxito de “O Senhor Presidente” se tenha devido ao facto de se tratar de uma obra considerada pela crítica como um “romance político”, e à tendência, já sublinhada por José María Souvirón, para estabelecer analogias entre figuras dos romances sul-americanos e personagens europeus.

Ainda em 1968, a Dom Quixote lança um outro título de Asturias: “Fim-de-semana na Guatemala”, com tradução de Maria Manuela Ferreira. E em 1969 tem lugar a publicação, pela mesma editora, de “O Espelho de Lida Sal”, colectânea de contos traduzidos por Pedro da Silveira. Alargava-se assim o conhecimento, em língua portuguesa, de um dos maiores escritores do século XX.

Decorreram dez anos e só em 1979 a editora Dom Quixote parece continuar o seu programa de dar a conhecer, em Portugal, a obra narrativa de Asturias. E cumpre esta tarefa logo com dois títulos: “O Papa Verde” e “O Furacão”, ambos traduzidos por Pedro da Silveira. Esta editora, porém, não completou o que terá sido o seu projecto inicial, visto que, no ano seguinte (1980), foi Edições 70 a responsável pela publicação de “Homens de Milho”, com tradução de Maria da Graça Lima Gomes, inserindo o romance na sua colecção “Vozes da América Latina”, que acabou por incluir obras de Juan Rulfo, Miguel Otero Silva, Augusto Roa Bastos, Juan Carlos Onetti e Alejo Carpentier, entre outros.

Imagem3Reportando-me agora às traduções que veicularam os textos de Miguel Angel Asturias, deve dizer-se que se trata de um “corpus” de extrema riqueza expressiva, caracterizado pela grande variedade de registos linguísticos que convocam, contínua e insistentemente, materiais primigénios de árdua descodificação. Dos quatro tradutores, pode referir-se que é Pedro da Silveira o mais atento à expressão literária, embora as suas traduções (e em maior grau as dos restantes) não estejam isentas de um curioso processo de tranformação que já tive oportunidade de definir como o “complexo do tradutor” e que consiste na transposição transversal e desviante, com menosprezo pelos nexos fónicos e rítmicos, subvertendo assim os processos estilísticos do texto de partida. Apenas alguns exemplos: “calles contiguas”/ “ruas adjacentes” ou “claridad de vino viejo”/ “nitidez de vinho velho” (“Lendas da Guatemala”). Este desvio deve-se, provavelmente, à intenção de evitar o decalque, sem considerar, porém, que se procede, por vezes, a uma alteração semântica.

Mas é talvez “Homens de Milho” o texto mais exposto a transformações deste tipo e com consequências mais profundas. Além disso, não é fornecida ao leitor qualquer informação sobre a função alegórica de “maíz” (“milho”), elemento importantíssimo, banalizado logo no título, tanto mais que há no texto referências ao “maiz divino”, do qual, segundo a mitologia indígena, teria sido feito o primeiro homem. O romance é, como as restantes obras de Asturias, um texto de grande complexidade, mas teria sido possível efectuar um trabalho mais perfeito, se outra tivesse sido a consciência dos problemas e dos meios técnicos para os atenuar.

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