ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS – (FIALHO – 1) – por Carlos Loures

Esta biografia constitui uma adaptação da que foi publicada no site Vidas Lusófonas

Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida rumou a Lisboa a ideiaImagem2 da família era dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequentou os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntaram ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora iria ser, segundo ele, a sua independência e a sua força.

Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial […] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço […] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde […] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar. […] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo […] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos […] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.» (1)

 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estavam a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas iriam ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, viu-se obrigado a abandonar o colégio. Tinha 15 anos e arranjou uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí viveu sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»

Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, conseguiu concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura – os livros foram como que uma fuga à pobre realidade que lhe foi dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, até terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»

(Continua)

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