A CANETA MÁGICA – Portuguesadas, espanholices e falsos amigos– por Carlos Loures

«Em Portugal temos um barco tão grande que o cozinheiro para mexer a sopa, não usa uma colher, mas sim um submarino!» – assim acaba uma anedota em que um português e um «espanhol» se vão mutuamente aldrabando com exageros sobre a grandeza de cada povo. Acontece, sobretudo nos estados com fronteiras comuns, como é o caso da República Portuguesa com o Reino de Espanha, ou o da República Francesa com o Reino Unido, ainda que hoje em dia vivam em paz, mas que tiveram ao longo da História numerosas guerras e conflitos,  acontece que esses problemas passados ecoem em picardias e se extravasem quando dos jogos de futebol ou de rugby, no caso de francos e anglos. Só uma das guerras entre França e Inglaterra durou cem anos. Os confrontos entre portugueses e castelhanos foram também numerosos e prolongados alguns deles. Tudo isto deixa marcas que se manifestam em pícaras alfinetadas, anedotas, aforismos, expressões. Não vou fazer uma análise exaustiva a esse repositório , mas darei apenas um exemplo: para os castelhanos usa-se muito o termo «portuguesito» no sentido pejorativo, como se sendo o país pequeno, todos fossemos apequenados, física e intelectualmente, pela pequena dimensão territorial. Lógica segundo a qual um luxemburguês nunca poderia ser mais alto do que um russo nem ser o seu QI superior ao de um chinês.

Há uma coincidência engraçada. Experimentem abrir um dicionário espanhol em «Portuguesada», Vou consultar o da Real Academia. Cá está: «portuguesada, f. Dicho o hecho en que se exagera la importancia de una cosa».(“Diccionario de la lengua española”, p.1645). Vejamos agora no “Grande Dicionário da Língua Portuguesa”, de José Pedro Machado, o termo «Espanholada». Na minha edição, está na página 670 do volume II: «Espanholada, s.f. Dito próprio de espanhol; fanfarronada; hipérbole». Com o mesmo significado, temos também o vocábulo Espanholice. Interessante como mutuamente nos atribuímos o hábito de exagerar. Uma atracção pela hipérbole que, provavelmente, afecta portugueses e castelhanos (os catalães são demasiado rigorosos para se atreverem a exagerar). Entre ingleses e franceses existem as mesmas amabilidades. Vou apenas referir um caso – sinónimo popular para preservativo. Os franceses chamam-lhe capote anglaise; os ingleses usam a expressão french letter.

Cantar de Mio Cid ou Os Lusíadas, mais não serão do que expressões geniais desse vício que, portugueses e castelhanos, atribuímos ao vizinho, mas que de algum modo todos padecemos. Conta o nosso Fernando Correia da Silva como, numa primeira viagem a Madrid, perguntou onde ficava a Puerta del Sol a uma transeunte ou vendedeira – resposta «Pues está usted en la Puerta del Sol, en el centro del mundo!»

E para complicar as relações entre vizinhos, há aquilo a que em linguística se designa por «falsos amigos», fenómeno muito frequente entre línguas com origem comum em que a mesma palavra assume com o uso, em países diferentes, significados diferentes. Lembro-me de uma discussão amistosa entre o meu pai e um madrileno, penso que ligado ao movimento escotista, clandestino em Espanha. Manhã de domingo, nos anos 40 (44, 45…). Eu era muito pequeno e estávamos junto do antigo “Café Suísso”, no actual Largo D. João da Cãmara. Lembro-me que havia um tapume a rodear o prédio semi-demolido. Em frente, o obelisco dos Restauradores e a perspectiva da Avenida. O meu pai afirmava que a Avenida da Liberdade era a mais larga da Península. Muito polido, imbuído do espírito escotista e não querendo desmentir abertamente um pai em frente do filho, dizia «La más larga? Noooo!» – e prolongava a negativa com um sorriso. Só anos depois compreendi que o qui pro quo tinha a ver com os múltiplos falsos amigos existentes entre o português e o castelhano. Largo,  em castelhano, significa comprido. Simone de Oliveira, José Carlos Ary dos Santos, Nuno Nazareth Fernandes e a comitiva portuguesa enviada ao Festival Eurovisão da Canção de 1969, realizado num teatro de Madrid, não terão compreendido os risos com que a palavra “desfolhada” (desfollada) era acolhida.

No entanto, mais grave do que as portuguesadas, as espanholices, são a sobrevivência no presente de erros do passado – o sistemático esforço de castelhanização da Catalunha, da Galiza, do País Basco, a ocupação ilegal de Olivença, de Ceuta e Melilha. As «espanholadas» não são um simples “chiste” – reflectem-se no relacionamento do reino com os vizinhos. Se Espanha se reduzisse à sua dimensão e não se prolongasse com tiranias e roubos territoriais, bem nos podíamos rir com chistes e anedotas, exageros e falsos amigos. Infelizmente não é assim.

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