Um Café na Internet
Ó Zé Dias Coelho! Ouço-me a falar contigo como se ainda fosses vivo… Tento esquecer mas não consigo. Numa rua do bairro de Alcântara foste assassinado por um agente da PIDE, dois tiros nas costas.
Sei que em 1939 o Colégio Académico (onde estudavas), fez a sua habitual mostra de trabalhos dos alunos. O SÉCULO escreveu: “… de entre os desenhos, destaca-se a exposição de caricaturas do aluno Dias Coelho.” Terias apenas uns 16 anos…
Habilidade é contigo, não só com as mãos mas também com os pés, invulgar domínio de bola. Não te apeteceu, ó Zé, mas poderias ter sido um futebolista famoso…
Para além das nossas conversas no Café Chiado, em Lisboa, acabámos por viver perto um do outro, pois eu, com os meus pais, passei a morar no bairro de Campo de Ourique, no mesmo prédio em que residia o Prof. Bento de Jesus Caraça. Dois edifícios geminados, o teu e o meu, no final da Rua Almeida e Sousa, frente à Rua Azedo Gneco… Lembras-te Zé?
Em 1948, quando o Prof. Caraça morreu com um ataque cardíaco, bem te vi, com outros militantes do MUD, a organizar o imenso cortejo fúnebre rumo ao Cemitério dos Prazeres. O meu pai, na varanda do 2.º andar, filmava tudo. Fez depois uma cópia do filme para a Cândida, a viúva do Caraça. E outra para ti. Não, não, o meu pai não era comunista, era apenas um republicano, um democrata. Tanto bastava para que muito o considerasses porque, embora fosses do PCP, o teu objetivo primeiro era o antifascismo.

