SOBRE A SAÍDA DE PORTUGAL DA ZONA EURO, por JÚLIO MARQUES MOTA

Sobre a hipótese de Portugal sair da zona  euro, um  amigo meu eurodeputado escreveu-me uma nota  de que aqui reproduzo alguns excertos:

“Para clarificar a discussão, o que é necessário a  Portugal para que ele possa ter uma posição igual à  Reino Unido? Uma derrogação especial, dizem-nos. Não há nenhuma outra maneira. Os  nossos amigos que estão a defender a saída de Portugal da zona euro, dizem-nos: ‘nós devemos negocia-la.’. Mas para além desta negociação, é necessário que esta seja depois inscrita nos Tratados, obviamente a exigir que seja ratificada por todos os parlamentos nacionais (e, quem sabe, por um referendo na Irlanda!). Isto leva meses ou mesmo anos, mas o problema não é apenas esse. As possibilidades de  sucesso são muito poucas , porque nós iremos sempre depender em parte de um pequeno partido, na Finlândia na Eslováquia ou algures, o que impediria no seu país, a formação de uma maioria parlamentar para nos conceder  a nossa derrogação especial. “

Mas o problema não é ainda bem este mesmo o que acabo de expor! Devemos tentar colocarmos-nos no lugar dos outros países  e perceber que, se nos dão  uma derrogação especial,  a Portugal,  outros irão fazer imediatamente o mesmo pedido, exactamente o mesmo pedido,  como pode ainda haver outros que querem outras derrogações  também sobre outros temas (a França e a Holanda não se preocuparão  em ter uma isenção especial relativamente à liberdade de circulação, é claro). A resposta a uma derrogação especial seria, portanto, em 99% dos casos: “Desculpe, mas não estamos em condições de iniciar este processo”. Portanto, uma recusa absoluta, a  de uma saída amigável.

Em suma: a única maneira de sair do euro que depende estritamente de nós – na verdade, a única maneira de sair do euro, que funciona no estado actual dos tratados – é a saída da União Europeia, com tudo que isto implica. E sem dizer isso aos portugueses, o debate sobre a saída do euro é provável que seja apenas uma ilusão. »

Uma situação equivalente encontra-se expressa no texto de  André-Jacques Holbecq, já publicado no nosso blog:

« O aspecto legal de uma saída ou de uma transformação do euro permanece, no entanto, de uma complexidade assustadora e tudo foi feito, desde Maastricht, para que assim seja! Os tratados não permitem que se permaneça  na UE, ao deixar  a moeda única. Portanto, há apenas  três soluções: usar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que permite iniciar um processo de saída da UE (o processo de saída pode ter a duração de  dois anos  ); apoiar-se na Convenção de Viena  que considera que um Estado tem sempre o direito de denunciar um Tratado, no todo ou em parte, em  qualquer momento e por qualquer motivo (menos de três meses para iniciar  a saída);  a “desobediência”, em razão da soberania nacional, na sequência de uma eleição importante e modificando a  Constituição para voltar a dar a primazia à lei nacional sobre os tratados europeus (Jean-Luc Mélenchon pede um monetarização directa do Banco de França, obviamente, “fora da lei” no estado actual dos tratados). É necessário esperar  que os dirigentes novamente eleitos irão reconhecer que a nossa moeda única está a laminar os povos da zona euro , incluindo a Alemanha, e que estes irão pôr  em causa os dogmas que estão na  origem da sua criação,  antes que seja tarde demais e antes que os ódios se comecem a exprimir.

André-Jacques Holbecq, La monnaie commune, contre l’éclatement de la zone euro, Janeiro de   2012, disponível em :

https://postjorion.wordpress.com/2012/10/19/258-holbecq-eviter-leclatement-de-la-zone-euro/   «

Em linhas gerais,  creio que as duas posições, a do nosso eurodeputado e a de André-Jacques Holbecq,  serão  bem similares  com a diferença que nosso amigo deputado  recusa a saída unilateral, porque, se fizermos essa saída, será então saber o que é que  economicamente  iremos fazer dada  a posição de sermos um pequeno país, sem nenhuma  vantagem comparativa especial excepto a de poder vender a luz do sol, mas mesmo nesse caso, vendê-la a quem, neste tempo de crise?

Sozinhos,  no mercado mundial nós seríamos  rapidamente esmagados na selva deste mercado mundializado,  considerado este mercado na lógica da UE  um  mercado concorrencial, considerado à americana, um mercado  de level playing field, o  que é absolutamente falso e tudo isto perante um mercado mundial onde a OMC  não protege os mais fracos, os menos  fortes globalmente e sem que saiba exactamente o que  se deve entender por verdadeira concorrência. Concorrência não falseada, digam-me onde é que ela está.  E se nós recusamos a saída da zona euro, ou porque  a saída enquadrada e apoiada  pela UE deve  considerada impossível, ou porque a moeda comum em paralelo com as diversas nacionais repostas é também impossível que seja criada  nestas circunstâncias e com estes dirigentes , e se a saída unilateral é também considerada política, económica e socialmente um suicídio nacional  que resta então a um pequeno país como Portugal fazer para não ser esmagado nesta  lógica absurda de novos planos de austeridade sobre  outros planos de austeridade aplicados e já falhados, e evitar assim continuar  até a morte de um povo, a aplicar a austeridade que, essa, está bem  inscrita nos tratados da UE, aprovados pelos parlamentos nacionais? O que fazer, portanto e a pergunta não tem nada a ver com Lenine, excepto na forma?

Mas Holbecq, pelo seu  lado acrescenta  :

« É necessário esperar  que os dirigentes novamente eleitos irão reconhecer que a nossa moeda única está a laminar os povos da zona euro , incluindo a Alemanha, e que estes irão pôr  em causa os dogmas que estão na  origem da sua criação,  antes que seja tarde demais e antes que os ódios se comecem a exprimir. »

Mas, já vimos com o exemplo da França, em que os deputados do PS francês puseram-se de acordo sobre os novos tratados e contra o que diziam antes das eleições sobre os mesmos e, em seguida, votaram o Tratado elaborado por Sarkozy-Merkel! Esperar, ter esperança, esperar pois o quê e quando, seria a pergunta a ser colocada a  Holbecq, esperar  a mudança de ideias na cabeça desses nossos eleitos? Destes eleitos, que mudam de opinião quando chegam ao poder como o fez François Hollande ? Esperar e realizar o longo caminho para conseguir convencer os novos eleitos ,  esperar esses eleitos que não se vergarão à imperial Merkel, a Jens Weidmann, aos  Draghi,  aos Monti,  de todos os quadrantes,  aos Leopardos de Lampedusa  como o mostra ser Constâncio e, por fim, aos  Goldman Sachs do mundo inteiro? Não é possível, a menos que se esteja  disposto a esperar até o infinito, ou seja, até a morte de um povo, do nosso próprio povo, porque cada dia que passa nós ficamos mais pobres em património, em capacidade produtiva, porque vendidos em saldo e ao desbarato ao mundo inteiro,  e cada vez mais endividados, ainda.

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que se recusa viver em autarcia como um país pequeno que somos,  uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, tendo em conta este conjunto a ignorância, a ganância e a maldade destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal.

Desejam-se, esperam-se respostas à nossa pergunta.

Júlio Marques Mota

1 Comment

  1. Não só Portugal, mas a Itália, a Grécia (sobretudo), Chipre, o reino bourbónico… Penso que não estaríamos pior do que vamos estando… Ainda piorará a situação “eurótica”, mesmo depois das eleições alemãs e ganhe quem ganhar.

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