Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Nestes tempos difíceis para o euro, a Letónia adere à zona euro… contra o que pensam os letões
Copyright Reuters
Romain Renier | 05/06/2013, 08:15 – 744 palavras
A Comissão Europeia vai dar na quarta-feira a luz verde para a entrada da Letónia na área do euro, em que o país Báltico se tornará o XVIII membro, disse na segunda-feira um altos funcionários de Bruxelas .
Ainda estamos em crise na zona euro? Seguramente, respondem-nos do banco Natixis numa nota publicada na terça-feira. No entanto, alguns países ainda andam atraídos pela moeda única. Este é o caso da Letónia que deve receber na quarta-feira a luz verde da Comissão Europeia para se tornar o XVIII membro da zona monetária. Se a adesão da pequena República do Báltico à União Monetária é anedótica, do ponto de vista da dimensão da economia do país (o seu produto interno bruto é de 20 mil milhões de euros), esta adesão não deixa menos de ser um símbolo.
Na verdade, esta não parece ser uma boa decisão. Na sequência da queda do banco Lehman Brothers em 2008, o país, altamente dependente das exportações, afundou-se numa recessão muito severa. O seu PIB caiu de 10% de 2008 e caiu de 18% em 2009. No mesmo período, o défice explodiu devido à redução das receitas fiscais, mas também à necessidade de ajudar um sector bancário em falência. A Agência de rating Standard Poors & degrada então a nota do país para o nível ‘junk bond’.
A escolha dolorosa de se ligar à zona euro
Dispondo de uma moeda soberana, lat, a Letónia deparou-se com a necessidade da seguinte escolha: ou desvalorizar a sua moeda para recuperar a competitividade e assim poder reduzir o peso da dívida, ou, alternativamente, manter a sua moeda ligada ao euro e optar por uma “desvalorização interna” que requereu o auxílio internacional para evitar uma situação de incumprimento. Mais em sintonia com a escola austríaca, que defende uma moeda estável e ajustamentos internos, e à semelhança do que pretende Bruxelas, Berlim e Frankfurt, Riga oficialmente optou pela “desvalorização interna”. Ainda tanto mais quanto assumir o outro caminho talvez a levasse a afastar-se dos outros países da Europa Oriental. Uma solução que seria inconcebível para os líderes da antiga República Socialista.
Seguiu-se em 2009 o pagamento de ajudas de 7,5 mil milhões de euros pela UE e pelo FMI em troca de uma purga drástica das finanças públicas. Um terço dos postos de trabalho dos funcionários públicos foram pura e simplesmente eliminados e os salários do funcionalismo público são diminuídos. Assim como aconteceu no sector privado. De 5.3% da sua população activa em 2007, a taxa de desemprego disparou para 20,5% no seu auge, no início do ano de 2010. E o país acabou por apertar todas as malhas de despesa possíveis para cumprir o acordado, apresentando um défice orçamental de apenas (-1,2%) do PIB em 2012, em relação ao esperado de (- 1,9%). Em relação ao crescimento, este retomou-se e alcançou 5,5% em 2011 e 5,6% em 2013. No entanto sem que isso seja suficiente para atingir o nível do PIB de antes da crise.
Um sucesso que levanta dúvidas
Embora tenha sido tomado como país modelo de sucesso pelo FMI, alguns observadores, incluindo o prémio Nobel de Economia, Paul Krugman, têm posto em dúvida o milagre da Letónia. Na opinião deste economista, o regresso a uma situação de excedente na balança corrente é devido principalmente à queda nas suas importações e esta queda é devida à recessão. “Acho que os defensores da austeridade precisavam de um herói e a Irlanda falhou nesse plano, não lhes deu o herói de que precisavam “, concluiu Krugman numa das suas colunas no jornal The New York Times. E, de facto, como o observou o economista Mark Weisbrot, em Junho, o comércio exterior terá contribuído muito pouco para a recuperação do país. Na verdade, a Letónia recebeu muita ajuda europeia para impedir que fosse forçada a desvalorizar o lat porque os bancos suecos estavam altamente expostos a este país. E uma inflação inesperada permitiu à pequena república báltica poder suportar melhor o peso de sua dívida.
Esta cura drástica deixou, de toda a maneira, muitos vestígios nas mentalidades das pessoas da Letónia, sempre atingidas por uma taxa de desemprego que diminui muito lentamente. De tal forma, que apenas menos de 10% da população da Letónia é favorável à entrada do seu país na zona euro. Enquanto quatro letões em cada dez se opõem formalmente. Adiciona-se a esta amargura associada com a crise o medo de um aumento significativo nos preços. A vizinha Estónia, primeiro país da ex-URSS a aderir ao euro em Janeiro de 2011, vi os seus preços no consumidor a aumentarem de 5% este ano, depois de um aumento de 3% em 2010. No ano passado, os preços subiram na Estónia em cerca de 3,9 por cento, de acordo com o Banco Central da Estónia. Mas os letões já não dispõem de mais nada para dizer. Porque a adesão à moeda única já foi objecto de legislação no Parlamento. Eles saberão então se seus medos se justificavam ou não, a partir de 1 de Janeiro próximo, data em que oficialmente podem retirar euros aos balcões dos seus bancos.
