EDITORIAL: NOVAMENTE A SUBLIME PORTA

Diário de Bordo - II

 

A história da Turquia não se resumirá a uma tentativa de um povo  entrar na Europa. Foi com certeza muito mais do que isso. Mas é incontestável que essa tentativa foi uma parte importante. E hoje temos a Turquia a bater à porta da União Europeia. E, curiosamente, é a Alemanha, sucessora dos três Reich (a caminho do  quarto?), de Otão. O Grande, de Carlos Magno, do Império Romano (!?!),  que se ergue como o principal obstáculo à entrada da Turquia na União Europeia, que alguns chamam o Circo Europeu.  Agora invoca os excessos cometidos na repressão das recentes manifestações ali ocorridas.

Trata-se obviamente de uma razão hipócrita. A Alemanha não quer a Turquia na União Europeia, porque isso poderia pôr em causa a enorme supremacia de que disfruta. A entrada de um país com uma população quase tão grande como a sua, senhor de um exército fortíssimo, com uma posição estratégica ímpar, levanta problemas a uma escala que o governo da Senhora Merkel não deseja enfrentar. Sente-se bem entrincheirado, com a França domesticada, o Reino Unido contente com o papel de satélite dos EUA, aguardando o referendo escocês e unicamente preocupado em salvaguardar a sua City, e com a zona euro a seus pés, com tendência para alargar e não para encolher, contra a vontade dos seus povos, como na Letónia. Anteriormente, Angela Merkel invocou a matriz cristã da Europa (Cristo seria europeu? parece que não) como razão para obstar à admissão da Turquia,  e agora refere a repressão brutal das manifestações.

A repressão das manifestações está a ser cada vez mais brutal, e não só na Turquia. Tal como na espionagem, uns acusam os outros, e depois descobre-se que fazem pior quando lhes chega a vez. O que está a ficar cada vez mais à vista, é a vacuidade do projecto europeu. Uma União Europeia anquilosada sob a canga burocrática da Comissão de Barroso, um Conselho de governantes enfastiados e um Parlamento impotente nunca poderá fazer frente às outras potências mundiais. A começar pelos EUA, que também não estão minimamente interessados no seu reforço. Mesmo os antieuropeístas mais acérrimos terão de levar isto em conta.

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