MINIBLOGOTEATRO – 6 – SOLO PARA COMPUTADOR -por Rachel Gutiérrez (I)

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SOLO PARA COMPUTADOR – I

MONÓLOGO EM UM ATO

PERSONAGENS
– Uma mulher
– Um computador

No meio do palco há uma cadeira – de escritório – diante de um computador. A decoração é a de um despojado living room, pois a casa é a de uma mulher que vai falar todo o tempo sozinha, ao telefone, ou – mais frequentemente – com o computador –, não só ao ler as mensagens, que recebe e envia, mas principalmente quando espera da máquina soluções para a sua vida solitária. Cena contínua até o fim.

Ela entra carregando pastas e livros, cansada, desanimada, e faz gestos mecânicos: pendura a chave num gancho, coloca as pastas sobre uma mesa, joga a bolsa numa cadeira e liga o computador – e ouvem-se logo os sons que indicam o contato com a internet!

Protagonista (dirigindo-se ao computador) – Como é, alguma coisa pra mim? Deus do céu, como você está lento! Ah, sim, Cláudio dá notícias do financiamento… É claro, NADA ainda! Nem a secretaria nem o ministério se pronunciaram… não houve tempo… ainda é cedo. Certo! Vamos aguardar!
Suspira.
Bom, não custa nada fazer umas revisões em outros textos. E, quem sabe, ir escrevendo outra peça, com fragmentos, lembranças, relatos…

Pausa pensativa.

Ah! Já sei… à la manière de Godard,… mas com uma novidade: os fragmentos não precisam estar em ordem. Que ordem, se são, por definição, fragmentos?

Então é assim: pequenas historinhas, que podem ser embaralhadas, como cartas… e o diretor dispõe na forma que bem entender. Afinal, não é esse o sonho de todo diretor? Fazer da peça o que “ele” bem entender? Não dizem que “autor bom é autor morto”? Pois bem, sem morrer, esta autora aqui vai deixar o diretor to-tal-men-te à vontade. Como na música aleatória, onde não se indica a duração da nota nem sua intensidade… mais ou menos assim…

Mexe no computador. Imprime algumas páginas. Enquanto a impressora trabalha, fazendo seus barulhinhos característicos, ela coloca um CD no aparelho de som: Quinta sinfonia de Mahler, quarto movimento, adaggietto. O som se distancia…

Protagonista – Por que foi que escrevi isto aqui? Ah, sim! Por causa da ironia… Sim, o primeiro preceito das Leis do Amor Cortês do fim da Idade Média! Veja só! (lê) “Fuja da avarícia como de um flagelo perigoso e, ao contrário, seja generoso!” Essa era a primeira lei que o amante, ou aspirante ao amor de uma dama, devia respeitar… Há! Há! E a história aqui mostra exatamente um nada-galante-cavalheiro e sua dama em viagem pela Itália…
(com ironia) Viagem é muito perigoso, viagem pode acabar com qualquer casamento!

Pausa. Agora lê.

“O casal acabava de chegar a Veneza e a mulher, sempre atenta aos espetáculos de teatro e música, descobriu que naquela mesma noite o teatro La Fenice fazia uma homenagem a Stravinsky com um concerto totalmente consagrado à sua obra. Apaixonada por música, sabia que Stravinsky era um ícone de Veneza… (interrompe-se) Ícone? Eu usei essa palavra horrível? Qual! Corta-se ! (rabisca o papel) Era um herói em Veneza, um artista amado, venerado, qualquer coisa menos ícone! Acho que ele está enterrado em Veneza, sim, sim, Stravinsky está enterrado na sua amada Veneza…

Pois bem. (resume) Stravinsky seria homenageado, não o próprio, sua memória, no La Fenice naquela noite!” (Continua lendo.) Ela tenta, portanto, convencer o marido mal-humorado a comprar os ingressos que o hotel oferecia, o que, a duras penas, finalmente consegue.” (Pausa.)

A tela do fundo projeta cenas de filmes que se passam em Veneza: primeiro, algo do cenário de Asas do amor e depois, – somente o Grande Canal – de Morte em Veneza. A música aumenta e se mistura com os sinos e as primeiras vozes de Les Noces, de Stravinsky.

Protagonista (recomeçando a ler as notas) – “O concerto foi maravilhoso: o programa, entre outras coisas, incluía O Rouxinol, que ouviram pela primeira vez, com um ator-narrador extraordinário e belo como só os italianos sabem ser, e uma obra para dois pianos e orquestra de câmara… Ah! ela jamais esqueceria! Voltou exultante, nas nuvens! Ele, nem tanto… cansado, com seu eterno mau-humor [mau humor], e ficou mais irritado porque no caminho de volta ao hotel não encontraram nenhum restaurante aberto.

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