HERCULANO – CONSCIÊNCIA ÉTICA DE UMA NAÇÃO – 1 – por Carlos Loures

Este artigo é, com leves adaptações, o que foi publicado em VIDAS LUSÓFONAS

QUANDO TUDO ACONTECEU

 

1810: Em 28 de Março, nasce em Lisboa,  no Pátio do Gil (à Rua de São Bento) Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, filho de Maria do Carmo Carvalho de São Boaventura, filha e neta de pedreiros da Casa Real, e de Teodoro Cândido de Araújo, funcionário da chamada Junta dos Juros (Junta do Crédito Público). Família modesta, mas que se apercebe do potencial do pequeno Alexandre. Logo que atinge a idade escolar, ingressa no Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Nery que funciona no Convento das Necessidades. 1825 – Termina os estudos no Colégio dos Padres Oratorianos. 1827 – O pai cega e a família fica sem recursos.1828 – Dada a situação económica da família, não pode frequentar a Universidade. Preparando-se para ser admitido no funcionalismo, frequenta um curso prático de Comércio e na Academia da Marinha Real estuda Matemática. Frequenta a tertúlia da Marquesa de Alorna, da qual virá a escrever uma biografia. 1830 – Matricula-se no curso de Paleografia, à época designada por Diplomática, na Torre do Tombo, onde aprende os rudimentos da investigação histórica. O curso é regido por Francisco Ribeiro Dosguimarães. 1831 – Participa na revolta de 21 de Agosto, quando o Regimento nº 4 de Infantaria de Lisboa se levanta contra o governo absolutista de D. Miguel; abortada a revolta, Alexandre refugia-se num navio francês fundeado em Lisboa. Aporta a Inglaterra vai depois para França. 1832 –  Junta-se ao exército liberal na Ilha Terceira como soldado no Regimento dos Voluntários da Rainha. Tal como Almeida Garrett, é um dos 7.500 “Bravos do Mindelo”,  expedição militar comandada por D. Pedro que desembarca, em 8 de Julho na praia do Mindelo. Participa em combates. 1833 – As tropas liberais do Duque da Terceira ocupam Lisboa e D. Miguel transfere a sede do governo para Santarém. 1834 – As forças miguelistas são derrotadas nas batalhas de Almoster e de Asseiceira. É assinada a Convenção de Évora-Monte que põe termo à guerra civil, com deposição das armas pelos absolutistas e partida de D. Miguel para o exílio. 1836 – Em Setembro, uma revolução destitui a Carta Constitucional de 1826 e restabelece a Constituição de 1822. Herculano tem  divergências com o governo setembrista .Publica AVozdo Profeta, manifesto poético  em verso branco contra o governo de Passos Manuel. .1837-39 – Dirige e é redactor principal da revista Panorama, publicação de carácter artístico e científico editada pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, patrocinada por D. Maria II. 1838 – Representa-se em Lisboa no teatro do Salitre a peça de Herculano,  O Fronteiro de África ou três noites aziagas – Drama histórico português em 3 actos. Sai a público o livro de poemas A Harpa do Crente.  1839 – Aceita o convite de D. Fernando para dirigir as bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades, prosseguindo os seus trabalhos de investigação histórica. O rei paga-lhe do seu bolso um vencimento anual de 600$000 réis, dando-lhe também casa para residir..  1840 – É eleito deputado do Partido Cartista pelo Porto. 1841 –  Demite-se do cargo de deputado, desiludido com a actividade parlamentar. 1842 – Publica o romance histórico Eurico o Presbítero. É também publicado o seu drama teatral Os Infantes em Ceuta .1843 – É publicado o romance histórico O Bobo.1844 – 1846 –  É editado o primeiro volume da sua História de Portugal. –  1.ª época, desde a origem da monarquia até D. Afonso III 1848 – Sai a público O Monge de Cister. É editado um volume das suas Poesias.  1850 – Publica os opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba.1851- Regressa à vida política. Começa a publicação de Lendas e Narrativas. Sai o romance O Pároco de Aldeia. Funda o jornal O País. 1852 –  É nomeado sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa. 1853 – Funda o jornal O Português. 1853-54 –   A Academia das Ciências encarrega-o da compilação dos Portugaliae Monumenta Historica – recolha de documentos valiosos dispersos pelos  cartórios conventuais do país. 1854 – Publica História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. Volume I. 1855 – História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. Volume II. 1854-55 – Ocupa o cargo de Presidente da Câmara de Belém. -.1856- . É um dos fundadores do Partido Progressista Histórico. 1857 – Contesta a Concordata assinada com a Santa Sé. Publica  A reação ultramontana em Portugal.  1858, – É-lhe proposta, mas recusa, a cátedra de História no Curso Superior de Letras. 1859 – Com o que recebe de direitos de autor, adquire a propriedade de Vale de Lobos. Sai a público o volume III (e último) de História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. 1861- Quando na imprensa e na política portuguesa se  fala muito de iberismo, Alexandre está entre os que, sendo contra esse projecto, se une aos que constituem a Comissão Central 1º de Dezembro de 1640.1862 -É editado no Rio de Janeiro  O Fronteiro de África ou três noites aziagas 1866 – Publica o opúsculo Estudos sobre o casamento civil: por occasião do opusculo do sr. Visconde de Seabra sobre este assumpto 1867 – No dia 1 de Maio, casa com Mariana Hermínia de Meira, sua namorada da juventude. Desgostos com a morte prematura do rei D, Pedro V, de que fora preceptor e no qual depositava grandes esperanças, retira-se definitivamente para a sua quinta de Vale de Lobos (Azóia de Baixo, Santarém), paga exclusivamente com o produto da venda das suas obras, dedicando-se quase inteiramente à agricultura e ao recolhimento espiritual., embora mantenha correspondência com importantes vultos da vida política e cultural do País. Continua a trabalhar nos Portugaliae Monumenta Historica. 1871 – Intervém publicamente contra o encerramento das Conferências do Casino. 1872 – Orienta a publicação do primeiro volume dos Opúsculos. 1873 – Em edição da Bertrand, publicam-se os volumes I e II dos Opúsculos. 1876 – Sai o volume III dos Opúsculos.1877 –  Numa viagem a Lisboa (para se avistar com Pedro II do Brasil que está de visita a Portugal, contrai uma pneumonia, Morre em Vale de Lobos no dia 13 de Setembro. Por todo o País se manifesta o pesar pela perda de uma das vozes mais lúcidas  do século XIX. Um intelectual que foi como que a consciência e o sentido ético de toda a Nação..1879 – Em edição da Bertrand, publica-se o volume IV dos Opúsculos. 1886 – Publicação dos volumes V e VI dos Opúsculos 1898 – Sai o volume VII dos. Opúsculos. 1901  –  Volume VIII dos Opúsculos. 1907 – É publicado o volume IX dos Opúsculos 1908 – sai o volume X dos Opúsculos. 1910 – O centenário do nascimento de Alexandre Herculano é comemorado em todo o País.

Pequena introduçãoImagem1

Embora Alexandre Herculano tenha dito que «História não é só cronologia», o essencial  está dito na anterior relação cronológica – QUANDO TUDO ACONTECEU, onde pode o leitor encontrar  alguns dos principais factos da vida de um dos maiores vultos da história da cultura em Portugal. Seguem-se alguns apontamentos sobre aspectos da sua vida e da sua obra. Aqueles que o autor desta biografia entendeu como mais importantes. Outras pessoas, outras sensibilidades, poderão valorizar outros aspectos do percurso de Herculano.

Uma infância e uma juventude vividas no meio de agitação social, de lutas ideológicas e de guerras, explicam muito do que iria ser o cidadão e o intelectual.. Muito do que constituirá a sua cultura, a sua maneira de actuar e até o conteúdo da sua obra, são explicados pelas circunstâncias em que viveu essa fase inicial da sua vida

.Uma vida que seria de luta permanente em prol de ideias e de princípios, fazendo apelo a sentimentos patrióticos e a um espírito combativo de que toda a sua obra está imbuída.. As dificuldades forjaram um carácter determinado. Um homem franzino, alberga no seu corpo frágil uma capacidade de trabalho e uma força de vontade que, ao serviço de um raciocínio agudo, o transformam, naquele agitado período do século XIX que lhe coube viver, na consciência viva de uma Nação.

É desse homem que vamos falar – de Alexandre Herculano.

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