COIMBRA E OS LIVROS – por João Machado

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Depois de Lisboa, Coimbra – livros inspirados por Coimbra, a Lusa Atenas. O João Machado fez um levantamento dos mais marcantes.

Coimbra é uma cidade milenária. Tendo em conta a sua localização e atendendo aos factos históricos não admira que tenha sido sempre um pólo de atracção importante. Foi capital de Portugal até ao reinado de D. Afonso III. Ali se realizaram as primeiras cortes de que há memória, em 1211, de onde saíram as primeiras Leis Gerais do Reino, que centravam o poder nas mãos do rei, e tentavam acabar com os abusos da nobreza e do clero. A implantação da Universidade confirmou a cidade como um grande centro cultural, e a maior cidade do centro do país.

Camões dá-nos uma imagem da importância de Coimbra, referindo-se a D. Dinis:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se

O valeroso ofício de Minerva;

E de Helicona as Musas fez passar-se

A pisar de Mondego a fértil erva.

Quanto pode de Atenas desejar-se

Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.

Aqui as capelas dá tecidas de ouro,

Do bácaro e do sempre verde louro.

(Lusíadas, Canto III, estrofe 97)

E mais adiante, numa nota triste:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano de alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

(Lusíadas, Canto III, estrofe 120)

Destacam-se a seguir três episódios especialmente relevantes, relativos a realizações que tiveram grande repercussão e influência mesmo a nível nacional, e das quais Coimbra foi o palco principal em dois deles e papel bastante importante no terceiro. Referem-se isoladamente algumas obras literárias, que de algum modo dizem respeito a Coimbra.

A “Questão Coimbrã”, ou a Questão do Bom Senso e Bom Gosto

Cerca de 1860 eram grandes as tensões na Universidade de Coimbra. São grandes os protestos contra a disciplina arcaica e a legislação universitária, velha de três séculos. Em 1865 Antero de Quental, que terminara o curso de Direito, publica na Imprensa da Universidade um livro de poemas, as Odes Modernas. Inclui uma nota que foi considerada uma provocação aos defensores do romantismo, nomeadamente do romantismo da última fase. Respondeu-lhe António Feliciano de Castilho, numa carta incluída no Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas. A conflitualidade passou assim do âmbito geral da Universidade para o plano literário, desencadeando assim uma das mais importantes, senão a mais importante polémica literária ocorrida em Portugal. É contudo totalmente errado reduzi-la a um mero conflito entre literatos. Na realidade, confrontavam-se ideias antigas e novas, sendo que estas preconizavam a abertura às correntes novas europeias, não só no campo da arte, favorecendo a instauração do realismo, como também no campo político e social. A polémica teve grande repercussão na Universidade e em todo o país. Uma “guerra” de troca de opúsculos e manifestos animou a cena portuguesa, tendo Antero de Quental sido responsável pelo intitulado Bom Senso e Bom Gosto e outros, e Teófilo Braga pelas Teocracias Literárias. Intervieram figuras de todo o país, como Ramalho Ortigão (chegou a bater-se em duelo com Antero), Camilo Castelo Branco e outros. Sem dúvida que a Questão Coimbrã abre caminho a outras realizações como as Conferências do Casino, e não será exagero afirmar que ajudou a preparar o terreno para as grandes alterações políticas que culminaram na implantação da república.

Os Grandes Paspalhões Assinalados

Paródia aos Lusíadas incluída em In Illo Tempore, obra de Trindade Coelho (1861-1908), publicada em 1902, que constitui um testemunho importante sobre a boémia coimbrã.

Os grandes paspalhões assinalados,

Que nas reuniões da Academia

Foram solenemente apepinados

Por sua telha ou sua fidalguia

Que nas guerras das mocas esforçados

Mais do que a força humana permitia

No Teatro Académico asnearam

Tolices de que todos se espantaram

A Presença, revista literária

A 10 de Março de 1927 aparece em Coimbra o primeiro número desta revista. Afirma-se como uma folha de arte e crítica, antiacadémica eImagem1 antiliterata, nos termos do artigo de abertura, de José Régio. O grupo que promove a revista resulta da fusão de dois que estavam ligados a outras duas revistas, Bysâncio e Tríptico, também de Coimbra, que tiveram vida efémera. Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões vão assegurar a direcção da Presença até ao número 27, saído em 1930. Branquinho da Fonseca e um grupo de colaboradores, entre os quais Miguel Torga e Edmundo de Bettencourt, afastam-se nessa altura, entrando um ano depois para a direcção Adolfo Casais Monteiro. A Presença durou até 1940. A primeira série contou com 54 números, a segunda com apenas dois.

A revista procurou acolher todas as manifestações artísticas de qualidade. Ajudou a revelar muitos nomes, que viriam a integrar diversas correntes literárias e artísticas, incluindo o neo-realismo. Destacam-se João José Cochofel, Fernando Namora, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Pedro Homem de Melo, Irene Lisboa. Ilustraram a revista artistas de grande qualidade como Almada Negreiros; Mário Eloy, Sarah Afonso, Arlindo Vicente (foi o autor da primeira capa) e muitos outros. O grupo Orpheu deve à Presença a divulgação que teve.

Muitas individualidades puderam dar os primeiros passos, na criação e na crítica, graças à Presença. José Régio, Miguel Torga, Vitorino Nemésio, Edmundo de Bettencourt, Casais Monteiro são nomes muito conhecidos. Branquinho da Fonseca (1905-1974) com o romance A Porta de Minerva (1947), os contos O Barão, Rio Turvo, e obras de teatro e poesia, foi sem dúvida um homem da Presença, embora dela se tenha afastado a dada altura. João Gaspar Simões (1903-1987), com um papel de relevo na crítica literária, e também ficcionista e ensaísta, é outro exemplo.

Neo-realismo

Para muitos o neo-realismo foi uma corrente que teve implantação apenas na zona do vale do Tejo, na Grande Lisboa, no Alentejo, e pouco mais. Tal não é verdade. Em Coimbra ocorreram etapas algumas relevantes da vida deste movimento. O Novo Cancioneiro, resultado do Imagem2trabalho de um grupo de jovens poetas, alguns dos quais tinham estado ligados à Presença, foi uma delas. Conseguiram, entre 1941 e 1944, fazer publicar dez livros de poesia, naquilo que, segundo Alexandre Pinheiro Torres, terá sido a primeira grande manifestação colectiva do neo-realismo português. A afirmação é discutível, mas sem dúvida que a publicação do Novo Cancioneiro teve um enorme significado.

Também a revista Vértice, fundada em 1942, por Raul Gomes, estudante da Universidade de Coimbra, é um produto do meio intelectual e progressista de Coimbra. Entre os seus apoiantes encontram-se Eduardo Lourenço e Francisco Salgado Zenha. Em breve associam-se a Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, Arquimedes da Silva Santos, Joaquim Namorado Rui Feijó, e inicia-se uma segunda fase da revista (ver o livro de Viviane Ramond, A Revista Vértice e o Neo-realismo Português), que sobreviveu até hoje, embora não sediada em Coimbra.

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