Em minha opinião, a Cultura faz parte integrante da estrutura do ser humano. Porém, entre os diferentes graus de cultura, da sua solidez e profundidade, da sua autenticidade e verdade, da sua sábia natureza intrínseca, pode haver diferenças abismais. A Cultura constitui-se através da vida como qualquer um dos mecanismos de adaptação, enriquecendo o conhecimento e o saber nos emaranhados mecanismos neurobiológicos da criatividade. A verdadeira Cultura, a Cultura do saber autêntico, a Cultura do percurso da vida, a Cultura do ser gente, transparece, muitas vezes, no homem culto, de forma natural, no olhar, no fácies, na postura, no ser, na primeira amostra de diálogo. No entanto, a verdadeira Cultura está muito além do saber e do conhecimento acumulados. Ela manifesta-se na compreensão do mundo, no respeito pelas diferenças, e no valor das experiências humanas. Tudo isto é um pouco como a nossa língua, que, como todos sabemos, não deve ser considerada um mero instrumento de comunicação, mas uma parte inseparável do todo que somos e da riqueza anímica que construímos através da vida. A nossa língua é um mundo de interacções. Saber dialogar, reflectir e estar continuamente a aprender com os outros e com o nosso viver é o caminho da verdadeira Cultura. A verdadeira Cultura representa um ser humano inteiro, sólido e bem formado. Em modos de metáfora, podemos dizer que um bom perfume deve ser sentido como parte integrante da personalidade de uma mulher e não como um cheiro. Uma boa decoração deve ser sentida pelo bom ambiente, pelo conforto e bem-estar que cria e não dar nas vistas apenas pelo estilo, pela forma e configuração dos objectos. Ao contrário daquilo que hoje se vê em grande parte da sociedade, a obsessiva cultura do corpo em detrimento da Cultura da mente, não nos pode deixar confundir a verdadeira Cultura com enfeites, cosméticas, roupagens mais ou menos vistosas ou palavreados fáceis, superficiais, fora da realidade do mundo em que vivemos, como se os neurónios, a maior riqueza da nossa e de qualquer outra espécie, fossem incómodas inutilidades fechadas numa gaveta que ninguém tem interesse em abrir. A Cultura do saber, a verdadeira e profunda Cultura, nada tem a ver com a cultura-espectáculo, com a ridícula cultura de grande parte de políticos e comentadores, com a cultura do enciclopedismo balofo dos tagarelas e dos vendidos. Não penso que esteja a dar uma ideia maniqueísta da cultura, essa forma simplista de pensar que o mundo é visto dividido entre o bem e o mal, o saber e não saber. A simplificação pode ser uma forma primária de pensamento, reduzindo os fenómenos humanos a uma relação de causa e efeito, de certo e errado. Não é isso que quero nem é disso que se trata. Todos sabemos que há patamares de Cultura, graus de Cultura, especificidades de Cultura, maiores ou menores profundidades de Cultura, e qualidades culturais que não se podem comparar. Não quero dizer com isto que os menos cultos mereçam menos respeito humano que os mais cultos e não tenham o seu merecido valor na sociedade. A verdadeira Cultura não pode ser uma marca de superioridade, mas uma forma de enriquecimento pessoal e colectivo. O que me dá comichão é tentarem tantas vezes vender gato por lebre, quer na política, quer nas administrações, quer nas artes e nas letras, quer na comunicação social, quer, sobretudo, nesta ridícula e provinciana moda da secundarização da nossa riquíssima língua, um dos mais belos dos nossos patrimónios, dobrando os joelhos perante anglicismos histriónicos e desnecessários, fazendo uma espécie de caldeirada linguística em que mostram muitas vezes que nem o português correcto sabem falar. Ninguém exige a ninguém uma Cultura sólida e profunda. O que se pretende é lembrar que só de olhos bem abertos, se possível desde criança, compreenderemos que nada há de mais importante na edificação do ser humano do que a Cultura e a Educação, cujos grandes alicerces são a Humildade, a Honestidade e o incondicionável respeito pela Verdade.