Seleção de Júlio Marques Mota
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Para financiar entidade privada, Universidade Nova de Lisboa pagou 9,85 milhões por edifícios que nunca passaram para o seu património
OS ‘MISTÉRIOS’ DA GESTORA DO CAMPUS DA NOVA SBE COM PREJUÍZOS ACUMULADOS
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em 10 de Agosto de 2026 (original aqui)
A Universidade Nova de Lisboa (NOVA) pagou 9,85 milhões de euros por dois edifícios do Campus de Carcavelos, mas nunca recebeu formalmente os imóveis. Pelo menos desde 2020, os blocos continuam juridicamente no património da Fundação Alfredo de Sousa, uma entidade privada criada exclusivamente para apoiar a NOVA School of Business and Economics, conhecida como NOVA SBE.
As contas de 2025 confirmam que a Fundação recebeu a totalidade do preço acordado, embora a escritura nunca tenha sido realizada. Nesse mesmo relatório, a administração admite que o processo de constituição da propriedade horizontal já terminou e que estão reunidas as condições para a transmissão. Mesmo assim, não apresenta qualquer data e limita-se a dizer que a escritura será celebrada quando o assunto estiver “articulado e alinhado com a NOVA SBE”.

A data exacta do contrato-promessa não é revelada nas contas. Aquilo que os documentos permitem demonstrar é que a operação já existia em 2020. Nesse ano, a Fundação retirou os dois edifícios da rubrica contabilística “Edifícios e outras construções” e passou-os para “Outros activos correntes”, porque previa concretizar a escritura “no curto prazo”. Quase seis anos depois, o curto prazo transformou-se numa espera sem fim.
Quatro milhões acima do valor contabilístico
Os imóveis que a NOVA pagou por 9,85 milhões de euros continuam registados nas contas da Fundação por 5.808.698 euros. A diferença ascende a 4.042.302 euros: o preço pago pela NOVA é quase 70% superior ao valor contabilístico dos edifícios.
Valor contabilístico não significa necessariamente valor de mercado. Um imóvel pode estar inscrito pelo custo histórico, deduzido das depreciações, e valer bastante mais no momento da venda. Mas, tratando-se de uma transacção entre uma universidade pública e uma fundação privada estreitamente relacionada com uma das suas faculdades, seria elementar demonstrar como se chegou ao preço.
Nem a Fundação nem a Reitoria facultaram ao PÁGINA UM qualquer avaliação imobiliária, memória de cálculo ou documento que permita perceber se os 9,85 milhões correspondem ao valor de mercado, se incluem equipamentos e infra-estruturas comuns ou se incorporam outras contrapartidas destinadas a financiar a Fundação.
Quando a escritura for finalmente celebrada, a Fundação poderá reconhecer uma mais-valia contabilística superior a quatro milhões de euros: elimina do passivo a obrigação de 9,85 milhões perante a NOVA e retira do activo edifícios registados por apenas 5,81 milhões. O ganho não significa que a NOVA pague novo dinheiro nessa data; significa que a Fundação já recebeu um preço muito superior ao valor por que mantém os imóveis nas suas próprias contas.
Quase dez milhões entraram; quase nada resta em caixa
O pagamento integral continua registado no passivo da Fundação como um adiantamento por conta da venda. Porém, os 9,85 milhões de euros não ficaram guardados numa conta à espera da transmissão. Em 31 de Dezembro de 2025, a Fundação tinha apenas 1,25 milhões de euros em caixa e depósitos bancários.

A diferença não demonstra, por si só, qualquer utilização irregular. O dinheiro é fungível e pode ter sido aplicado na construção e manutenção do Campus, no pagamento de fornecedores, na amortização dos empréstimos ou no financiamento da própria actividade. Mas demonstra que a verba antecipada pela NOVA foi absorvida pela tesouraria geral da Fundação. As contas não identificam o destino concreto do dinheiro nem revelam que tenha sido paga qualquer remuneração à NOVA pela utilização, durante anos, de quase dez milhões de euros.
A operação é ainda mais peculiar porque os edifícios representam apenas cerca de 9% dos activos da Fundação, mas quase três quartos dos seus activos correntes. Quando forem transmitidos, sairão do balanço 5,81 milhões de euros em imóveis, mas desaparecerá também um passivo de 9,85 milhões. O efeito líquido será um reforço patrimonial superior a quatro milhões de euros.
Uma fundação privada para servir uma faculdade pública
A Fundação Alfredo de Sousa foi constituída em Novembro de 2015 e reconhecida como entidade de utilidade pública em 2020. É uma instituição privada, mas não possui uma missão genérica ou autónoma: os seus estatutos determinam que a actividade se encontra orientada exclusivamente para apoiar o desenvolvimento e o funcionamento da NOVA SBE.

As entidades instituidoras são a própria Faculdade de Economia, o Município de Cascais, a Jerónimo Martins, o Banco Santander Totta e a Arica, sociedade ligada à família Soares dos Santos. O fundo patrimonial foi constituído através de 12,31 milhões de euros em dinheiro e de uma entrada em espécie de 9,78 milhões, correspondente ao direito de superfície cedido pelo Município de Cascais sobre o terreno onde foi construído o Campus.
A Fundação concentrou a angariação dos donativos privados, o financiamento e a construção do novo Campus. Depois da inauguração, passou a assegurar a gestão do complexo, a sua manutenção e a exploração económica dos espaços. Arrenda o Campus à NOVA SBE e à NForumExecutivos e gere contratos relativos à residência universitária, estacionamento, ginásio, supermercado, restauração, cafetarias, agência bancária, clínica e outros operadores comerciais.
A entidade foi presidida a partir de 2021 por Miguel Pinto Luz, actual ministro das Infra-estruturas e Habitação. O governante assumiu então a liderança da Fundação numa fase em que a construção estava concluída e a prioridade passava a ser a gestão do Campus e a captação de novos fundos para a NOVA SBE.

Rui Diniz preside actualmente ao conselho de administração, que integra ainda Alexandra Brandão, António Casanova, António Nogueira Leite, Francisco d’Almeida, Inês Oom de Sousa, Henrique Soares dos Santos, Nuno Piteira Lopes e Vera Pinto Pereira. A composição inclui membros indicados pelo Conselho de Curadores e pelos antigos alunos, bem como representantes da NOVA SBE, do Grupo Jerónimo Martins, da família Soares dos Santos e da Câmara Municipal de Cascais.
A Faculdade paga; a Fundação devolve
O modelo financeiro produz um circuito difícil de compreender sem uma leitura consolidada. A NOVA SBE paga rendas, condomínio e serviços à Fundação. A Fundação utiliza essas receitas para manter o Campus, pagar fornecedores, juros e amortizações dos empréstimos, mas também entrega dinheiro à própria NOVA e à Faculdade sob a forma de donativos, bolsas e financiamento de projectos.
Em 2025, a Fundação entregou cerca de 2,1 milhões de euros à NOVA SBE para fins educacionais e científicos. A maior parcela, 1,43 milhões, destinou-se ao projecto Arica, que financia a implementação e a actividade corrente da Biblioteca Teresa e Alexandre Soares dos Santos. Outros 488 mil euros foram canalizados para o Westmont Institute of Hospitality and Tourism, 165 mil euros corresponderam ao donativo institucional anual à Faculdade e cerca de 56 mil euros foram atribuídos em bolsas.
Uma parte significativa destas verbas não provém directamente das rendas pagas pela Faculdade. A Fundação recebe donativos consignados por mecenas a projectos específicos e transfere-os para a NOVA SBE à medida que as despesas são realizadas. Funciona, nesses casos, como intermediária entre os financiadores privados e uma escola pública.
Ainda assim, o resultado é um sistema em que a Faculdade paga à Fundação para ocupar e utilizar o Campus e a Fundação volta a financiar a Faculdade. As contas não apresentam qualquer estudo que demonstre quanto custa esta intermediação, que vantagem financeira líquida gera ou se a gestão directa do Campus pela NOVA seria mais cara.
O lucro de 2025 foi salvo pelo Fisco
A Fundação encerrou 2025 com um lucro de apenas 84.566 euros, depois de ter apresentado um prejuízo de 291.386 euros em 2024. A administração apresenta a passagem para terreno positivo como prova da “solidez operacional” do modelo, mas o indicador que mede a actividade antes de depreciações e juros piorou: o EBITDA caiu de 2,59 milhões para 2,43 milhões de euros.
O resultado final melhorou porque as depreciações e amortizações diminuíram 274 mil euros e o encargo financeiro líquido caiu cerca de 262 mil euros. A Fundação afirma que certos activos chegaram ao fim da vida útil contabilística, deixando de ser depreciados, mas não identifica quais são esses bens, quanto custaram ou que parcela da redução corresponde a cada activo.
Também a queda dos juros está insuficientemente explicada. A dívida bancária diminuiu apenas 1,3 milhões de euros, de 11,7 para 10,4 milhões, mas os juros brutos caíram 378 mil euros, de 973 mil para 595 mil. A redução da dívida, por si só, não explica uma quebra de quase 39% nos juros. A descida da Euribor e a estrutura dos empréstimos terão contribuído, mas as contas não apresentam uma reconciliação que separe cada efeito. Os swaps, apesar de continuarem a reduzir o custo financeiro, renderam menos em 2025 do que no exercício anterior.
Mesmo com menores depreciações e juros, a Fundação teria regressado ao prejuízo sem uma receita extraordinária da Autoridade Tributária. O litígio remontava ao IVA das obras de construção do Campus, realizadas entre 2015 e 2017. A Fundação considerava aplicável a taxa reduzida de 6%, enquanto a Autoridade Tributária sustentava a incidência de 23% e recusou um reembolso de 594.772 euros. A Fundação venceu o processo, cuja decisão favorável transitou em julgado em 2021, mas só recebeu o capital em Maio de 2025.
O reembolso principal melhorou a caixa, mas não os resultados, porque já estava reconhecido como crédito sobre o Estado. O que salvou as contas foram 161.452 euros de juros indemnizatórios, reconhecidos como rendimento de 2025 após uma sentença judicial e pagos pela Autoridade Tributária em Janeiro de 2026.
Sem esse rendimento extraordinário, o lucro de 84.566 euros transformar-se-ia num prejuízo próximo de 77 mil euros. Ou seja, a única excepção positiva depois de anos de resultados acumulados negativos não nasceu de uma recuperação da exploração do Campus: nasceu, em termos decisivos, da derrota do Fisco em tribunal.
Os chamados “outros rendimentos” subiram de 1,12 milhões para 1,40 milhões de euros, mas a composição confirma a fragilidade da melhoria. Incluem 711.576 euros de reconhecimento contabilístico de antigos donativos destinados à construção, 505.668 euros de refacturação de electricidade e água e 183.837 euros de outros ganhos, onde se encontram precisamente os juros indemnizatórios. Grande parte da subida não representa nova receita recorrente ou aumento efectivo da rentabilidade. Em todo o caso, os prejuízos acumulados situam-se em quase 8,2 milhões de euros.

Silêncio em plena guerra entre a Reitoria e a NOVA SBE
A Fundação Alfredo de Sousa não respondeu às questões enviadas pelo PÁGINA UM sobre o contrato-promessa, a avaliação dos imóveis, as datas dos pagamentos, a utilização dos 9,85 milhões, o atraso da escritura, a queda das depreciações e a situação de tesouraria.
A Reitoria também não esclareceu qualquer um destes pontos. Limitou-se a informar o PÁGINA UM de que está a investigar um conjunto de entidades ligadas à NOVA, entre as quais se encontrará a Fundação Alfredo de Sousa. Não indicou, porém, o objecto, o âmbito, os responsáveis ou o prazo dessa averiguação.
O silêncio surge em plena guerra institucional entre a Reitoria e a NOVA SBE. Paulo Pereira, investigador oriundo da NOVA Medical School e antigo vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, foi eleito reitor em Setembro de 2025 e novamente em Maio deste ano, depois de um tribunal ter determinado a repetição do processo eleitoral.
A relação com a Faculdade de Economia entrou em ruptura depois de o reitor determinar que todas as unidades orgânicas utilizassem também a designação oficial em português. Pedro Santa Clara, professor da NOVA SBE e principal impulsionador do Campus de Carcavelos, classificou a decisão como um “acto hostil” e defendeu que a Faculdade deveria abandonar a NOVA. A possibilidade de separação chegou a ser discutida publicamente, embora a direcção da escola tenha depois negado estar em curso qualquer “divórcio institucional”.

No meio deste conflito, a Reitoria tem agora pela frente um problema muito mais concreto do que o nome da Faculdade: uma universidade pública entregou 9,85 milhões de euros a uma fundação privada por dois edifícios que continuam, há anos, no património do vendedor.
A pergunta é simples e continua sem resposta: quando receberá a NOVA aquilo que já pagou — e com que avaliação aceitou entregar mais quatro milhões de euros do que o valor por que os imóveis permanecem registados nas contas da Fundação?
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O autor: Pedro Almeida Vieira [1969 -] é jornalista, escritor e investigador. É diretor no Página Um. Licenciado em Economia e em Gestão pelo ISEG, é também licenciado em Engenharia Biofísica pela Universidade de Évora. Doutorado pelo ISCTE em Filosofia, Políticas Públicas.






