A CANETA MÁGICA – OS TRÊS EFES – por Carlos Loures

 

Tenho procurado alguns elementos da história do Fado, indagando sobre as suas origens, mas sobretudo destacando o surgimento, a partir da segunda metade do século XIX e até aos começos do século XX, das chamadas músicas urbanas – destacando as similitudes entre o fado de Lisboa e o tango de  Buenos Aires e Montevideu; e também o jazz em Nova Orleães, a valse musette em Paris, os cuplés em Madrid… O fenómeno não parece estar dissociado dos movimentos político-sociais e da tomada de consciência das classes trabalhadoras,  como sequelas da Comuna de 1870. Desde há semanas estou a publicar “Futebolando”, um post semanal, meu ou de um convidado, sobre futebol, defendendo a tese de que futebol e cultura não constituem temas incompatíveis. Perguntarão – será que ele agora nos vai tentar reabilitar Fátima? 

Mas, podem os leitores, ficar tranquilos, fico-me pela defesa dos dois primeiros efes – não defenderei o indefensável negócio de Fátima. O fado, expressão musical genuinamente popular e o futebol, um belo jogo (quando bem jogado) não têm culpa que alguém tenha tido a ideia dos três efes – uma graçola inconsequente como outra qualquer. A braços com uma guerra em três frentes a ditadura aproveitou os êxitos do nosso futebol, explorou a popularidade de Amália e o êxito da mistificação de Fátima, como aproveitou, ou tentou aproveitar, muitas outras coisas começadas por outras letras – o clima suave, o Abril em Portugal, a sardinha assada… – internamente, por exemplo, as vedetas do «nacional-cançonetismo» tiveram um papel mais alienatório do que o do fado. Fátima trouxe o papa a Portugal e o nosso futebol, sobretudo entre 1961 e 1966, foi visto por milhões de espectadores… Tudo o que pudesse, cá dentro e lá fora, afastar as atenções da guerra suja e da situação política e económica, era aproveitado pelo regime. O habitual em regimes totalitários, O futebol tem sido instrumentalizado em diversas ocasiões. Na Argentina, a vitória no Campeonato Mundial de 1978 foi amplamente usada pela criminosa Junta Militar.

No Brasil, a próxima realização do Mundial está a ser usada para popularizar medidas políticas de resultado duvidoso e, com desvios orçamentais sucessivos, a permitir negócios ilícitos. Há quem fale em corrupção desenfreada. Uma onda de protestos percorre as principais cidades brasileiras – o povo parece ter despertado. Os governantes, se puderem, recorrem ao ópio.

Na recente final da Taça das Confederações, entre o Brasil e Espanha, o espectador politizado via a vitória de qualquer das selecções como um factor de aproveitamento político – no Brasil contrapondo-se aos protestos, não os neutralizando, mas suavizando-os. Em Espanha, ou seja, num estado espanhol onde se amalgamam diversas nações, apresentar-se-ia como uma imagem da «unidade» espanhola que sabemos ser uma ficção. E quem tenha visto o jogo sob essa perspectiva, fosse qual fosse a selecção cuja vitória preferisse, ficava com um amargo de boca – a vitória de Espanha seria aproveitada pela ridícula monarquia para contrapor à justa revolta de catalães, bascos e galegos; no Brasil, a demagogia, o populismo de Dilma, teriam uma vitória sobre o justo clamor de indignação que sacode o país.

Quem não estivesse a ver a partida com preocupações políticas, assistiu ao triunfo claro, inequívoco da selecção brasileira – uma vitória da criatividade sobre o método, do entusiasmo explosivo sobre o tic tac algo cansado. E, já agora, deixem-me ser demagógico – uma vitória do patriotismo brasileiro sobre um grupo de profissionais que veste a camisola de um estado artificial. Uma vitória justa. Mesmo que seja aproveitada de forma injusta.

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