A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Era o título de um filme português realizado em 1985 por Pedro Martins com guião de Henrique Santana – “Aqui há fantasmas!”. E há. Por “aqui” entenda-se não o blogue, mas o país e o seu mundo circundante. Antero de Quental na sua conferência Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, situava no catolicismo a principal causa dessa decadência. Antero exaltava o carácter revolucionário do cristianismo sufocado e adulterado pelas transformações que o concílio de Trento lhe imprimiu e culpava as monarquias peninsulares por uma expansão colonial desumana. Talvez sobrevalorizasse a colonização britânica ao considerar que ela tinha como objectivo o desenvolvimento dos territórios. Mas a matriz reaccionária do catolicismo é indesmentível e o seu fantasma ainda está por aí.
Um amigo meu, uns anos mais jovem, teve no Liceu Camões, que também frequentei, um colega, chamado Afonso, a quem os pais, convictos da sua precoce genialidade, que se impunha potenciar, deram a ler uns textos de Nietzsche, quando o rapaz tinha uns onze anitos. Resultado: o promissor infante, poucos anos depois, acreditava ser deus, escrevia redacções em que debitava preciosidades do género “nem só de pão vive o homem, mas também de bifes de vaca sem nervos” e aceitava que, todos os dias, os colegas se despedissem dele com um “até amanhã, se tu quiseres” – era o deus Afonso! Uns tempos depois, descobriram-no no MRPP. Desconheço se, com a idade, essa errância teológico-revolucionária regrediu, ou se terá ascendido a etéreas paragens, esfumando-se da vista dos vulgares mortais.
A Sra. Presidenta da AR, igualmente considerada um génio precoce (o que, nas paragens ideológicas que frequenta parece ser erro frequente), foi atirada pelo seu partido para o Tribunal Constitucional, ainda mal refeita das crises hormonais adolescentes. Nunca se curou. Pessoalmente, prefiro a imitação da Maria Rueff ao original: consegue ser mais genuína. Mas tudo indica que, tendo-nos sido sonegada a presença da notável actriz, a Sra. Presidenta resolveu substituir-se à sua própria imitação. A julgar pelo desempenho de ontem, ainda que um pouco ofuscado pela componente escatológica (mal entendida em plena AR, pela ignorância histórico-política da maioria dos presentes), mas abrilhantado pela pujante clareza da explicitação do verdadeiro significado da palavra “carrasco”, desconhecido durante séculos – ousarei, mesmo, alargar-me a milénios… -, estaremos a assistir às primícias de uma nova e brilhante carreira, quiçá merecedora de outros palcos, mais adequados a este tipo de aspirações artríticas, perdão, artísticas…