FUTEBOLANDO – PEPE, ETERNO ÍCONE DO BELENENSES – por Carlos Loures

Este texto, com pequenas alterações, foi antes publicado no Estrolabio

Quando vemos Cristiano Ronaldo ou Messi, nadando em milhões, viajando pelo mundo, espatifando carrosImagem2 topo de gama, misturados com figuras do jet set internacional, é inevitável a comparação com ídolos do passado, homens que, nunca saberemos, poderão até ter sido melhores futebolistas, mas que viveram e morreram sem outra recompensa que não fosse os aplausos de adeptos e, por vezes, até de adversários.

José Manuel Soares, «Pepe», nasceu em Belém, Lisboa, no dia 30 de Janeiro de 1908, uma quinta-feira de grande perturbação política, na capital e no País. Na terça-feira anterior, dia 28, tinha abortado uma tentativa de levantamento revolucionário, a famosa «revolta do elevador». Grandes líderes republicanos foram presos. No sábado seguinte, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro seriam vítimas de um atentado. Mas não é de história política que hoje me ocuparei. Continuemos a falar de Pepe. Mas antes, parece-me útil fornecer alguns dados sobre o seu clube, o Belenenses: O Clube de Futebol Os Belenenses, fundado em 1919, é um clube de Lisboa, da freguesia de Belém.

Imagem1Para além de numerosos títulos noutras modalidades, conquistou três campeonatos de Portugal. Em 1933 era o clube com mais campeonatos ganhos e com maior número de jogadores chamados à selecção nacional. Actualmente, a seguir aos chamados três grandes, é ainda o quarto clube com maior número de internacionalizações.

Foi por este clube que, em 1923, com pouco mais de 15 anos, Pepe foi inscrito no Campeonato de Lisboa de 1924-25, fazendo a sua estreia na primeira categoria em Fevereiro de 1926. No campo das Amoreiras (do Benfica), a 15 minutos do final o Belenenses perdia por 4-1. Mas nesse quarto de hora o resultado passou a ser de 5-4 a favor da equipa de Belém. O último golo, o da vitória, foi apontado por Pepe.

Neste mesmo ano de1926, com 18 anos, foi chamado à selecção nacional, marcando dois dos quatro golos da vitória contra a França. Não mais deixou de ser seleccionado. Entre 1926 a 1931, Pepe fez 140 jogos. De baixa estatura, franzino, mas muito rápido e hábil, diz-se que, no começo da sua carreira, era demasiado duro nas suas entradas aos adversários. Porém, foi-se tornando num jogador maduro e comedido. Por isso, quando em 1 de Novembro de 1931 foi noticiada a sua morte, a consternação foi geral.

As causas da sua morte nunca foram totalmente esclarecidas, mas segundo tudo indica, terá sido envenenamento alimentar. Supõe-se que sua mãe, analfabeta como larga percentagem dos portugueses dessa época, terá temperado por não poder ler o rótulo do recipiente, o modesto almoço que Pepe levava para o seu trabalho, nas oficinas da Aviação Naval, com um produto tóxico. Pepe morreu no Hospital da Marinha. O seu funeral para o cemitério da Ajuda, foi acompanhado por uma enorme multidão.

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Mais pormenores sobre a história deste grande jogador, podem ser colhidos no belo livro de Marina Tavares Dias, “História do Futebol em Lisboa” e no sentido e bem escrito texto de Vítor Gomes (In Memoriam) publicado no blogue do clube. Embora tendo recorrido a outras ajudas, estes foram as minhas duas principais fontes para compor esta singela evocação.

Acabo como comecei. Outros tempos, os de Pepe, Pinga, Peyroteo e até de Eusébio. A recompensa não eram os inauditos milhões. Era o fervor do público, os aplausos… Nos jogos florais da Grécia não havia prémios pecuniários – os vencedores recebiam uma coroa de louros e um cesto com figos. Onde quero chegar, já todos perceberam -um mundo de estímulos materiais não é necessariamente melhor do que um onde agíssemos movidos por estímulos morais. Penso que é bem pior, pois ajuda a trazer à superfície tudo o que de mais negativo persiste na natureza humana.

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