Desta vez está arrumando flores num vaso. Serve-se de um uísque e senta-se. Fica pensativa, triste e sonhadora. Fala lentamente.
– Hoje é aniversário de morte de minha mãe. Não! Não quero me lembrar de seus últimos dias, de seus últimos momentos! E, infelizmente, é disso que me lembro mais… (bate na mesa) Não quero lembrar! Queria tê-la comigo como quando era criança, na hora da sesta, admirando o “cinema” das sombras que a veneziana filtrava no mormaço do quarto. O aconchego, o cheiro dela! Minha mãe linda, com seu casaco verde e uns chiquérrimos enfeites pretos, casaco do Macy’s de Nova York, escolhido pelo extraordinário bom gosto de meu pai, cujas viagens, ou melhor, cujo retorno das viagens parecia uma festa de Ali Babá! Minha mãe com sua capeline azul turqueza [azul-turquesa], no Jockey Clube de Montevidéu, alegre, bonita, um pouco solene, mas perfeita para a ocasião, como sempre.
Uma grande dama de antanho, mulher linda, a mais linda do mundo para a criança que eu fui, minha mãe que se parece com a nobreza da palavra antanho! Sua pele macia, sem manchas, seu colo imaculado, seu perfume: Arpège! Mãe amada sobre todas as outras pessoas, tu foste o meu maior amor!… E a morte jamais te vencerá! E a morte não terá nenhum domínio!…
Chora. Agora, a música é um trecho alegre do “Divertissement”, trio para oboé, clarinetas e fagote, de Jean Françaix. B.O.
Volta a luz, mesma situação. Serve-se de uísque outra vez.
Protagonista – Em que hei de pensar? Eu que não tenho tabacaria de defronte, tenho ao menos as minhas fantasias amorosas… Quero dizer, então, em quem hei de pensar? Sim, nele, é claro! É sempre o mesmo… nos últimos três meses, ao menos! Quanta energia jogada fora! Ou será que não é? Será que essa energia erótico-neurótica vai para algum neurônio criativo e volta produtiva? Merda nenhuma! Mas é bom… (enternece-se como se o estivesse enxergando) é bom ficar acordada só para pensar mais um pouquinho nesse ele que já virou pano de fundo da minha consciência… É como se ele crescesse e me abrigasse, me acolhesse – é isso mesmo! Pensar nele o faz crescer como… como uma árvore frondosa… frondosa como um baobá… ou uma casa! Sim! Pensar nele, depois de alguma coisa desagradável, cansativa, é como chegar em casa… ou… ou não estar mais sozinha, é como uma carícia de mim para mim, que me dá sentido, me conforta, me re-conforta…
Como é possível? A ausência presente, ou a presente ausência… detesto “a presença da ausência” que já virou clichê, sua presença em mim, vivipensada por mim, gostei: vi-vi-pensada, não é vivenciada, nem só sentipensada… me envolve mais do que uma mensagem real… virtual… o que seja! Ah, a fantasia … immaginare, immaginare… Giacomo Leopardi, sim, sim, este aqui é o meu jardim onde penso nele… (abraça a si mesma) Bom! Chega! Vamos trabalhar!
Mexe na papelada.
– Que é que eu tinha anotado aqui? Ah! Aquela ideia maluca… ou nem tanto: “os homens, em literatura, são mais abrangentes do que penetrantes”, sim, porque eles abrangem longos períodos históricos, longas sagas de família, guerras inteiras, a História com H maiúsculo faz parte, quase sempre, da literatura deles, embora tenha sido um homem que disse essa coisa terrível e que parece expressar um pensamento feminino: “A história é um pesadelo do qual eu gostaria de despertar”, não é mesmo, James Joyce? E Anais [Anaïs] Nin, depois das bombas em Hiroshima e Nagasaki, disse que era inacreditável que continuássemos vivendo, trabalhando e amando num mundo tão monstruoso porque não sabemos como pôr um freio na selvageria da guerra ou como controlar a história. Daí o maravilhoso e sempre atual Hiroxima, mon amour… E Paul Celan, e todos os que questionaram a possibilidade de se continuar escrevendo poesia depois do Holocausto?! E eu pergunto: quem tem dominado e comandado a história cheia de guerras monstruosas?… Bom, “guerras monstruosas” é um pleonasmo… (e como se o estivesse enxergando) não é mesmo, Godard?… Mas, voltando à literatura (olha as anotações)… as mulheres,… ao contrário dos homens, ou melhor, diferentemente dos homens, pois não quer dizer que algumas não escrevam romances históricos, é claro,… Eu dizia que as mulheres, que são sexualmente envolventes (com malícia) e amorosamente abraçantes, abrangentes… – engolidoras… são mais… penetrantes, quer dizer, querem coisas mais diretas, e mais curtas, mais emotivas, psicológicas… (hesita) Mas Proust e Dostoievski são imensos psicólogos… Não importa! Digo em geral, em geral… e agora me perdi mas na literatura a gente se perde para se achar, contrariando o samba…
Vai até o aparelho de som e coloca um CD: Homenagem a Luizinho Eça, de Michel Legrand. Ouve um pouco e depois continua.
– Para o grande Luizinho!… Pois é, posso divagar, não importa, pensar não é acertar, pensar é procurar! Se não é sempre assim, nada disso invalida minha observação que, por sua vez,… é também uma pergunta, pois não? Eu não estou provando nada… só penso que os homens, cujo orgasmo costuma ser um espasmo ( ri), enquanto que o das mulheres é oceânico (suspira), criam numa forma de expansão, e nós, que temos uma longa e expansiva explosão, ou uma expansão explosiva, uma explosão em expansão… (ri mais ainda) Pois é, acho que nós mulheres somos mais ou menos “espasmódicas” quando escrevemos… Será uma ideia tão maluca assim? No mínimo… interessante, digamos. É claro que não dá pra generalizar, não. Há o caso das utopias das mulheres norte-americanas: só até os anos trinta, descobriram mais de 200 utopias escritas por mulheres… E ninguém se preocupou em divulgar isso! (Fica pensativa e pega um livro e o abre na primeira página.)
… Mas alguns homens simplesmente me encantam: “O mar está bravo hoje de novo, com uma rajada de vento arrepiante”. A flush of wind… Impressionante, arrepiante, excitante… nunca é fácil traduzir! With a thrilling flush of wind… Ah! Lawrence Durrell! Que maneira perfeita de começar o teu Quarteto!! E adoro aquela frase que está no último volume: “pois o corpo é apenas a periferia do espírito, sua parte sólida…” (repete mais lentamente) O corpo: nada mais seria do que… a parte sólida do espírito que, aliás…
Ouve-se o som de uma mensagem entrando no computador. Ela corre para ler.
– Ah! É ele, o que não parece ter corpo! Mas (surpresa, quase assustada) me mandou um beijo desta vez! Ah!
Chora. Senta-se para responder, mas hesita e não responde. Desliga o computador. B.O.
***
Aparentemente já é a manhã seguinte, porque ela está saindo do quarto, de robe-de-chambre [robe de chambre], e boceja ainda ao se dirigir, um pouco como sonâmbula, ao computador. Os barulhinhos característicos são ouvidos mais uma vez.
– E mais mensagens… de Cláudio e… de Teresa! Viva! Ah! Mas a Eletrobrás já destinou todas as suas verbas… (num crescendo) Merda! Merda, merda, mer-da! E o Cláudio diz que a secretaria considerou minha inscrição perfeita, não falta nenhum papel. Tudo em ordem! Quê que adianta isso? Os papéis estão em ordem, mas cadê o dinheiro? Ah! Haja saco…
Afasta-se do computador e volta a mexer em suas anotações e se surpreende.
Quando foi que eu anotei isto aqui? Da Lou Andreas-Salomé, minha maravilhosa mestra! Lou parafraseando um velho provérbio russo. O provérbio era: “Esfregue um russo e você vai encontrar um tártaro”, e ela dizia: “Esfregue um russo e você vai encontrar um poeta!”. Que maravilha, um povo de poetas… Mas houve Stálin também… Ah! Mas e aquela história maravilhosa sobre Bóris Pasternak dizendo poemas no estádio de futebol… Sim, num estádio! Inacreditável! Parece que o Neruda também andou dizendo poemas em estádios… Mas a história do Pasternak é a de quando bateu um vento nas folhas e o poeta deixou cair também a folha do poema que estava lendo, ficou todo atrapalhado… mas enquanto recolhia os papéis, a multidão – em coro! (pausa emocionada)… continuou a recitar de cor o seu poema!.. Oh, que glória! Que maravilha… Aqui…, bom! Aqui (conciliadora) muita gente sabe as letras das canções populares… Mas, esfregue um brasileiro e você terá um…
(Toca o telefone)
– Alô! Oi! É você, Cláudio? (…) – Que bom! Conseguimos dois espaços para a peça? Mas, meu querido, de que adianta o espaço se não temos dinheiro? Cadê o dinheiro? Quem é que vai dar dinheiro para uma peça que não tem palavrão, sacanagem, que não é besteirol, que não faz rir às escâncaras… Quem é que vai dar dinheiro pra nós? (…) – Talvez se fosse mais picante… Mas eu não sei escrever de outro jeito e, quer saber? Não quero! Prefiro morrer de fome, mesmo… Vou dando minhas aulas e aguentando. (…) – Sim! Aceitamos o espaço para quando tivermos o financiamento. E eles vão manter a oferta? Por quanto tempo? (…) – Claro, não sabemos! Obrigada, Cláudio, vamos em frente! Está certo! Um abraço.
Desliga e continua falando consigo mesma.
– E cai o pano! Pano rápido, como nas antigas piadas da revista O Cruzeiro… de quem?… Não sei mais… Por que é que essa peça não consegue financiamento, meu Deus!? Será mesmo porque não tem palavrão, tão do nosso gosto brasileiro? Porque não tem sacanagem, sexo, trepadas, sexo, sexo e mais sexo… Ora! Sexo nem sempre é o melhor de tudo… E como dizia aquela amiga: depois de uma certa idade… idade incerta… dá muito trabalho: tira a roupa, põe a roupa, não há longos encontros, fins-de-semana [fins de semana]… E justamente o que a gente quer, – na idade incerta – é mais o aconchego, o abraço… Os americanos não estão até inventando os grupos de huddle, ou huddling, de pessoas que se encontram só para o contato carinhoso e NÃO SEXUAL? A orientação é exatamente esta: nada de sexo, puro carinho, abraços, aconchego, ternura, sim! … Porque essa coisa de sexo já saturou. Convenhamos! Chega! Às vezes até penso que melhor do que sexo é beijo, beijo é que é bom, beijo na boca, que, no fundo, na verdade é o máximo da intimidade, uma quase fusão, isso sim é que é deliciosa e ilusoriamente fu-sio-nal, beijo na boca é melhor do que tudo. E por que é que beijo na boca é melhor do que sexo? É… é como se o corpo nas outras partes fosse – mesmo colado, mesmo penetrado ou penetrante… – fosse o corpo do outro… e o prazer, afinal, mesmo quando em uníssono (em uníssono é bonito! E emocionante!), mas o prazer é o meu… e o do outro é o do outro. O beijo, não, o beijo é O outro EM MIM… Será que é isso mesmo? Não sei, só sei que quando as bocas se encontram, se misturam, quando as línguas se tocam, a gente é pura boca, é uma comunhão! (sorri deliciada)… A gente literalmente parece que se alimenta do outro. Taí! Beijo num sentido literal e bonito tem muito mais a ver com comer do que a aquela maneira chula que alguns homens usam quando se referem à transa… O beijo apaixonado alimenta a gente – literalmente!… pois já não disseram que equivale a um bombom de chocolate?! E bombom é bom mesmo! Por definição!… Está decidido: minha peça terá beijos se o diretor quiser, trepada não! E que saibam que isso não tem nada a ver com puritanismo. Tem a ver com gosto e bom-gosto [bom gosto],… coisa antiquada, talvez, mas não importa!
Pequena pausa ou B.O. De novo, escrevendo no computador.
– Cláudio, por favor, não esqueça de procurar firmas paulistas que possuam filiais no Rio. O dinheiro brasileiro é paulista, afinal! E, me ocorre agora, ricos livreiros não gostariam de patrocinar uma peça que fala tanto em livros, como tudo que eu escrevo… A peça não é uma apologia dos livros, da boa leitura, não a chamei até de peça-recital? Abraço,… mas ainda falta, sim, um PS: precisamos saber quais são os livreiros ricos que gostam mais de cultura do que de dinheiro! Essa é boa! Não sei se o Cláudio vai entender… coitado, anda tão cansado que já nem deve ter mais senso de humor!
Escreve mais durante algum tempo e vai largar o computador, mas volta e recomeça.
– Ah! Faltou um email para o amigo que nunca diz se vamos nos encontrar! (E depois de escrever.) E desta vez mando “um beijo grande”! Enviar… E por falar em beijo… como será o beijo na boca do amigo eletrônico, cujo beijo eletrônico, justamente, tanto me comoveu? Um dia desses a gente vai finalmente se encontrar. E aí… quem sabe?
Sai do computador e volta a mexer em papéis.
– Que é isto aqui? Acho que é meu mesmo… Não tem aspas, não remete a coisa alguma, então fui eu que escrevi. Quando? Oh, meu Deus, há quantos anos?! É uma folha da agenda de 1999! E como é que veio parar aqui? (Lê.)
“Foi o machismo que, criando o mito da mulher pura, excluiu da decência o prazer e a alegria!” La-pi-dar!! Isso dá pano pra manga, ou dava… (Continua lendo.). “A liberação não consiste em reconhecer em cada mulher uma prostituta – esse é outro mito, subproduto do primeiro.” [o bold é mesmo necessário?] Sim! Ainda penso assim. Tanto é mito a mulher pura – quer dizer, purificada do prazer, não é? (ri com ironia) – quanto essa ideia grosseira de que toda mulher na cama é uma puta, por que puta? Por que não um ser simplesmente capaz de prazer… e o homem é o quê? Homem que (enche a boca) gosta de mulher! (Eles adoram dizer isso!) Tanto um quanto o outro fomos feitos para o prazer, ora! Só que alguns confundem prazer com sordidez e outros, ou outras, identificam o prazer com alegria. O sexo pode ser uma coisa luminosa! Tudo depende é da nossa imaginação! Eu diria que em toda mulher pode existir, sim, um pouco da cortesã, nesse prazer que temos dos banhos de espuma, do cuidado com as unhas, com os cabelos, com a pele, esse tornar-se atraente para o homem e também para qualquer pessoa, para as amigas, para nós mesmas, esse antiquíssimo, cleopátrico cultivo do corpo, da aparência, não como… oh, céus!… não para mutilar, cortar, esticar até a deformação, pela cirurgia, não! (Faz o gesto de esticar a cara até parecer uma chinesa.) Ah! E não esqueçamos o que o grande cineasta português – que tem 97 anos – disse a um entrevistador que, com a típica cegueira brasileira, se queixou da velhice de mulheres como Catherine Deneuve e Irene Papas no último filme dele: “A idade na mulher pode atenuar a beleza mas ganha uma força que a beleza duma jovem ainda não tem”. Mas eu estava me referindo ao gosto do asseio, do perfume, da roupa chique e harmoniosa, o aprumo, o… aplomb, a graça feminina, o prazer de ser uma mulher cuidada, soignée, isso sim! Nada de natureba! E nada de chinelo de dedo metido a sandália! Artifício é arte, ora! Um pouco como as cortesãs, por que não? Ainda mais que a história registra cortesãs inteligentíssimas, poetas, musicistas…
Vai para o computador. Entra uma mensagem.
– Ah! Ele, de novo! Pois desta vez vou sugerir que venha à minha casa para um drinque. Só preciso dar a impressão de que não estou com muita pressa (e, como uma confidência), não se deve ir com muita sede ao pote… (escreve) “Quando você puder, quem sabe na próxima semana…”. Pronto! Só quero ver a reação!
B.O.
Quando a luz retorna, ela está outra vez chegando em casa, com as pastas, e faz os gestos habituais. Joga-se numa poltrona, tira os sapatos e depois se arrasta até o computador. Liga. Barulhinhos característicos. Entram mensagens.
– Notícias do financiamento? (Lê.) “Temos ou teremos o apoio de dois restaurantes, uma loja de sapatos, uma de tecidos, já garantimos alguns móveis da…” (e, impaciente e irritada) Mas e o grosso do dinheiro, pessoal, cadê? Eletrobrás, Petrobrás, Telemar etc. Cadê o apoio à cultura, senhores?! Cultura? Agora temos festa do livro, é verdade! Um espetáculo midiático e tudo! Mas será que aquela gente toda que vai à Bienal do Livro, por exemplo, lê mesmo? E quando lê, como é que lê? Lê o quê, além de best-seller? (Toca o telefone.)
– Alô! Oi Suzana, quanto tempo! Eu estava justamente pensando na Bienal do Livro. Mas não vou, não! (…) – Não, não vou! Muito cansativo. E estou sem dinheiro… pra variar! E você sabe que eu detesto badalação, multidão, aglomeração… Pode dizer que estou ficando velha. Não vou mesmo! (…) – Obrigada, minha amiga. Depois você me conta! Um beijo. (Desliga.)
(Sempre falando sozinha) – O livro virou uma outra coisa! Ah! Quando os livros mudavam a vida da gente, abriam a nossa cabeça, nos transformavam… Todos ficamos proustianos e fizemos experiências proustianas depois de ler Proust, todos ficamos rosianos depois do Grande sertão! E aprendemos que “viver é muito perigoso!” E que deslumbramento foi ler as Primeiras estórias! (evoca) “As coisas que estão para a Aurora são antes à Noite confiadas!” (pausa para que a frase ressoe) e… “Era outra vez-em-quando a Alegria!” Frases que se incorporam à nossa alma… (reflexiva). Taí! Criei uma coisa: frases que dão corpo à nossa alma… Citações que nos definem, nos dão figura, nos con-figuram… Por isso eu gosto das ousadias do Godard, que mistura o seu cinema com literatura. Porque a literatura faz parte da vida, ora! Afinal, de que trata a literatura? Não é da vida? Das coisas da vida? Pra mim, Madame de Rênal, Diadorim, Hamlet, D. Casmurro e a Elizabeth Bennet de Orgulho e preconceito, e milhares de outros, são pessoas e… os próprios livros são entidades vivas. E eu morro de inveja dos russos, que convivem desde cedo com a poesia, que sabem poemas de cor, que conhecem música e cantam a duas e três vozes espontaneamente… Por que não temos música nas escolas? Por que não transmitimos o gosto pela poesia? Criança gosta de recitar! Gostava… antes dos jogos eletrônicos de matar, destruir, derrotar, eliminar…
Toca outra vez o telefone.
– Alô! Oi, Lúcia, como vai, amigona? (…) – Não. Suzana acabou de me convidar, mas eu não vou, não. (…) – Muito obrigada. Você também estava muito bem naquele dia… Como diz aquela nossa amiga do Sul, estamos na idade do “que bem tu estás!”, sim, porque já poderíamos estar péssimas! (Dá uma gostosa gargalhada.) (Longa pausa enquanto a outra fala.) – A peça? Não! Nada ainda! (…) – Há quanto tempo? Deixe-me ver: acho que entregamos os papéis na secretaria e mandamos para o ministério há… há um ano e meio, sim, no mês que vem, um ano e sete meses… (…) – Bota angústia nessa espera! Nem gosto de falar! (…) – Deus te ouça! O deus brasileiro que parece não querer nada com a minha peça ou com a cultura menos popular! (…) – Obrigada. Um beijo. Até mais!
(Desliga e volta a falar sozinha, divagando um pouco.) Voz bonita, a da Lúcia. Uma voz parecida com a da minha mãe que, como diria Colette, tinha “um timbre de voz que o ouvido acolhia com gratidão”. Como é importante a voz! Alguns músicos – não me refiro a cantores –, mas também a pessoas musicais que nem precisam ser músicos, há pessoas que têm vozes magníficas. Lembro que uma vez atendi um telefonema e a voz que ouvi, aquele timbre extraordinário da voz de Edu da Gaita me deu calafrios eróticos… Sim, calafrios porque chegava a ser assustador, envolvente e fascinante… E eu me lembro de uma crônica do Paulo Mendes Campos sobre “O milagre da voz”: num dia em que tomou LSD, assistido por um médico, e foi tratado com deferência e carinho por todo mundo porque sua voz, sob o efeito da droga, tornara-se [sug. se tornara] doce, melodiosa… envolvente, mágica, mas acho que a voz dele já devia ser bonita… algumas vozes nenhum LSD melhora. Também já observei que os cegos, em geral, têm lindas vozes. Quem sabe um bom treino para essas pessoas de vozes esganiçadas, irritantes, que falam tão alto nos restaurantes, seria o de falar uma hora por dia com os olhos fechados… Quem sabe, quem sabe assim aprenderiam a se ouvir e a respeitar a si mesmos e aos outros?
(Toca a campainha do interfone. Sai resmungando: Hoje está demais. [por que o bold?] Vai à cozinha e ouve-se sua voz atendendo.) – Correspondência pra mim? Ponha no elevador que eu apanho aqui. Obrigada!
(Abre a porta, sai e volta abrindo um envelope grande instantes depois.)
Da Petrobrás! (Acaba de abrir e ver de que se trata.) Devolução do projeto e cartinha explicativa. Muito gentis. Mas é mais um Não que recebemos pela proa… Que merda! Será que ainda é preconceito contra as mulheres? Como é que sempre sobra dinheiro para shows milionários, competições internacionais que só podem ser caríssimas,… (vai se irritando e a voz cresce) E praquelas invasões bárbaras nas praias do Leme e de Copacabana, aquelas armações horrendas, aquele barulho infernal que massacra os pobres moradores da orla… oh, céus! E a minha peça só tem quatro personagens, quase nenhum cenário – pode até ser sem cenário! – e não se consegue um tostão…
(Vai até os CDs e coloca um no aparelho.)
Pois até me deu vontade de me consolar com a música de uma mulher, essa francesa que morreu paupérrima… Pobre companheira Germaine Tailleferre.
(Sente um calafrio. Senta-se calmamente. Ouve-se durante uns 20 segundos o início do quarteto de Germaine Tailleferre.) B.O.
Barulhinhos de emails entrando… Outra vez diante do computador: Quais as novidades? Ah! O amigo eletrônico num email bem simpático! Sim… aceita o convite para tomar um drinque aqui na minha casa! Maravilha! Até que enfim! Só que, bem carioca, não marca data nem hora… Agora cabe a mim, naturalmente. Mas não vou me apressar. É. Vou sugerir daqui a uma semana para que ele não pense que… estou… como é que é? Ah! sim, para que não pense que vou com muita sede ao pote!… (brincando) Preciso consultar a minha agenda… (Suspira profundamente, depois dá de ombros, afasta-se e volta a mexer na pilha de papéis.)
Que é isso? Esse papel velhíssimo, amarelado… Reunião de 20 de maio de 1985! É uma ata? Mas a gente não fazia ata! Ah, já sei, eu anotei pra não esquecer a terrível constatação daquele dia na casa da Celina! Agora sei o que é! Chamemos de “Dramático documento histórico do nosso grupo feminista”: Éramos dez mulheres numa das reuniões habituais das sextas-feiras e alguém, acho que foi Luíza, sugeriu que, como exercício, tentássemos lembrar se tínhamos tido alguma experiência desagradável do que hoje se chama “abuso sexual na infância”. Na época em que falávamos em “tarados”… Pois veio à tona a tenebrosa constatação: todas nós – as dez! – tivemos um tio, um avô, um amigo da família, um empregado que se aproveitou de nossa inocência e ignorância infantil, deixando uma marca indelével, um trauma para sempre. Um horror! Todas tivemos esse horror como uma pré-iniciação sexual! Que azar! E hoje-em-dia [hoje em dia] é pior: acontecem coisas muito piores, muito mais graves… a pedofilia… (sai e volta com um pequeno dicionário) Deixa eu ver o que diz o meu pequeno Larousse de psicologia… (olha as primeiras páginas procurando o ano de publicação do dicionário) Ah! Mas este dicionário é de 1970, e o mundo de lá pra cá mudou e piorou muito, nesse aspecto só piorou… Mesmo assim, quero ver o verbete dessa coisa nojenta que é a pedofilia! (Encontra o verbete e lê.) – “Do grego… etc., perversão sexual que consiste na mórbida atração erótica de um adulto por crianças. – O pedófilo, em geral retardado mental, inibido ou neurótico, se sente em estado de inferioridade em face da mulher adulta e procura parceiros sexuais à sua altura, quer dizer, crianças de um e de outro sexo.” Bull shit! “Parceiro sexual”?… Como é que se chama de parceiro alguém que não sabe o que está acontecendo? E os padres norte-americanos que a Igreja acobertou durante décadas… são todos retardados mentais, que se sentem inferiores às mulheres? Para a Igreja, a mulher, sempre foi a “ocasião do pecado”! E eu sempre me perguntei: e para a mulher, quem é a “ocasião do pecado”? Mas, voltando ao caso, ao abuso das crianças, à pornografia infantil na internet, ao turismo sexual infantil no nosso país… Por que não fazemos um movimento nacional de defesa da inocência e da beleza? Sim, da beleza… Ah! como é linda a crônica de Clarice Lispector “A descoberta do mundo”, que devia ser tema de redação em todas as escolas. Ela diz o essencial (e ela estava se referindo apenas à violência verbal das coleguinhas que não sabiam nada e nos ensinavam tudo errado nas conversas da hora do recreio…) (Sai e volta com o livro já aberto e lê.) – “… sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e seus mistérios.” (Pausa.) – Nós, aquelas dez mulheres do grupo, nós passamos por isso… e milhares de outras!… Ah! Adoro o que ela diz agora. (Continua lendo.) “Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita.” É isso! A vida é bonita! O amor é bonito… é poesia! A invasão bárbara da pornografia está matando, assassinando a… a poesia! Ah! A poesia de uma Colette, que escreveu… eu não sei em que livro, nunca sei em que livro, pois li há tantos anos… mas nunca esqueci porque é lindo demais. (Quase declama.) “Gosto dos beijos que vem [vêm] de cima, aos quais ergo a cabeça como à espera de uma saborosa chuva de verão!”… Eu insisto em dizer que a exposição exacerbada, exagerada, estúpida do sexo é a morte da verdadeira sensualidade… Sen-sua-li-dade… palavra muito mais ampla e muito mais bonita!
O computador anuncia mensagem. Ela vai olhar.
– É do Cláudio. Ah! A Eletrobrás também rejeitou o projeto e ele está mandando mais um para a Vale… (sem muito entusiasmo) Pode ser, pode ser… não percamos as esperanças…
Entram outras mensagens.
– E esta é da Teresa. Oh, meu Deus, mais uma notícia da falta de dinheiro do Ministério da Cultura e convida para uma manifestação! E esta aqui é de um poeta me convidando para a mesma manifestação diante do ministério! Ah, meu caro, só vou em espírito… (faz gestos com as mãos como que espargindo fluidos e começa a escrever) e mando toda a minha solidariedade! Tradutores também preparam uma manifestação, mandou-me dizer uma colega… E você sabe quanto vale em nosso país a lauda de um tradutor? 10, 12 reais! Isso é um escárnio! Por isso há tantas traduções feitas às pressas, desatentas… para dizer o mínimo… O pessoal de um museu entrou em greve… com toda a razão! Outro museu pede socorro… metade do pessoal não pode dar conta do trabalho… Bem disse aquele poeta, Alexei Bueno: “enquanto monumentos históricos inigualáveis, inimitáveis caem ou são simplesmente demolidos… os poderes públicos realizam a sua única obra faraônica no campo da cultura, (com graça e ironia) o tombamento do acarajé! [bold?] B.O.
Chegando em casa como das outras vezes, os mesmos gestos mecânicos. Liga logo o computador.
– Mas cadê o moço que não escreve? Agora sim, faz vários dias. É tão estranho! Houve um momento de grande intensidade em nossa correspondência: chegamos a mandar um pra o outro [Rachel, isso está difícil de pronunciar] várias mensagens no mesmo dia… e agora… nada! É o estranho silêncio do computador… – Ah! Compiuter, compiuter! Você é um filho-da-piuter, que nos deixa em agonia porque instaura um tempo-outro, aceleradíssimo e aparentemente fora do Tempo… exatamente porque é outro, mas, na verdade, é dentro do tempo comum, cotidiano, rotineiro e ordinário que tudo isso se dá, que isso acontece! E é uma piuter contradição, contradição sem solução, sem síntese. As únicas sínteses são os momentos – muito esporádicos – de “epifania” (com ironia) de revelação gloriosa, quando uma ou outra palavra nos comove. (Pausa.) Mas por outro lado, é uma glória! Porque a tal de correspondência eletrônica – técnica, virtual… distante… é ao mesmo tempo próxima, sim, mágica, secreta, única. E é preciso saber aproveitar, fruir, gozar!… como Fernando Pessoa, fumando, no poema “Tabacaria”: [tirar a linha]
(Finge que está fumando.)
“Sigo o fumo como uma rota próxima / E gozo, num momento sensitivo e competente / A libertação de todas as especulações…”
(Examina o computador.)
– Cadê o moço? Isso me faz pensar em outras experiências, em todas as vezes que fiquei me perguntando “que é que eu fiz de errado?”. Que merda! Tenho horror desse sentimento de culpa, de dúvida, de dúvida culposa, de culpa duvidosa ou dubitativa que o interesse no outro provoca… Que raiva! Por que não pode ser mais simples, mais transparente, mais tranquilo? Por que é que não se pode dizer exatamente o que se pensa e o que se sente para esse outro que se quer seduzir, conquistar, amar, sei lá… Ah, pensando bem, é justamente porque há o querer seduzir e conquistar… Voilà! Por que há este tempo preliminar da conquista ou do namoro que é uma batalha… uma luta cheia de pequenas estratégias e artimanhas… blefes, como no jogo de poquer [pôquer], pequenos engodos, enganos, artísticas mentirinhas… Ora! Mas como é cansativo! Por isso tanta gente se fecha em relação ao amor… é muito trabalhoso! E lembro aquele jovem por quem quase me apaixonei, que ora se mostrava envolvidíssimo, ora se esquivava e desaparecia, sempre se atrasava, ou não chegava, me deixava louca porque era totalmente imprevisível… até que descobri que ele era alcoólatra! E é evidente que a única coisa previsível de um alcoólatra é a sua imprevisibilidade! E por falar em atraso, este hábito tão brasileiro, cheguei a criar uma teoria para convencer meus alunos de que chegar atrasado (ri) é um assassinato! Além de ser coisa de terceiro e quarto mundo [mundos]. Pessoas civilizadas não se atrasam! A pontualidade… C’est la politesse des rois! Mas não era isso que eu dizia. (Toma um ar professoral exagerado.) Eu dizia: que é que nós somos, nós, os humanos? Nós somos tempo! Sim, desde Heráclito, chegando a Heidegger… somos essencialmente Tempo! É simples: que é que nós temos nesta vida que seja realmente nosso? Propriedades, dinheiro, joias, obra? Nada! Só temos de realmente nosso o Tempo de vida que temos, o Tempo que vivemos… Portanto, somos isto: somos apenas o Tempo que temos… até… não termos mais tempo nenhum. Depois da morte é o não tempo da Eternidade… não é? Logo, continuemos: quando alguém me faz esperar e tira de mim o meu tempo [bold?], na verdade está tirando a minha vida… Tempo de vida é vida… Bom! (com graça e muita ironia) Conclusão rápida: logo,… o atrasado é um assassino! (Dá uma gargalhada.)
O computador dá sinal de email.
– Vejamos! Ah, mais uma dessas mensagens de pseudofilosofia, dessa banalidade pretensiosa, dessa platitude… É uma praga quase tão desagradável quanto o som dos celulares e a alienação da maioria dos celularizados… Por falar em celular, nos teatros é um escândalo! Gostei daquele maravilhoso ator inglês que veio dizer – divinamente – trechos de Shakespeare… Pois não é que tocou o celular de um miserável… E ele, com a maior categoria e agilidade mental, interrompeu Shakespeare e disse “É para mim?”.
Afasta-se do computador, serve-se de uísque, pega uns papéis e senta-se na poltrona. Na tela do fundo, uma imagem de Veneza…
– Olha aqui! Achei a última página daquela história do casal de Veneza… (Lê.) “Foi naquele momento, quando ele disse que não ia comer coisa alguma – pra não gastar! – depois de um concerto belíssimo no La Fenice, e estando em Veneza naquela linda noite de outono, romântica e misteriosa, quando ele não a deixou sequer tomar um copo de vinho tinto para acompanhar o delicioso rigatoni que a ajudaria a engolir todas as lágrimas que queria chorar e não podia… foi então que ela percebeu com toda a nitidez que aquele homem não a merecia e ali mesmo, sem dizer nada, decidiu deixá-lo para sempre. Finita la opera! E assim o fez, de fato. De volta ao Rio, chegando em casa, ela nem sequer desfez as malas, apenas disse sem alterar a voz e sem hesitação: Eu vou embora!”. Mas preciso escrever de novo. Está muito mal escrito! Talvez fosse só um esboço…
Pequena pausa. Música medieval: Carmina Burana original. Encontra uma [sug. tirar] outra página que a interessa.
– Hum, e isto aqui é muito bom! Que é que as mulheres querem e Sir Gawain… É para acabar com a famosa pergunta de Freud sobre o que, pelos séculos afora, os homens sempre acharam tão difícil de compreender. Pois a resposta já estava no relato do “casamento de Sir Gawain”, o sobrinho do rei Arthur da Távola Redonda… numa lenda do… do século XII. (Refletindo.) E pensar que o Brasil só foi descoberto no século XVI!… (Lê.) “O rei Arthur fora desafiado por um barão a encontrar, no prazo de um ano, a resposta à pergunta que tanto inquietaria Freud séculos mais tarde: ‘Que é que as mulheres querem?’. Se no tempo determinado a resposta não fosse encontrada, Arthur teria de se casar com a irmã do misterioso barão, uma bruxa velha, feia e asquerosa. Esgotou-se o prazo e as mais diversas respostas encontradas não satisfizeram o desafiante. (Uns diziam que eram a riqueza e as joias, outros, o prazer, outros, os filhos…) O rei Arthur teria se casado com a bruxa, mas Sir Gawain, seu nobre sobrinho e Cavaleiro da Távola, veio em seu socorro, oferecendo-se para cumprir o castigo em seu lugar. Bodas secretas foram celebradas. E na noite de núpcias, quando Gawain, mal disfarçando a repulsa, se dispõe a consumar o injusto casamento, eis que a asquerosa bruxa se transforma em uma belíssima donzela, que se apressa em adverti-lo: se a preferir jovem e bela durante a noite assim a terá; durante o dia, porém, voltará a ser a bruxa horrenda. Se, ao contrário, a quiser bela durante o dia, terá de deitar-se todas as noites com a bruxa. Sir Gawain diz que a prefere em sua bela forma à noite, mas ela argumenta que pessoalmente seria mais feliz se todos a pudesem [pudessem] ver jovem e bela durante o dia. Após rápida reflexão, confirmando sua nobreza, Gawain cede-lhe a vontade. E é a partir daí que o feitiço se desfaz e a bruxa desaparece para sempre, dando lugar à donzela em todo o seu esplendor, o que demonstra que o que as mulheres querem é… Que a sua vontade seja respeitada! [bold?] (Dá uma gostosa gargalhada.) No século XII já se sabia! Que aconteceu depois? Esqueceram? Bom, é na Idade Média que pouco a pouco vão se formar os futuros inquisidores (e, com malícia) ou “Guardiães da Fé”… Tanto que a maravilhosa compositora/cientista/filósofa/teóloga, tudo! Hildegard de Bingen, que viveu no século XII, pôde estudar, compor, ser uma pregadora, amiga de bispos e papas; a mulher tinha uma visão-de-mundo [visão de mundo] avançadíssima, já falava em universo em expansão!… Mas logo depois, no final do século XIII, o papa, um tal de Bonifácio VIII, confinou todas as freiras nos claustros e impôs-lhes [lhes impôs (eufonia)] o silêncio! E ficamos em quase total silêncio por muitos séculos… Eles adoravam a Nossa Senhora… do céu, mas as mulheres da terra… B.O.
Chegando em casa outra vez ou saindo do quarto.
– E esse financiamento que não chega e eu me sentindo tão mortal… Mas algum dia… alguma alma generosa vai se interessar pela minha peça e vai montá-la… Sim, vai montá-la com muito respeito (com ironia), procurando ser fiel à autora há séculos desaparecida… Taí! Lembro Baudelaire no seu terrível poema “Une charogne” – “Uma carniça”, que o danado escreveu como uma canção pastoral… ou é pastoril que se diz?… Não importa! O que importa é que diante da morte ele fala na permanência da Arte. (Recita.) (E ouve-se, ao longe, ao mesmo tempo, o início do quarteto de Schubert: A morte e a donzela) “E você, ó minha bela / diga aos vermes / que vão comê-la de beijos / que eu guardei a forma e a essência divina / dos meus amores decompostos”… quer dizer, do meu amor apodrecido! (Faz uma careta.) O poeta guarda, salva, preserva… a forma e a essência divina de tudo, essa é a certeza de alguns, essa é a certeza de Hilda Hilst quando diz (Se anima.) “No coração, no olhar / Quando se tocarem / Pela primeira vez / Aqueles que se amam // Eu estarei…” Ela certamente estará. A grande poeta estará sempre entre os vivos. (Volta a declamar.) “Eu estarei… / Nas madrugadas / Pela primeira vez // Em amor // Tocada.”
O amor vence a morte! O amor é mais forte do que a morte. Arte é amor… E o amor não existe, o amor é um mito que move “o sol e as outras estrelas”… Mas não move os patrocinadores para uma peça tão inteligente! E em termos humanos, ó Proust!, é a grande ilusão! Uma ilusão que pode levar ao crime passional também, é claro… É, como diria Pessoa: é o nada que é tudo, pois “o mito é o nada que é tudo”… que faz e acontece e faz acontecer… E quando o amor acaba – sim, porque acaba mesmo, como tudo… pois é, quando acaba o outro fica nu, sem qualidades, só com seus pobres defeitos, com suas pobres fraquezas e falhas… fica um simples ser humano nada especial. E ainda há aquela velha piadinha: no início era “meu bem”, no fim é “meus bens”… E é preciso lembrar que existe o velho ditado medieval: “Quem casa por amor, tem boas noites e dias péssimos”. Quer dizer, numa época em que o casamento era nada mais que um bom negócio, não se podia viver de brisa… Aliás, o casamento só se tornou um sacramento no século XIII!! Deixa o casamento pra lá! Quando a gente está apaixonada, casada ou não, aquele pobre ser humano é bonito, é sensível, é inteligente, simpático, atraente… irresistível!… um quase deus! Bom! Ainda bem que essa ilusão existe e a gente por algum tempo vive a maravilhosa fantasia… Só não se pode é institucionalizar, oficializar, casamentar a fantasia… Como dizia Lou Salomé: não se pode domesticar uma tempestade, porque é uma tempestade! E se Proust entrasse nesta conversa, diria que é uma tempestade criada pela nossa imaginação! Sim, eu sei, é uma verdadeira revolução… É um apocalipse: o mundo todo desaparece para que o outro reine, impere, domine… E quando a revolução se instala, que é que acontece?… A ditadura! O totalitarismo! Ou não? Amar é ótimo! Casar? É outra coisa muito diferente: negócio, procriação, família, acomodação… É a morte da liberdade, da independência, da solidão tão necessária para salvaguardar, se não a nossa criatividade, ao menos a nossa sanidade… Quais são as estatísticas hoje? 50% dos habitantes de Amsterdam vivem sozinhos! 40% dos nova-iorquinos também! Olha que 40% de nova-iorquinos é gente pra burro! Mas neste momento, não tenho nenhuma coisa, nada: nem uma coisa, nem outra. E nem o merda do patrocínio… Estou neste deserto… na intransponível demora…
Sinal de email no computador. Vai olhar.
– Mas não é possível! A Vale também já distribuiu seus financiamentos até o ano que vem… Que merda! Só falta qual, agora? Quem…? (Grita, dramática.) Quem? (Suspira fundo.)
Mas vê outra mensagem e faz [abre ?] um largo sorriso.
– Ah! Mas o amigo eletrônico reapareceu também! E sugere uma data pra me visitar! Nem tudo está perdido, então! Ao menos isso! Quem sabe… uma pequena esperança. Mas lá vem Clarice na minha cabeça: “Você sabia que às vezes a esperança é uma pergunta sem resposta?” (fica pensativa)… Hum… vou dizer que pode ser na quarta-feira… assim, no meio da semana, com naturalidade (ri, satisfeita), quer dizer, com a mais perfeita artificialidade.
Novo sinal de email entrando… ela olha e começa a rir. Ri, ri muito e quando consegue parar, diz.
– Ah! Essa minha amiga espanhola me mata com as piadas. Ora, vejam só! Um suposto novo sistema antirroubo de automóveis tem um macaco, um macaco de verdade escondido no carro e quando o assaltante está começando a fazer a ligação direta, o macaco chega de mansinho por trás e dá-lhe uma paulada na cabeça… (ri muito) arrasta o homem pra fora do carro e joga-o, por cima de uma ponte, num rio… É um macaco muito forte! É incrível! Gozadíssimo! Taí! Percebo que rir é gozar, é um enorme prazer… daí engraçado ser sinônimo de gozado, sim, é isso, é claro! Porque é um gozo! Rir é um gozo!… Vai ver que é por isso que o nosso público só quer rir no teatro e no cinema… porque, afinal, o país está na merda há tanto tempo que só nos resta, como às hienas… rir! (Pequena pausa.) Portanto, logo… quem não escreve coisas engraçadas está f..f.. (não chega a dizer porque… o telefone toca.)
– Alô! Oi Teresa… sim, já soube. É um saco! O que é que se pode tentar agora? (…) – Mas você disse que eram só quatro personagens? (…) – Entendo. Só que eu não acredito que as verbas tenham sido todas aplicadas. Isso é lorota! Não gostaram foi… (…) – Está bem, amiga. Está bem. Eu bem que tento não desanimar. Vamos ver se nos ocorre mais alguma ideia… (…) – Obrigada! Até mais! Um beijo.
– Ai! Até quando? Até quando? Bom, já sei! Minha próxima peça não vai ter nem quatro personagens, vai ter só dois… Não, não! Um! Sim, um! Vai ser um monólogo! (Vai se sentar para escrever, mas antes se serve de um uísque e coloca um CD no aparelho. É uma das faixas da Homenagem a Luiz Eça.)
(Senta-se e começa.)
“Monólogo em um ato.” Afinal, monólogo é o que combina com a nossa época de individualismo exacerbado, de… dessa condenação à solidão. Se Sartre disse que estamos condenados à liberdade, subentendeu também, é claro, que estamos condenados à solidão.
– Bom! Monólogo em um ato. Personagens: Mulher e… e computador! Sim…
(Hesita. Levanta, sai, volta e senta-se de novo. Recomeça.)