SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE JÉRÔME CREEL (OFCE & ESCP EUROPE)

Formulação de pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora, uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é,  uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto, caracterizado pela ignorância, ganância e maldade, destes que nos governam, seja a nível regional seja a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!) com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal

aqui vos deixamos a resposta de Jerôme Creel escrita expressamente para este blog, facto que muito nos sensibiliza e que abertamente agradecemos .

Jérôme Creel é professor de Economia em ESCP Europe desde Setembro de e 2007 et director-adjunto do departamento de estudos do Observatoire Français des Conjonctures Economiques, desde 2003. É encarregado de curso na Universidade de Paris-Dauphine desde 1993 em Sciences Po desde 1999.

Os seus trabalhos incidem sobre as políticas económicas conduzidas na União Monetária e mais particularmente na zona euro, incluindo o estudo da coordenação da política monetária e das políticas orçamentais.

Quatro lições e um enterro a propósito do futuro do euro

Jérôme Creel (OFCE & ESCP Europe)

O debate lançado recentemente por Júlio Mota refere-se ao futuro do euro e em sentido mais lato refere-se ao futuro da própria União Europeia assim como ao projecto de construção europeia. No estado actual dos tratados e do funcionamento da União Europeia, será ainda pouco afirmar que as questões de estabilidade e crescimento, deixam muito a desejar. A economia da zona euro está em recessão e a estabilidade de preços não foi o suficiente, muito longe disso, para garantir a estabilidade financeira e a estabilidade económica: a grave crise financeira que vivemos desde 2007 conduziu a um aumento acentuado da taxa de desemprego e a um aumento da exclusão. Daqui retiram-se imediatamente duas lições. Por um lado, o euro não protegeu a zona que o adoptou de uma crise financeira e bancária, sem precedentes. Por outro lado, a política monetária é insuficientemente eficaz: os remédios dados à crise, em especial as menores taxas de juros, não produziram a recuperação esperada, ou quando ocorreu, como nos Estados Unidos, esta provou-se ser uma recuperação económica sem haver mais emprego. Como no-lo lembra Joseph Stiglitz no seu último livro (Le prix de l’inégalité, Éditions Les liens qui libèrent, 2012), a baixa nas taxas de juro praticadas pelos bancos centrais não foi condicionada a um renascimento de créditos para as PME. Em última instância, os bancos foram subvencionados pelos bancos centrais e melhoraram as suas rendas de situação, sem nenhum efeito real significativo sobre a economia. …

A crise da zona euro acrescentou à crise financeira a crise dos desequilíbrios persistentes nas balanças correntes que enfraqueceram as economias abertas, como é o caso de Portugal. Daí que continua a verificar-se que se os remédios dados a esta crise específica, incluindo as reduções de salários, das pensões e dos empregos públicos, na fase de desaceleração económica, têm reduzido bastante mecanicamente os atuais desequilíbrios das balanças correntes das economias periféricas da zona euro (as importações diminuíram), a ausência de política nos outros países igualmente abertos, mas com excedentes estes últimos, como a Alemanha, fizeram incidir exclusivamente o fardo do ajustamento às economias já enfraquecidas pelas crises: quis-se aliviar o doente, pela aplicação de uma sangria , aqui a contracção orçamental, uma prática que a medicina já abandonou desde há vários séculos, abandono esse que se deu com grande benefício para os pacientes! Uma terceira lição destas crises é a evidência que as contracções orçamentais tem efeitos… de contracção sobre a actividade económica. Encontramos-nos aqui com estes eventos infelizes a confirmação de que “as contracções orçamentais expansionistas ” tão caras a F. Giavazzi são, na melhor das hipóteses, um mito.

O que fazer? Existe, evidentemente, a saída pura e simples da zona euro, para países como a Grécia ou Portugal, países que têm uma enorme dificuldade em suportar as curas liberais que lhes são impostas ou que eles próprios se auto-impõem liminarmente. Vejo poucas vantagens nesta saída e, acima de tudo, vejo muitos inconvenientes, incluindo a queda do valor externo da moeda em economias que importam muitas mercadorias e, em seguida, terão o imparável aumento dos preços. Eu duvido que estes aumentos nos preços dos bens de consumo sejam seguidos pelo aumento dos salários, ou mesmo dos lucros, em todos os sectores que não o da distribuição. A queda do poder aquisitivo e da actividade económica será certamente vertiginosa .

As vantagens bem conhecidas da saída da zona euro consistem no facto de se recuperar uma política monetária e uma política cambial, ambas autónomas. Serão estas suficientemente eficazes para relançar a economia? O período de baixas taxas de juro que se tem conhecido na zona euro depois de 2003 levou a bolhas, imobiliária e bolsista, e não produziu nenhum crescimento sustentável. O que é que irão gerar estas baixas taxas de juros , as mesmas bolhas e a mesma subida vertiginosa das desigualdades? Imaginemos que o período de desendividamento tenha acabado, para que é que serviria endividar-se de novo? Antes de pensar em levar a economia para uma trajectória de equilíbrio através da utilização de uma política monetária e cambial, é necessário, sem nenhuma dúvida, começar a reflectir sobre o tipo de equilíbrio que se pretende atingir. Para este efeito, podemos imaginar uma sociedade cujo nível de vida melhora, na qual as desigualdades se atenuam, dinamizada pela criação de infra-estruturas de qualidade e pelas inovações tecnológicas que, por seu lado, conduzem a uma melhoria da produtividade. Um lugar onde é bom viver e onde é bom ser-se empreendedor e trabalhar. Definição sucinta, ingénua e questionável, sem dúvida, de uma sociedade vista de forma ideal, perfeita. Admitamos que assumimos as suas fraquezas. O que é que pode fazer a política monetária para promover a convergência em direcção a esse estado ideal? Para além de acompanhar a economia, eu não vejo que possa de modo algum promover essa convergência. Isto significa que ela deveria colocar-se ao serviço dos objectivos que excedem claramente as suas competências. É, portanto, a um enterro que nos convidam: o de uma independência excessiva dos bancos centrais. Comecemos, pois, por mudar a hierarquia das políticas económicas: em vez de subordinar as políticas orçamentais e fiscais à política monetária, subordinemos a política monetária às duas primeiras! Que os bancos centrais mantenham baixas as suas taxas de juros e por um período de tempo suficientemente longo para permitir que os governos ponham em marcha planos para melhorar as infraestruturas públicas e a inovação , o que irá acelerar a iniciativa privada. As condições de sucesso de uma tal mudança institucional certamente exigem uma mudança da prática dos governos: mais do que andar a apresentar contas sobre conceitos que dão para tudo (défice público) ou então que são de tal modo abstractos (défice estrutural) [que dão para quase tudo[1]], devem-se-lhes exigir sobretudo contas sobre a dimensão produtiva das suas despesas públicas e, mais ainda, devem-se-lhes exigir igualmente contas sobre a progressão efectiva do seu sistema fiscal!

Eu prometi acima uma quarta lição. Ei-la pois e esta vem-nos da macroeconomia. Este ramo da economia desde há muito tempo que defende os méritos da coordenação das políticas económicas, apesar dos ganhos por vezes muito fracos constatados e isto relativamente aos equilíbrios alcançados de forma descoordenada. Estes pequenos passos dados no sentido de melhorar, mesmo marginalmente, a situação de todas as partes envolvidas, permitiriam que nos aproximemos da sociedade que estava a descrever mais acima.

Esta lição que se aplica às políticas económicas e às condições estruturais que seria conveniente colocar em prática numa zona euro que se quer perene, vale igualmente para os debates gerados pela situação actual. A iniciativa do Júlio Mota de coordenar um debate europeu sobre a saída da zona do euro é um destes pequenos passo na direcção certa. Parece-me que o mesmo pode ser dito do debate que o OFCE levou a cabo com o instituto IMK na Alemanha e com o ECLM da Dinamarca, por iniciativa do grupo S&D do Parlamento Europeu. Este debate deu origem a um primeiro relatório intitulado Independent Annual Growth Survey (IAGS 2013). O relatório recomendava, nomeadamente, que se atenuassem imediatamente os esforços de contracção orçamental em praticamente todos os Estados-membros da zona euro, incluindo a França e a Itália, em pleno acordo com os tratados em vigor. Um outro pequeno passo na direcção certa, na minha opinião, mas considerado muito tardiamente pelos governos e pela Comissão Europeia. No entanto, nunca é tarde demais para salvar as economias da zona euro e colocar o euro acima dos mercados! Então, « comments welcome », os comentários são bem vindos !


[1] Nota de Tradução : veja-se o artigo Conselho europeu:  esperar e afundar-se , de  Jérôme Creel, Paul Hubert et Francesco Saraceno, Junho de 2012.

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